Crônicas de um professor alucinado. Selfie Generation

Quase todo o dia encontro uma senhora na fila do mercado ou um engravatado com pinta de empresário comentar, enquanto abastece o carro “Meu filho não está aprendendo nada naquele maldito colégio.” Passo perto e finjo não saber o motivo.

Morro de vontade de parar e explicar aos pais e avós das pequenas criaturas “pensantes” que as “belezinhas” que vão ao colégio todas as manhãs não entendem a dinâmica de uma sala de aula. Não pegaram e não querem pegar o espírito da coisa.

No tempo do meu avô, do meu pai e no meu, era simples. A aula mais produtiva era aquela GLS (Giz, lousa e saliva) Tinha professor que ensinava da Revolução francesa ao 2º Reinado pra gente só com um toco de giz verde oliva, coisa que nem dava pra ver naquele maldito quadro negro. Falava, falava, um aluno perguntava, alguém tirava uma dúvida e ele seguia falando. Nós alunos? Bem, copiávamos e íamos enchendo o caderno. Vários defensores modernos da educação podem e devem se contorcer de ódio, e tem todo o direito, mas que antigamente o lance era diferente isso era. Os pais e alunos eram outros. Os mimos eram outros. A tecnologia era um computador de tubo com Windows 95. Antes se buscava um pouco de conhecimento na escola. Hoje se busca qualquer coisa e quase nunca conhecimento.

Um dia desses, depois de passar míseros tópicos no bom e querido quadro para explicar a matéria, escuto perguntas geniais.

“Professor, preciso copiar? Vai cobrar isso na prova?”

Bacana. Digno de aplausos. E como se não bastasse, para guilhotinar o meu trabalho, metem a mão no bolso e tiram a porra do iphone pra tirar fotinho do quadro. Selfie de quadro negro? Essa é boa, minha letra logo mais no facebook, exposta como um manequim na vitrine.

Por outro lado, esse é o momento mais esplêndido da aula. Instante em que paro e reflito. Lembro do cara abastecendo o carro importado e reclamando que o filho não aprende nada no colégio. Rio até doer o estômago. Pensando bem, melhor mesmo é eu comprar um iphone e começar a fotografar tudo pra mostrar pros meus filhos e netos. Principalmente o quadro negro da escola.

 

O busão

Você deve imaginar aqueles dias que a gente volta do serviço meio bêbado de cansaço, e é nesse momento que acabamos fazendo as maiores cagadas e dando descarga.

A rotina massacrante me rendeu uma história bem absurda. Pensando agora sobre isso as vezes tenho a impressão que sonhei, me custa acreditar que a vida me ofereceu uma história tão cretina quanto esta.

Eu morava em uma cidade e trabalhava em outra assim como a maioria das pessoas. Depois de um dia inteiro de reclamações e explicações, claro, a de saberem que eu era professora de informática, aliás, não só professora, recepcionista, faxineira, assistente de cobrança, e entre muitas aspas, administradora indireta, é como assim dizem uma “Dita” (aquela mulher que faz de tudo, sabe). Tudo bem que não tinha reconhecimento merecido, mas por força maior sempre insisti em trabalhar não como professora, mas como Dita e isso nem chegava a ser um problema.

O dia capcioso chegou ao fim. Um dia cheio de justificativas e bem movimento, dia de recebimento das mensalidades. Como era de praxe eu fazia os meus malabares que pra que tudo fosse acertado, fechei o caixa e respirei fundo. Ufa!

Sai de lá pisando em ovos, meio desatenta, acredito profundamente que eu estava lesada nesse dia.

Você já passou por um daqueles momentos que você sente tanto cansaço e dor que você fica flutuando? As coisas a sua volta são um pouco diferentes, mesmo que tenha visto bilhões de vezes aquele ninho na árvore ou tenha lido centenas de vezes aquela frase obscena pichada no muro, ainda sim, tudo tem um outro significado.

E lá estava eu, subindo um interminável morro, já eram mais 21 horas. Cheguei no ponto e pensei em aproveitar a mureta do próximo ponto e me encostar por lá.

Pronto estava fazendo a via sacra, aproveitei para comprar isopor com gosto de milho ou cebola (tudo tem sal e gordura), caminhei para o ponto pensando sabe lá o que (borboletas na panela, com meias em formatos de rosas de divagações e palavras incomuns).

Sentei na mureta, e claro que a Lei de Murphy estava a meu favor: Se está ruim, vai piorar.

Os minutos eram intermináveis e decidiram brincar com a minha paciência, cheguei ao ponto 21:20 horas e eram quase 22:00 e nada do maldito ônibus aparecer, quando se súbito imersa em minhas ideias pouco cabíveis me aparece um ônibus, não era o ônibus que costumava pegar, porém na ânsia de ir pra casa e claro dormir, dei sinal pra que ele parasse. Vai que tinha mudado?

O ônibus parou, cumprimentei o motorista com um breve “boa noite”, sem olhar muito, subi as escadas, logo que coloquei os pés no corredor do ônibus uma vozinha que disse pra voltar, sair dali, tinha alguma de errada naquilo.

