Quincas Berro D’água, Jorge Amado no melhor estilo fantástico.

jorge-amado-biografia

Para quem leu O nariz, de Gógol, ou O Demônio da Garrafa de Stevenson, maravilhas da literatura fantástica, ficará impressionado ao saber que o nosso bom e velho Jorge Amado também produziu algo no melhor estilo fantástico. A Morte e a Morte de Quincas Berro D’água é um exemplo da maestria do baiano que ainda continua encantando milhares de leitores. A história desse pequeno livro é muito boa. Nos faz refletir, questionar e, além disso, nos proporciona boas risadas.

Joaquim Soares da Cunha, mais conhecido Quincas Berro D’Água, foi um homem respeitável, exemplar funcionário público no auge da vida com seus cinquenta anos. Quincas levava uma vida aparentemente perfeita, ao lado de sua esposa, Otacília (já morta no início do livro) e sua filha, Vanda. Porém, em certo dia, Joaquim decide largar tudo e todos, e entrega-se a vida boêmia, com prostitutas, andanças pelos becos da cidade e com longas bebedeiras, que envergonham sua família, e cai no mundo para não mais voltar. Daí sua primeira morte, a moral, abandonando a família que parece sufocá-lo.

Após a primeira morte, Quincas é encontrado por uma velha, em um humilde e esfarrapado barraco em condições subumanas, um verdadeiro farrapo humano. Esse fato desencadeia o martírio de sua família, que além de não ter esquecido as humilhações que as bebedeiras do morto lhes causaram, ainda precisam arcar com as despesas do velório e enterro.

Jorge Amado aqui entra para nos apresentar o psicológico dos personagens, um a um, em seus dramas. Vanda, filha do falecido, tem lembranças boas e ruins do pai, entretanto, só consegue ao lado do caixão, recordar-se das ruins, e isso a deixa confusa e angustiada, pois quer sentir ódio mortal do pai, mas no íntimo de seu espírito não consegue.

O irmão, Eduardo, usa a contra gosto economias para deixar o defunto bem vestido e apresentável no velório. Todos os parentes tentam terminar o mais depressa possível com as cerimônias, numa espécie de marcha do esquecimento, pois querem enterrar Quincas e nunca mais recordar suas bebedeiras e vexames.

Um aspecto curioso, e que deixa os familiares de Quincas ainda mais perplexos e revoltados, é que o morto, mesmo no caixão, parece rir deles. Um riso debochado, como quem zomba da vida dos outros. Sonho ou realidade? Terá realmente Quincas partido para o outro mundo?

Essa pergunta parece não ter uma resposta, ainda mais quando quatro amigos de bebedeira de Quincas chegam ao velório, e inconformados com a morte do amigo, decidem lhe dar um adeus diferente. O resultado? Jorge Amado faz com que Quincas Berro D’água saia pelas ruas de Salvador rindo, de braços dados com um grupo de beberrões sem eira nem beira. O que lemos é uma narrativa fantástica brasileira, que une tragédia e comédia de um modo bastante peculiar, algo que somente uma mente com a de Jorge Amado pode conseguir.

Jorge Amado, o mestre da ambientação

Jorge Amado
O autor trabalhando em sua casa.

O que podemos falar de Jorge Amado? Um baiano nascido em uma fazenda, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Cresceu entre as plantações de cacau, desfilou pelos cais de Salvador, botecos e cabarés da grande Bahia de Todos os Santos. Conheceu pessoas de todas as classes sociais. Bêbados, pais de santo, prostitutas, malandros e menores abandonados. Jorge amado era de todos.

Com uma obra vasta, traduzida em mais de 40 países, Jorge Amado sempre tratou com simplicidade seu trabalho. Dizia ele que “Não escrevi meu primeiro livro pensando em ficar famoso. Escrevi pela necessidade de expressar o que sentia.”. Essa frase do mestre Amado traduz exatamente o que encontramos em suas obras mais significativas.

