Qual o sentido da vida? A morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstói

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Qual seria a maneira de morrer dignamente? E se naqueles últimos momentos, os mesmos que antecedem o derradeiro final, pudéssemos reprisar a vida, como um filme. Este é mote desta novela, inspiradora de Lev Tolstói. Onde o juiz Ivan Ilitch, adoece e fica desesperado por não saber quem ocupará o seu cargo como juiz.

A doença é uma causa secundária, senão terciária. E ao lembrar-se de sua juventude, neste seu estágio de alucinação, busca as boas sensações de outrora, enquanto jovem. No entanto recordações amargas também, emergem do fundo do oceano de seus pensamentos.

Uma vida divagando sobre a coexistência

Desgostos com esposa, família, cargos jurídicos e amigos. Buscando sempre algum sentido na vida, embora o mesmo tenha vivido repleto de regalias. Mas tanto transtorno que foi relembrado, que a sensação é de que não tivesse existido. Seus amigos, não gostavam de suas atitudes presunçosas e arrogantes.

A história se desenrola com Piotr Ivanovitch e Schwartz, dois amigos próximo do juiz Ivan Ilitch, no velório. Schwartz zombando do defunto e tentando disfarçar a não religiosidade. Piotr Ivanovitch, dando os pêsames a esposa Prascóvia Fiódorovna, senhora baixa, gorda e estranha.História incrível, que possui o poder de questionar nossa existência, como pessoa e sua utilidade no meio social.

Considerada por Nabokov, uma das obras máximas da literatura russa e por muitos, uma das mais perfeitas novelas escritas. A morte de Ivan Ilitch, dispensa comentários, sendo uma ótima indicação de leitura rápida e concisa. Leiam a Morte de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

Raro Zine Fest – Sarcofagos Blues Duo, Facka, Churumi e Crasso Sinestésico

Domingo 24/01/16, tarde chuvosa, até poste caiu nas proximidades. Literalmente, só não caiu na cabeça de alguém, pois haviam os fios tensionados. Caso contrário, seria um bom dia, para passar desta para melhor. Mas como nem tudo é tristeza, neste domingão do Faustão, rolou o primeiro Raro Zine Fest em BJP, o festival aconteceu no Zebra Lanches.

Apesar de algumas intempéries, o tempo colaborou. Quem abre o festival é um duo que já foi da casa, mas agora é de Bragança Paulista. O Crasso Sinestésico, com uma vibe positiva e cozinhando com mais garra, mostra uma nova sonoridade, influenciada por guitar bands dos anos 90 e Punk Rock. Fechou com cover das Mercenárias, uma canção chamada Me perco neste tempo, composição do Edgar Scandurra, que dispensa apresentações.

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Por German Martinez [Rarozine]

Na sequência, os radioativos, inenarráveis, do Churumi, fizeram com que o liquido danoso e de alta toxidade, invadisse as narinas de todos que ali estavam. Tirando os clássicos do disco lançado no ano passado, canções novas e direito a cover G.E.D.N (Leptospirose) e Ace of Spades (Motorhead). O duo mais bonito da cidade, não tenham dúvidas.

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Sarcofagos Blues Duo, blues bonito direto da Argentina, sonoridade mágica. Para amantes de Sea Sick Steve, Chucrobillyman, Luis Tissot, Doo Rag e Left Lane Cruiser.Lance bonito.

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Fechando o festival, O Facka, encabeçado por Matias Pícon (Animal Cracker, Sonora Scotch) na guitarra, Luis Tissot nas baquetas e Rafael no sax. Experimentalismo, Garage e um som aquático, com texturas animalescas. Botijão de gás, pedaço de zinco, para fazer música não precisa de muito, apenas de criatividade, fica dica, para os chorões

“não tem nada para fazer na minha cidade”.

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Agradecimentos ao Raro Zine, German Martinez, Daniel Caribé, as bandas e amigos.
Grande Raro Zine Fest, aguardamos os próximos.

Lucky Lupe – duo instrumental de Post-Rock direto de Portugal

Entrevista com David Ferreira, guitarrista/baixista da banda portuguesa Lucky Lupe.

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1 – De onde vem o nome Lucky Lupe?

O nome surgiu de uma brincadeira, Lucky = Sorte (no início da banda e por falta de experiência com o nosso formato, era uma sorte acertar bem as gravações dos Loops, daí o Lucky), Lupe- em associação aos loops não queríamos que fosse tão obvio daí pensámos em Lupe que soa parecido com Loop 🙂

2 – Por que um duo?