Poderia pedir para parar me desculpar, entretanto recobrei um resto de estupidez que tinha e me contive, achei um banco e me sentei.

Observei o ambiente, era fúnebre, meio que “ônibus fantasma”, tinha alguma coisa estranha e a vozinha na minha cabeça dizendo: Que porra é essa!

Num banco atrás de mim do outro lado do corredor vi um homem com chapéu de palha, barba malfeita e um imenso bigode, em outro banco uma mulher imensamente gorda com roupas mais largas ainda, com um cabelo totalmente armado, e no primeiro banco um menino pequeno ranhento que me olhou fixamente quando entrei, e mais outras pessoas estranhas que não consegui distinguir no fundo do ônibus tamanha a escuridão.

Logo que fiz o reconhecimento da área e me acomodei, percebi que havia um rapaz de se dirigia de um lado para outro, com jaqueta de bege e calça social, ele me lembrava o Duffy, o personagem do filme “Todo mundo em Pânico”, uma paródia.

Juro que poderia dizer que ele tinha algum problema mental, era um comportamento indefinido, eu estava bêbada de canseira, num lugar diferente, bem não estava lá nas minhas faculdades mentais favoráveis e nem tranquilas (desculpem o trocadilho).

Cheguei a pensar que tinha entrado num daqueles ônibus de excursão que levavam grupos para algum lugar longe, os quintos do inferno por exemplo.

Minha cabeça trabalha de forma criativa e esquizofrênica na maioria das vezes, portanto criei uma história: a crer que o garotinho tivesse a mãe e o pai, os dois estavam se encoxando aos fundos do ônibus (casal apaixonadíssimo) e o chapeludo fosse o tio e a gorda, a tia ou cunhada. Pronto comecei a suar frio, e o que eu fiz, claro, a coisa mais sensata a se fazer, nada.

Lembrando agora essa situação era só levantar e perguntar ao motorista ou o cobrador? Aliás onde estava o cobrador?

Um lampejo de racionalidade invadiu minha mente, levantei e notei que exatamente o rapaz que julguei ser o Duffy era o cobrador do ônibus, contudo minha tranquilidade foi breve.

– Boa noite, por favor, pode me informar pra onde vai este ônibus? _ indaguei nervosa.

Ele balbuciou um nome, que não pude compreender totalmente (Eu só pensava em caralho, puta que pariu, que merda). A certeza aqui era que o nome citado não era para onde eu pretendia ir.

– Mas qual a rota que este ônibus faz? – Perguntei

O cobrador indiferente, disse o nome das cidades por onde passava, ouvi no meio de algumas palavras, o nome do meu destino, aliviei, peguei o ônibus certo afinal. Mas só pra desencargo de consciência eu fiz a perguntinha crucial.

– Mas esse ônibus, passa por dentro da cidade?

– Não moça, passamos próximo. Resmungou o cobrador mastigando um palito de madeira na lateral da boca.

Pronto parecia que tinha visto o crush, coração pulou pela boca. A quantidade de palavrões que eu consegui pensar, ultrapassou a velocidade da luz.

Mesmo que ele fosse pra cidade mais próxima, não teria ônibus quando chegasse pra voltar e um detalhe mais importante, eu não tinha muito dinheiro pra ficar fazendo um passeio turístico à noite às… olhei o relógio 22:35.

– Mas moço, onde exatamente é “próximo” que esse ônibus passa?

– Olha ele passa em frente da cidade. Dá pra parar no meio da pista e a senhora desce. Disse o cobrador irritado tentando preencher o recibo da minha passagem.

– Mas agora à noite eu não posso atravessar a pista, além do mais, está muito escuro, isso seria mais que perigoso.

O cobrador estava me dando um “vai a merda” mental, desconversou e perguntou qual seria o destino da passagem pra reajustar o preço. Eu desistindo de qualquer argumento, disse o nome da cidade e ele balbuciou:

– São 14,75 dona!

– Quatorze reais e setenta e cinco centavos! Mas tudo isso! A minha cidade não é tão longe assim, vocês que estão lentos demais pra chegar onde preciso.

Lentos? Como assim? Eu dei o argumento mais esdrúxulo que poderia imaginar. Lentos?

A minha burrice tinha me levando fora da zona de conforto e a única coisa sensata a fazer foi entrar em desespero. O cobrador pouco se importava em colaborar com uma doida (eu) às 22:00.

Murphy estava se divertindo muito comigo nesse dia. Com dinheiro contadinho e longe de ser R$ 14,75, estava eu de olhos arregalados e tentando ajustar meus pensamentos, mas o que eu pensava era: Terei que descer no meio da rodovia no escuro. Fudeu!

 – Olha moço, eu estou quase chegando na cidade e não tenho quatorze reais e setenta e cinco centavos pra pagar, e além do mais o meu destino não pode valer mais que de cinco reais, eu só tenho isso na bolsa, me desculpe, mas não posso pagar tudo. – Disse com os olhos marejados, implorando piedade ao meu executor.