Em 1936, após Jorge Amado ter sido preso pela primeira vez, no Rio de Janeiro, por conta de suas atividades políticas, recebe uma proposta de José Olympio, o importante editor. “Escreva um romance e terá 500 mil réis.” Foi mais ou menos isso mesmo.

Sem nenhum dinheiro no bolso, mas milhares de histórias e personagens na cabeça, Jorge aceita a proposta. Em insanos 15 dias, ou 15 noites, nasceu Mar Morto, um de seus melhores romances. “Meu pai gostava de escrever à noite. Somente após certa idade, mais cansado, escrevia pela manhã”, diz Paloma Amado filha do escritor.

Mar Morto é um livro sobre o amor. Mas acima de tudo, uma história bem construída sobre os marinheiros, pescadores, malandros, velhos mulatos contadores de histórias, prostitutas e, maiormente, um romance sobre o mar, que ora é o herói do povo, ora a desgraça de famílias e pescadores.

Uma das características marcantes na obra de Jorge Amado é o seu poder de ambientação. Habilidade essa difícil de ser batida, pois Jorge Amado era um grande observador da natureza e um exímio contador de histórias.

Em apenas um parágrafo J.A é capaz de transportar-nos ao cais repleto de vida, onde uma tempestade se forma para açoitar os homens. Em poucas linhas é possível sentir o odor da cachaça, o suor das mulatas se esfregando nos fregueses dos botecos, ver os barcos saindo da praia, navegando direto para os braços de Iemanjá.

O capítulo que abre o romance Mar Morto é um dos mais belos de nossa literatura. A tempestade chega varrendo tudo, levando a vida de alguns, trazendo a esperança a outros. Sentimos como era o poder de observação e sensibilidade desse baiano de corpo alma. Eis um trecho:

A noite se antecipou. Os homens ainda não a esperavam quando ela desabou sobre a cidade em nuvens carregadas. Ainda não estavam acesas as luzes do cais, no “Farol das Estrelas” não brilhavam ainda as lâmpadas pobres que iluminavam os copos de cachaça, muitos saveiros ainda cortavam as águas do mar, quando o vento trouxe a noite de nuvens pretas

A noite veio com fúria e lavou o cais, amassou a areia, balançou os navios atracados, revoltou os elementos, fez com que fugissem todos aqueles que esperavam a chegada do transatlântico…

Diante do copo de cachaça o preto Rufino não sorriu mais. Assim com a tempestade, Esmeralda não viria.

Mar Morto tem personagens excepcionais. O romance conta a história de Guma, rapaz criado no cais da Bahia, e a meiga Lívia. Ambos se conhecem no terreiro de macumba do pai Anselmo. Daí nasce um forte amor.

Outras figuras surgem na trama para dar vida e cor a tudo. Rosa Palmeirão, uma mulher madura e viajada que adora amar os homens sobre as areias do mar. Preto Rufino, com sua voz melancólica, cantando para os marinheiros, Francisco, tio de Guma, uma espécie de âncora na vida do sobrinho, que o ajuda a aprender os segredos do mar.

Sob o olhar humano de Jorge Amado os dramas de todos os pobres e excluídos do cais se tornam importantes e merecedores de atenção. A forma como a narração corre leve, sem cansar, impressiona. Nenhum dos conflitos que surgem ao longo das 260 páginas é desinteressante.

Cabe destacar que na abertura do livro, Jorge Amado já vai avisando a todos: “Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia. Os velhos marinheiros que remendam velas, os mestres de saveiros, os pretos tatuados, os malandros sabem essas histórias e essas canções. Eu as ouvi nas noites de lua no cais do Mercado, nas feiras, nos pequenos portos do Recôncavo, junto aos enormes navios suecos nas pontes de Ilhéus. O povo de Iemanjá tem muito que contar”.