Bom, um duo porque achamos que era o suficiente, eu toco o doubleneck de guitarra e baixo mais os synths e controlo os loops, e o baterista ficou com a bateria acústica e o SPDSX. O fato de serem só 2 também facilita no processo criativo no sentido que há mais espaço para a criatividade individual, numa banda de 4 ou 5 elementos já é muita gente a dar ideias ….

3 – Como foi o processo de gravação do EP?

Foi bem simples, fizemos uma pré-produção com todos os temas que queríamos gravar, fizemos uma espécie de “guias” e o baterista gravou primeiro as baterias, e depois gravamos o resto dos instrumentos, foi tudo feito em 2 dias no nosso estúdio, com o apoio de um amigo (Bruno Plattier) que tratou das captações, misturas e masterização)

4 – Como funciona ao vivo, já que é um duo e o som da banda é repleto de texturas e programações?

Se fores ver qualquer um dos nossos vídeos, vais reparar que é tudo tocado em real time, ou seja, não há nada pré-gravado ou programado, todos os sons são tocados na hora, ao vivo é só uma questão de estarmos MUITO bem ensaiados e com a cabeça e ouvidos no lugar 🙂 , é meio pesada a coisa principalmente para mim que tenho de me lembrar de todas as malhas, acertar todas as gravações nos loopstations, ter de me lembrar que pedais tenho de ligar/desligar, os sons dos synths, tocar bem as coisas e tentar divertir me um pouco, uma vez num show nosso no CCSP uma das bandas que tocou conosco veio falar comigo e a dizer qualquer coisa do tipo: Cara nesse seu trampo não dá para tocar chapado, foi uma grande risada porque é verdade, tens de estar totalmente focado na coisa, senão vai correr mal 🙂

5 – Fale-nos sobre as influências da banda?

As influencias são na verdade todo o nosso percurso enquanto ouvintes de música, e como músicos, seria injusto nomear uma ou outra banda, porque na verdade ao longo da nossa vida já escutamos tanta coisa que nos agradou e influenciou que se torna meio difícil dizer uma ou duas bandas ….

6 – Quais os planos do Lucky Lupe para 2016?

Os nossos planos são continuar a promover com shows o disco de estreia, saiu no Brasil dia 3 de dezembro de 2015 e em Portugal dia 7 de janeiro, é bem recente, além disto queremos acabar umas músicas novas para as gravar no decorrer de 2016, a nossa ideia será ter novo disco cá fora no final de 2016

7- Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para uma ilha deserta?

Pergunta difícil… Bom, o Show do Jeff Beck no Ronnie Scotts de Londres é sem dúvida a melhor aula de guitarra que já assisti na vida, é de fato maravilhoso, levava esse DVD, depois levaria qualquer um dos 4 primeiros discos dos Van Halen (foi por culpa deles que comecei a tocar guitarra), levaria também um disco dos Police, um disco dos Kraftwerk, talvez o Substance dos Joy Division, um disco dos Rolling Stones, o Breezin do George Benson, o Nevermind dos Nirvana… acho q já passei a conta eheheh… levava aqueles clássicos que me marcaram….

8-Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para bandas iniciantes?

Bom, o principal é fazerem musica porque gostam de fazer música, estar na música por amor á música e não porque querem ter sucesso ou ser famoso… Não desistir, fazer a música que gostam, e procurar aprender o mais possível, como? Escutando muita música!!!

Fanpage do Lucky Lupe

O segredo dos seus olhos – um filme de Juan José Campanella

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O segredo dos seus olhos, dirigido pelo argentino Juan José Campanella, é uma produção argentina, que chama atenção não só por ser extremamente sofisticada, mas por possuir um roteiro repleto de arcos dramáticos e reviravoltas na vida dos personagens.

De início, a sensação é de que, “lá vem mais um daqueles filmes policiais com a fórmula batida”, mas ao decorrer da trama, é possível identificar que é bem mais do que isso. O filme conta sobre um estupro seguido de assassinato da bela e jovem Liliana Colotto. Benjamín Espósito servidor público do Fórum Criminal de Buenos Aires, fica incumbido de investigar o caso.

Além de Espósito, há mais 2 personagens de destaque, seu amigo e assistente Pablo Sandoval e Irene Me­néndez Hastings, nova secretária do juízo. Ambos desenvolvem papeis importantes na trama.