E Mar Morto é exatamente isso. Histórias da beira o cais da Bahia. Um romance forte a respeito de amor, loucura, humildade, coragem e amizade. Além de tudo, e, sobretudo, uma grande narrativa sobre o mar, misterioso e fascinante. Um mar que não aparenta ter nada de Morto, muito pelo contrário, abriga vida, amores e paixões.

Jorge Amado e Zélia Gatai
O escritor e sua esposa, Zélia Gattai.

Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, no município de Itabuna, sul do Estado da Bahia, e faleceu com 89 anos, em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Suas cinzas estão enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas.

Sulfürica Billi – Stoner do Cabrunco

Sulfürica Billi

1-Quando e como surgiu o Sulfürica Billi?

DENIS – A Sulfürica… acho que uns 4 ou 5 anos atrás. Eu vinha escutando já coisas que me deixavam tipo porra… isso com fuzz e umas distorções ficaria interessante. Eram coisas como Son House, Blind Willie Johnson, Charley Patton, essa galera do blues pré-guerra e tal.

Descobri eles num quadrinho do Crumb chamado Blues. Aí parti pra cima do Ares (lembra do Ares?!) e fui baixando tudo deles. Daí que foram juntando várias coisas ao mesmo tempo. Eu já tocava em banda com formação tipo “normal” (baixo, duas guitarras, essas coisas).

Mas aí depois de ver esses caras tocando e principalmente o Son House eu me pegava tentando fazer a mesma coisa no Tonante, saca?! Esse foi meu primeiro instrumento de corda meu mesmo. Eu ganhei ele. É o instrumento que eu mais me identifico porque, além de outras coisas, ele tem uma voz bonita.

É claro que muita gente lendo isso vai pensar ah, esse cara tá fazendo tipo, Tonantes não prestam, não é instrumento de gente séria, de músico que preste e bla bla bla, mas daí eu digo foda-se, cresça, tenha uma filha, tenha contas para pagar, adquira uma bactéria estomacal cancerígena e aí venha conversar comigo.

Grande parte das músicas do primeiro como do segundo disco foram feitas nele. Minha esposa, a Milena, já tinha me dado ele um tempo antes mas aí eu olhei pra ele na parede e pensei que porra é essa. E deixei ele lá. Eu não estava preparado saca?! Aí depois de ver esses caras tocando com instrumentos do mesmo naipe… porra, pra mim foi aquilo: esse Tonante é o mais próximo que eu vou conseguir chegar deles e… vai ser lindo.

E tá sendo. Meti um captador humbucker de guitarra nele, comprei um fuzz e chamei na época mais dois caras pra tocar. Nem era pra ser instrumental. Eu tinha umas músicas que ficavam na minha cabeça o tempo todo então eu tinha que coloca-las pra fora aí montei a banda.

Essas músicas não cabiam nas bandas que eu tocava, entende?! Então no começo eram duas guitarras e a bateria. Chegamos a ensaiar e tal mas não rolou. Daí eu disse foda-se, isso tem que sair (isso no caso tanto as músicas da minha cabeça quanto a banda) e aí resolvi deixar só dois mesmo.

De lá pra cá percebi que foi a melhor coisa porque não preciso ficar com idas e vindas com mais três ou quatro integrantes para resolver as questões.

LUIS – Surgiu através do grito de socorro da serpente mergulhada no esgoto da cidade

2-O que vocês costumam ouvir?

LUIS – tenho escutado muito Animal Collective, Battles, Primus etc

DENIS – tenho escutado muito Graveyard e umas músicas de ninar do leãozinho voador, além das paradas da galinha pintadinha. Isso é sério. Mas… há um tempo atrás ouvia direto Nelson Gonçalves e Nelson cavaquinho na época do primeiro disco. Muita coisa desse disco é chupada desses dois caras, só que, claro, disfarçada pro underground não perceber, senão já viu. Essa coisa das frases riffadas e tudo vem daí. Desculpa.

 

3-Quando vocês descobriram que deveriam tocar no formato de duo?

LUIS – decidiram antes de eu participar na banda

DENIS – foi aquilo q disse antes. A coisa ia fluir melhor só com dois porque muita gente pra dar opinião e cheia de vontade e tal acaba hoje em dia me dando nos nervos, saca?! Fora o fato de que o lance musical dos espaços que acabam ficando pelo bem ou pelo mal na falta de um ou mais instrumentos acaba sendo também uma forma interessante de trabalhar musicalmente.

Eu me sinto bem nessa falta. Na verdade depois de um certo tempo percebi que minha vida musical, se é que posso chama-la assim, se baseia acho que nisso. Na falta. Seja lá do que for. Então acho que inconscientemente também acabei assimilando isso na música e trabalhando isso de uma forma mais direta

4- Qual foi o processo de gravação do EP Lei e como tem sido os shows e a divulgação?

LUIS – os shows estão vindo aos poucos e vamos começar a vender cds em eventos de shows

DENIS – engraçado isso porque todo mundo chama de EP mas pra mim é um disco mesmo. Um disco com seis músicas ^^. Bem, lá nos idos de 2013/2014 me tornei Espírita-Umbandista. Antes disso eu já tinha um contato íntimo, digamos, com o Tambor de Mina. Entenda a Mina como uma religião maranhense de matriz africana, para encurtar a história, senão nós não saímos daqui e já são quase 22h e tenho q bater o ponto (sim, eu trabalho).

A partir da Umbanda minha vida tomou uma guinada um pouco diferente e aí essas músicas começaram a surgir, isso já em setembro de 2014. Então achei que deveria fazer um disco de rock que tentasse falar um pouco dessa minha relação com a Umbanda e com determinadas entidades.

Um disco que não fosse chato e igual ao que já existe quando se trata dessa relação. Veja, você tem Rita Benedito, Clara Nunes e tantos outros que trabalham ou já trabalharam nessa seara. Não queria fazer um disco chato do caralho com batuques e chocalhos e dizer ah isso é um disco de rock, vocês não entendem?!isso é um disco de rock. Saca esse tipo de discurso mentiroso e pseudo sei lá?! Não.

Eu queria trabalhar isso de uma forma mais brutal e elementar, direta e o mais simples possível, ou seja, guitarra e bateria. É como as coisas me vêm. É como eu sinto isso tudo. Isso dá pra ver no disco porque o nome das músicas entrega muita coisa. Cosme e Damião, Légua, Tranca Rua da Cancela, Eu gosto da Tua Pomba-gira Porque Ela Não Usa Marcassita… e por aí vai.

Aí depois de ter já uma certa quantia de músicas prontas parti pro Studio que é o mesmo do primeiro disco. Km 4 produções. Tudo feito pelo Ruan que gravou e mixou e serviu café e de quebra resolvia questões existenciais. Gravei guitarra e bateria porque também pensei que, como era uma viagem minha, a coisa toda tinha que partir de mim mesmo.

Além do fato de sair bem mais rápido quando você tá fazendo as coisas sozinho nesse sentido. Tem uma web série também que foi feita para acompanhar o processo de gravação do disco. Tá no youtube. Aí foi isso. Os shows estão vindo e estamos divulgando nas redes mas… ainda acho que deveríamos ser contratados por alguma super-gravadora pra podermos reclamar na beira da piscina com pantufas cor de rosa e óculos ray ban de sermos extorquidos por essa super gravadora e participarmos daquelas queimas e esmagamentos de cds com aqueles tratores poderosos e potentes em praça pública contra a pirataria. Estamos abertos a diálogos. Sempre.

5- Quanto a questão de equipamento, com o seria o som de vocês sem um pedal de Fuzz?