Espósito encontra-se totalmente envolvido no caso, chegou a conhecer o bancário Ricardo Morales, com quem Liliana era casada e dividia uma vida feliz. Ricardo, que clamava por justiça, não tinha ideia de como poderia começar esta investigação. Neste meio tempo Espósito perdidamente apaixonado por Irene, não sabe como proceder. Os dois são de classes sociais e vidas diferentes.

Mas as pistas para que se encontrasse o assassino, estavam nas fotos de Liliana, onde o assassino sempre a encarava, em todas as fotos, como se buscasse um objeto extremamente valioso. Isidoro Gómez, antigo namorado de Liliana, era o suspeito que deixara de ser acima de qualquer suspeita, pela simples falta de controle emocional ao ser interrogado por Irene.

Nesta confusão de sentimentos, de angustias, dores e corrupção. Espósito sente a amargura do medo de amar, da incerteza, da esperança, de nada disto concretizar-se. Deixando lacunas na vida de ambos, pois Irene também espera, mesmo possuindo um noivo, que Espósito se declare.

Em resumo, grande filme, com fotografia e trilha sonora de bom gosto, bom roteiro, não deixem de assistir  O segredo dos seus olhos. Fica a dica!!!

Gallo Azhuu – Totem [2015]

Gallo Azhuu é uma banda linda de São Luís, capital do Maranhão, fazem um heavy rock (eles pediram para usar este rótulo, mas cá entre nós, é aquele Hard pesadão do início dos anos 70, bonito, classudo e que faz qualquer esqueleto balançar) e é formada por Denis Carlos (bateria), Patrick Abreu (guitarra e voz), Rafael Almeida (baixo) e Ruan Cruz (guitarra).

De cara você já ganha que o Gallo Azhuu faz aquele som anos 70, Black Sabbath, Led Zeppelin e diria até Rush, Repleto de nuances e viradas, com tempos quebrados. É o caminho da felicidade sonora. Inevitável a referência. Peso e psicodelia, guitarras bem timbradas, cozinha bonita, que leva o som no peito, com aquele grave bem definido.

Suas letras abordam temas que levam a conhecer histórias de mundos invisíveis, criaturas mágicas, aventuras inebriantes, uma trilha sonora original e única.

Mais uma vez um ponto a ser ressaltado da banda, a sonoridade é incrível. Como podem fazer um som tão coeso. Guitarras dobradas soando em uníssono, coisa fina.
Hard Rock em português, dispensa comentários, bom é pouco, banda excepcional.
Confiram o som dos caras do Gallo Azhuu:

Onde encontrar os caras:
Site do Gallo Azhuu
Facebook
Youtube

Ética e vergonha na cara! – Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho

Se vocês acham que entendem um pouco sobre ética, além de outros conceitos morais, tais como, escolhas sem valores, corrupção, política vergonhosa entre outros, chegou a hora de ler Ética e vergonha na cara! De Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho.

Debate fluído, que mais parece uma conversa de amigos, consegue cativar nas primeiras páginas com a história do corredor espanhol Ivan Fernandez que avisou o corredor queniano Abel Mutai que havia parado antes da linha de chegada. Embora imaginasse que havia vencido, Ivan decidiu empurrar o queniano até a linha de chegada, Ivan indagado por inúmeros jornalistas. Responde ao Jornal El País:

“Eu não merecia vencer. Eu fiz o que tinha que ser feito. Ele era o real vencedor da prova, liderava com folga e eu não tinha condições de vencer. Ele (Abel Mutai) cometeu um erro e, assim que vi isso, eu sabia que não poderia me aproveitar da situação”.

O que para muitos parece ser loucura, para Ivan Fernandez, faz parte de sua bagagem, embora seu técnico tenha o advertido com veemência.

Clóvis de Barros Filho faz um adendo em relação ao poder de escolha das pessoas, de que forma as pessoas se isentam de escolher, porque escolher é tarefa árdua, até para os sábios:

“Que tipo de literatura realmente vende numa livraria? ‘Dez lições para isso’, ‘Dez lições para aquilo’, ‘Como eliminar seu chefe’, ‘Como passar a perna no seu adversário’, ‘Como dar prazer na cama’, ‘Como não sei o quê’.

Por que livros assim vendem muito? Pois queremos, de certa maneira, tirar de nós, a necessidade de ter que escolher a cada momento – porque as escolhas são difíceis.

“Escolher é um abacaxi (…). Então o que indivíduo faz? Compra uma vida: ‘Os 7 hábitos das pessoas felizes’ (…) E deverá surgir ‘o oitavo hábito’, porque os sete primeiros claudicaram. Ora, e por que isso vende tanto? Porque o indivíduo prefere uma solução pronta a outra que ele tenha que buscar” (pág. 65)

Sobre o meio como o transgressor da ética, mas que no final das contas ainda é possível dizer não e sair do lugar comum:

O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção” (MARX; ENGELS, 1999, p. 28)

Clóvis ratifica a ideia de que se pode fugir do pensamento de Marx, lutando contra o meio em que se vive, embora a batalha seja árdua, a vitória será excepcional para o vencedor.

Cortella continua sobre a questão do sistema em nossas vidas:

“No que diz respeito ao sistema, por exemplo, não é porque a instituição matrimonial vive um momento de crise em nossa sociedade, que o mesmo tem que acontecer com o meu casamento; ou seja, não é uma obrigatoriedade, não é um imperativo”.  (pág.66)

Mas Cortella ainda afirma, que o sistema pode haver falhas e que a corrupção, mesmo que em uma instituição matrimonial, pode ser corrompida. Como todos nós estamos propensos a subverter a ética, subornando, mentindo, aliciando, enganando e puxando o tapete das pessoas. Fica a dica, leiam a Ética e vergonha na cara de Mario Sergio Cortella e Clóvis de Barros Filho.

Guantánamo Boy, um romance sobre intolerância e injustiça.

Anna Perera

Para quem gosta de livros com a temática igual à daqueles filmes baseados em fatos reais, trouxe algo que talvez possa interessar.Apesar de ser uma ficção, o romance Guantánamo Boy, da inglesa Anna Perera (Sim, não parece um nome God save the Queen, mas não é importante isso agora.), ganha contornos muito reais, pois aborda, além dos dramas conhecidos no oriente médio, temas recorrentes em nosso cotidiano social. A intolerância e a injustiça.

Guantánamo Boy é o primeiro romance para jovens da autora, entretanto, o livro é tocante mesmo para nós, leitores mais maduros. O livro conta a história de Khalid Ahmed, um adolescente de 15 anos que gosta de esportes, em especial o futebol, e como se espera, adora paquerar e sair para divertir-se com os amigos. Universo jovem que conhecemos tão bem.

Khalid vive num mundo cercado por assuntos que praticamente desconhece. Política, religião e diversos conflitos que parecem não fazer efeito algum sobre a vida de nenhum jovem em sua idade.
Inglês, mas filho de mãe turca e pai paquistanês, o imaturo Khalid sofrerá na pele os horrores e absurdos que cercam o mundo mulçumano numa época tão conflituosa, logo após o atentado que pôs abaixo as torres gêmeas em 11 de Setembro.

O pesadelo vivido por Khalid ganha proporções gigantescas e assustadoras quando, durante uma visita ao Paquistão, para rever parentes de seu pai, o adolescente cheio de sonhos e uma vida inteira pela frente é confundido com um terrorista da Al-Qaeda. E após ser sequestrado e torturado, vai parar atrás dos portões de Guantánamo, a famosa prisão americana em solo cubano. E é lá que, da mais cruel e dolorosa forma, Khalid vai conhecer e viver na pele o drama de pessoas que são tratadas sob condições desumanas, e onde nem mesmo a religião é respeitada. Um lugar onde o ser humano deixa de ser o que é. Leia um fragmento do livro:

Por um segundo, Khalid pensa ouvir uma porta de carro abrindo e fechando, mas era só a bandeja do jantar sendo empurrada para dentro da cela. Khalid olha de relance para aquela carne cheia de nervos, tomates aferventados e uma bola de arroz malcozido. Decide-se primeiro pela banana pequena, depois esfrega o braço com força, tentando fazer desaparecer as marcas vermelhas dos dentes. Agarrando-se às paredes, Khalid cambaleia até a porta, bate e chuta. Alguém grita seu número:
“256!”
A portinhola de metal é destravada e aberta, provocando um estrondo contra a grade. Khalid esmurra o corredor pelo buraco em forma de feijão, berrando e xingando. Dois minutos depois, guardas entram em sua cela e, com mãos ágeis, logo o prendem com as algemas. Khalid ergue a cabeça contundida.
“Obrigado!”, diz. Sentindo um estranho prazer ao ver seres humanos comuns, em vez dos monstros sombrios que povoam sua mente. Mesmo que sejam apenas os guardas, de repente Khalid se sente grato a eles.”

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