LUIS – seria meio Robert Johnson

DENIS – só perderia um pouco das acentuações em determinadas frases das músicas. Eu toco com drive ligado o tempo todo então o som sempre vem com aquela sujeira gostosa que todo mundo gosta mas nega que gosta. O fuzz acrescenta mais gordura e raiva na coisa toda. Sem ele ficaria tudo mais plano. Talvez… Phil Veras

6- De que forma vocês conseguem substituir a ausência do Baixo? Tanto na forma de se tocar bateria quanto na guitarra?

LUIS – acho q se souber usar os graves dos 2 instrumentos se for necessário o baixo fica meio desnecessário

DENIS – eu nunca nem pensei em substituir nada quando estou fazendo as músicas. É até uma boa ideia saber se as pessoas sentem falta do baixo mesmo. O que faço é tentar sentir no peito sempre aquele som cavernoso quando subo pras cordas graves. Tanto é que acho que em todas as músicas sempre tem algo que vem mais pra 5ª ou 6ª corda. É meio que um efeito psicológico de dizer ei, tem um chão bem aqui. Mas nunca é pensando em um baixo ou na substituição dele. Pode soar como se fosse mas não é.

7- Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para?

LUIS – Guia do mochileiro das galáxias, o processo, secreções excreções e desatinos, Lolita, o estrangeiro. Mistérios e paixões, vida aquática com Steve Missou, killer Joe, sinedoque Nova York, videodromo. Animal collective, tera melos, fela kuti, battles, gallo azhuu, um de cada

DENIS – livros:

Ereções, ejaculações e exibicionismos parte 1 e 2 (Bukowski)
Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (D.F Wallace)
Extinção (Thomas Bernhard)
Os demônios (Dostoiévski)
Blues (HQ do Robert Crumb)

Filmes:

Carne (Gaspar Noé)
Sozinho contra todos (Gaspar Noé)
Enter the void (Gaspar Noé)
Os deuses loucos (doc do Jean Rouche)
O cavalo de turin (Bela Tarr)

Discos:

From the Muddy Banks of the Wishkah (ao vivo do Nirvana)
Ok computer (Radiohead)
Sings the blues (Nina Simone)
Marta lagarta já comeu os 3 reis magos (Pataugaza)
The complete blind Willie Johnson (Blind Willie Johnson)

Sabe aquele dia que tu vai pedir alguém em namoro?! Pronto, essa lista é boa pra esse dia. E não esquece de deixar o do Bukowski bem visível que é pros pais dela olharem e saber exatamente o que você pretende com filha alheia ^^

8- Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para bandas iniciantes

LUIS – Não espere muito de ninguém além de você mesmo

DENIS – Faça o que tem que ser feito. Tenha bolas e faça (isso serve pras meninas também). Talvez você fique com fome, mas faça. E quando estiver fazendo e sentindo algo estranho, isso se chama vida e é assim que ela é. Apenas faça o que tem que ser feito.

Sulfürica Billi no Facebook


Patrícia Melo, um toque feminino na cena policial brasileira

neschling-patricia

 Para os viciados em um bom romance policial, Elogio da Mentira, de Patrícia Melo (Sem trocadilhos baratos) é bala na agulha.

Um ponto importante a ser observado é que, desde 63, com a publicação de Os prisioneiros, do bom e velho Rubem Fonseca, a cena literária policial brasileira está ganhando cada vez mais autores dispostos a reinventar o gênero que para alguns, estava caindo no limbo. Ledo engano.

Na leitura dessa semana, meti a cara no Elogio da Mentira, da Patrícia Melo. Para ser sincero com vocês, confesso, sem machismo ou pretensão, que torcia o nariz para essa escritora. Morri pela boca, fui tragado pela narrativa dela.

Patrícia constrói uma trama em que as chances de abandonar o livro é quase nula. Sempre fui fã de começos geniais, daqueles que na primeira linha o autor te dá um soco na cara e diz, rindo como o velho Bukowski, “Vamos lá idiota, leia essa merda e surte com o final.”

O livro faz uma crítica ao mundo editorial, criando situações em que o personagem-escritor tem diversos dos seus enredos rejeitados

por seu editor, um sujeito que valoriza somente o que é comercial e lucrativo. Além disso, Patrícia faz uma homenagem aos mestres do gênero, como Edgar Allan Poe, James Cain e Rubem Fonseca para quem ela dedica o livro.

Mas vamos ao enredo. José Guber é um escritor explorado por seu editor e tem um peculiar interesse por cobras. Em suas visitas ao Instituto Soroterápico, conhece Fúlvia Melissa (raio de nome) e começam a ter um caso. Fúlvia é casada e seu marido, um sujeito bipolar, a espanca regularmente, tornando as coisas mais difíceis.

Entre um livro rejeitado pela editora, noites de amor com Fúlvia e visitas para observar cobras peçonhentas, nasce a ideia do crime perfeito. Como todo crime perfeito necessita de um morto e nenhuma pista, Fúlvia e José decidem se libertar de Ronald, o marido violento.

O livro vai ganhando volume à medida que, ao planejar o assassinato de Ronald, o casal percebe que matar alguém não é tão simples como nas histórias de Raymond Chandler e Ross Macdonald, e o que era para terminar bem, foge do controle.

Com linguagem fluente, combinação de elementos não muito comuns dentro do gênero e diálogos à La Saramago, Patrícia Melo constrói um livro peculiar e impossível de largar.

Raro Zine Fest – A estratosfera bragantina demolida em 4 atos

Neste último domingo, 08/11/15, tivemos o privilégio de cobrir um dos melhores eventos do ano. O Raro Zine Fest, só não ultrapassou a perfeição, por problemas técnicos em um dos amplificadores. O que não prejudicou em nada as apresentações. Pelo contrário, fez com que a criatividade e energia punk, fizesse o rolê dar certo.

Quem abriu a noite, foram os nossos amigos bragantinos do Deskraus, com um show furioso, de fazer subir poeira do chão. Mais pesado e rápido, que apresentações anteriores. Fabiana Ramos, a frontwoman ( que faz bonito em todas as suas apresentações), cantou com energia contagiante e a banda acompanhou com a destruição sonora. Destaque para Miséria, Desgraça, Im my Eyes e em resumo todas as canções.

Deskraus

Deskraus

Na sequência, uma das bandas mais tradicionais de Atibaia, o Attack force, veio mostrar porque, mesmo com o passar dos anos, mantém-se como um dos nomes mais importantes do metal em nossa Região, uma porrada seguida de outra. Rodrigo Ortiz, continua levando esta banda com gana e truculência há anos. Grande apresentação.

Attack Force

Attack Force

O Cúmplice, mesmo enrolado em maus lençóis, conseguiu contornar o problema com o amplificador de guitarra e a ausência da outra guitarra, de Alessandro Soares. Show espetacular, que começou chutando o maxilar com a canção Cronos, onde também destacamos a performance do baterista Luiz Sabateh. Incrível…Karen e Alessandro revezaram-se no baixo, fora as participações dos integrantes da banda portuguesa, Besta. O cúmplice fez um show memorável.

O Cúmplice

O Cúmplice

Para fechar a noite, os portugueses do Besta terminaram de demolir a estratosfera, com peso, técnica e apresentação coesa. Performance magistral do vocalista, encerraram a noite com gosto de “quero mais”. Parabéns ao German Martinez, por orquestrar ( hauhuhuhuh, isto é, organizar ) um evento tão bacana e que tem dado muito certo. Aguardamos as próximas edições.

Besta

Besta

Trovão Tropical – Psicodelia e boas bandas em um só lugar!

A Cïdade Aträs da Neblïna
A Cïdade Aträs da Neblïna

Entevistamos o Tiago  Gonçalves membro da banda A Cïdade Aträs da Neblïna e integrante do Coletivo Trovão Tropical, que veio falar um pouco sobre as atividades e bandas do Trovão Tropical.

1-Quando e como surgiu o coletivo Trovão Tropical?

 O grupo se juntou pra começar alguma coisa no final do ano passado, Outubro de 2014. Todo mundo já tinha banda, fazia eventos, cada um na sua pegada desde muito tempo, mas a gente sempre teve uma questão de não se encaixar muito na cena mais “brutal”, de metal e de metalcore, por exemplo. Eu e o Darlan (que até pouco tempo tocava na Valga, antes tocou um tempo na The Sexons, enfim…) costumávamos sempre trocar ideia de misturar os estilos de banda, trazer coisa nova, integrar outros tipos de arte nos eventos. Quando a gente percebeu que tavam surgindo bandas que tinham uma proposta diferentes, não tão moldadas dentro de um padrão, a gente resolveu se organizar um pouco mais pra pelo menos estar em contato. O Danilo Nagib (Marianaa, Jewish Mandiolo, Junki Buda) é um amigo que colou agregando bastante também, os projetos que ele tem montado tem ficado cada vez mais interessantes e também apresentou pra gente a turma da Benti.Vi (o Bento e o David).

Uma ou outra reuniãozinha descontraída pra jogar as ideias na mesa e ver o que cada um podia oferecer e já começamos a organizar eventos com as bandas que a gente tava vendo surgir, tentando colocar no mesmo espaço bandas interessantes e que a gente sabia que ainda não se conheciam muito, buscamos fazer tudo num esquema que fosse tranquilo pra todos, sem muitos gastos, fizemos umas cópias bem caseiras do álbum da Bent.Vi e do split com a Jewish Mandiolo, Blotr e Marianaa e fizemos um evento na sala da minha casa, em Barra de São João, pra inaugurar as atividades do coletivo.

Agora a gente tá ganhando mais espaço, fizemos um Tropical Fest na UFF de Rio das Ostras com a MOS, Panorama Dreams, Jewish Mandiolo, A Cïdade Aträs da Neblïna e Junkie Buda. Temos conseguido espaço num Pub em Campos dos Goytacazes para levar as bandas do coletivo, a MOS tem viajado bastante ultimamente fazendo bastante show. Aos poucos tamo aumentando o acervo da nossa banquinha com Eps das bandas, Pôsteres e outras coisas, levando nas viagens dos shows e pretendemos lançar uma coletânea assim que a gente conseguir reunir um material legal da galera aqui do interior do Rio, tem muita gente que ainda tá na batalha de gravar um primeiro EP mais bacaninha e tal. Aos poucos vamos vendo onde isso tudo vai dar.

 

2-O que as bandas do coletivo costumam ouvir?

Ah, isso ai varia bastante! Do que a gente já lançou no bandcamp tem a Dead Limbs que é influenciada pelo Black Metal e Post-rock, a MOS é uma mistura de ritmos danada, alguns curtem um som mais regional, brasileirão, eletro rock, punk, noise. A gente não se limita muito não.

3-As bandas possuem um som meio viajado, é característica do coletivo?

Acho que dá para dizer que sim! o nosso lance é trabalhar música com personalidade, sem precisar se encaixar num padrão muito específico. O som das bandas é resultado da viagem pessoal de cada integrante e acho que a maioria das bandas tá na sintonia de dar vazão pra esse tipo de experiência.

4- Qual foi o processo de gravação do EP Ato I do A Cïdade Aträs da Neblïna e como tem sido os shows e a divulgação?

A gente gravou o EP no último final de semana de Julho. A gravação foi feita no estúdio na casa de um amigo chamado Paulo, o estúdio chama DubYard. Quem fez a produção toda pra gente gravar foi o Rafael Rezende, um amigão que já colava comigo sempre e toca no Panorama Dreams. Na verdade, ele que apresentou a gente pro Paulo e sugeriu a gente fazer uns teste lá e gravar o EP.

Tentamos fazer tudo o mais analógico possível, inclusive a mixagem e finalização, experimentamos bastante, gravamos instrumentos que a gente não costuma usar em shows, gravamos uma música com metrônomo, outra sem. Tentamos ao máximo explorar o que a gente conseguia fazer com as coisas que a gente tinha a nossa disposição.

A gente é uma banda que faz poucos shows, a maioria é aqui na nossa região mesmo, Rio das Ostras, Cabo Frio, Macaé, então a divulgação tem sido muito pela internet, em blogs. A gente precisa se organizar bem para poder fazer uma tour por que um trabalha pra caralho o outro tem escola, então a gente tem sempre que achar um ritmo que atenda a todos, mas acredito que em 2016 provavelmente a gente consiga ver isso de dar circulada por aí fazendo shows.

5- Quanto a questão de equipamento, como foi este lance de gravar com equipamento analógico?

Nossa, a pessoa ideal pra falar disso seria o Rafael por que ele entende bastante ! Mas, tentando resumir, ele tem uns equipamentos que ele encomendou de um amigo e que a gente faz a mixagem dos instrumentos fora do computador, numa caixa de madeira com válvulas que é a mesa de som dele e na hora de finalizar ela funciona como um compressor.

É um esquema de registro interessante por que acaba soando como se fosse um álbum antigo. A gente usou o computador pra captar os sons, mas quisemos gravar com as caixas microfonadas pra captar a reverberação própria do ambiente, fazer o mais orgânico possível.

6- Tiago fale um pouco sobre as bandas do coletivo?

Ah, eu sou fã de todas ! É o tipo de gente que cola nos rolês para ouvir som, que se interessa em saber o que tá rolando. A energia nos eventos é muito boa. A maioria tem uma cabeça boa, com ideias pra frente. Todas aqui do interior do estado do Rio: Campos dos Goytacazes, Macaé, Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Cabo Frio e por aí vai…

O som é aquele lance; tem noise, tem voz e violão, eletrônico, tem pós-punk, post metal.

7- Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para?

Livros/HQs:

1) Bukake (Pedro Franz)
2) Garotas de Tóquio (Fréderic Boilet)
3) O Espelho de Egon (Horácio Soares)
4) Deus, essa gostosa (Rafael Campos Rocha)
5) T.A.Z. (Hakim Bey)

Filmes:

1) Pulp Fiction (Tarantino)
2) Matrix (todos) (irmãos Wachowski)
3) Beleza Americana (Sam Mendes)
4) A praia (Danny Boyle)
5) Adaptação (Spike Jonze)

Discos:

1) From Muddy Banks of Wishkah (Nirvana)
2) Dissertation, Honey (The Plot to Blow up the Eiffel Tower)
3) The Eternal (Sonic Youth)
4) The Angel and the Dark River (My Dying Bride)
5) Disintegration (The Cure)

8- Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para bandas iniciantes

Confesso que essa eu acho um pouco difícil, mas, de um modo gera, aquele bem basicão: faça o som que você sente vontade, ouça música, vá a shows, conheça pessoas!

Trovão Tropical no Facebook

Churumi lança primeiro disco, confiram!!!!

Depois de percorrer 6 anos tocando por aí, eis que surge um disco do Churumi, duo de Punk Rock insano de Bom Jesus dos Perdões-SP, com letras sarcásticas e influências que vão de Merda, MDR, Napalm Death, Amado Batista e Luiz Gonzaga. Disco bonito, bem gravado e com letras inspiradoras. Refrões criativos e hilários na linha de: “Cagaram no banheiro e agora está fedendo”, “Harry Nóia que usa a pedra do rim do diabo” e “Sou banguelo mais tenho um patinete”. Bode Macabro e Diego Gomes Menezes, parabéns por gravarem esta pérola. Diversão garantida!