O cobrador visivelmente “puto-da-vida”, vez uma linda careta, do tipo “Parem esse ônibus, essa caloteira vai descer aqui mesmo”, fiquei angustiada.

Finalmente Murphy teve piedade. Ele aceitou as moedas e foi pra frente do ônibus sem dizer nada, depois voltou e apenas me perguntou a onde eu queria parar.

Venci, cheguei ao topo das escadarias (referência Rocky Balboa). Levantei fui para frente para indicar o local. Percebi que não tinha como dizer onde iria parar, porque não dava pra enxergar nenhum ponto de referência na porra da estrada. Não tinha uma pedra que me ajudasse.

Fiz “uni-duni-te” e indiquei um lugar, me guiei pelas luzes da cidade no lado oposto.

– Motorista pare aqui mesmo, por favor!

O motorista prontamente seguiu minha ordem e parou, desci do ônibus, sem saber onde pôr a cara, dei um “boa noite” e esperei o ônibus se afastar.

Dei um chute e foi fora, parei bem longe, tive que atravessar duas pistas no meio da noite e andar um bocado pra chegar em casa.

Morta de canseira, uma chegada muito maluca, eu queria tomar um banho, deitar sem dar satisfação a ninguém. Abro o portão de casa, tudo no mais absoluto silêncio como de costume. Olho no relógio 23:10, está tarde pra quem teria que acorda 6:00 horas dia seguinte.

Ah, finalmente cheguei em casa, pensei. Suspirei profundamente.

Abro a porta, tudo escuro, isso já não era normal e num baque:

– Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida…

Detalhe, era o dia do meu aniversário, milagrosamente esqueci. Não tinha como lembrar, concordam?

A única coisa que eu desejei ao soprar as velas era dormir, estava anestesiada.

Meio abobalhada agradeci, fiz sala, conversei, ri e fiquei até o último convidado sair as 3:00 horas.

Fui deitar. O despertador tocou, mais um dia.

A teus pés e a poesia marginal de Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar (Niterói, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983)  foi uma poetisa, tradutora, professora e fez mais uma porrada de coisas.Destacou-se pela escrita visceral de poemas e prosas, lançou seus primeiros livros de forma independente, inclusive, A teus teus pés, que foi relançado pela Cia da s Letras.

Apesar de sua educação e criação vir de um berço de classe média, fez intercâmbio na Inglaterra, envolveu-se com o movimento de poetas malditos, movimento este conhecido por sua literatura marginal, onde fazia-se uso de mimeógrafos para disseminar o material escrito.Viveu intensamente do caldeirão cultural de sua época, produzindo e trabalhando.

Ana Cristina Cesar
Acervo Ana Cristina Cesar/Instituto Moreira Salles

 

A teus pés, possui um tom provocativo, com estrutura poética contemporânea, fugindo da conhecida estrutura parnasiana, mas com sofisticação ímpar.Ana Cristina Cesar chegou a trabalhar para a Globo de analista de texto do departamento de análise e pesquisa em 1981.

Infelizmente em 29 de outubro de 1983 Ana Cristina Cesar suicida-se em decorrência da depressão, mesmo tendo acompanhamento de um especialista.Deixou um legado com sua poesia, inigualável!!!Abaixo alguns de seus poemas.Tenham uma boa leitura!!!

Arpejos
1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei
o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos
leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado
a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha)
ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus
projetos de ir de bi
cicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia
reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.
2
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra
o beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do
susto. Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da
noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua
boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos
de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.
3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário.
Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha pró-
pria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela
signos de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. Saio
depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia
os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira
insensata.

Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que
nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

Mergulho em nossos silêncios diários

Nos entardeceres hostis, sobrevive o genuíno e inabalável amor materno. Na deslealdade de dias impiedosos, nem o mais deplorável estado humano é capaz de silenciar o som do amor.

Dentre seres convulsos, que cruzam as avenidas fritando o mundo, resiste-se. Mesmo na insuficiência de braços da figura mater, que insiste em impedi-la de abraçar simultaneamente numerosas crias, vê-se no pequeno reflexo de suas pupilas, a imagem das faces afetuosas de cada um dos meninos que a cercam na certeza de que ali sempre se encontrará o mais puro abrigo.

Quando o horror impera, cabe à inocência, sobressair-se e sobreviver. Ainda que com isso, esteja por vir mais um dia de dor. No frio cortante da noite, ainda pode-se observar o singelo encontro de almas consonantes. Vê-se na face castigada do menino ingênuo, um semblante que exibe um emaranhado de sentimentos inconfessos.

As impossibilidades devoram e o fazem, em seu estado marginal, tecer um caminho incerto, doloroso, que exige de mais de sua evidente fragilidade. Em seus anseios mais puros, reside o desejo de passar a vida inteira sob o olhar destes olhos. Impossível prever os caminhos que o destino reserva aos desdenhados. Estejam onde estiverem, parecem sempre estrangeiros. Em suas andanças, pesa a ausência de familiaridade. Tudo lhes é estranho. Neste aborrecido mundo, seus corpos sem morada, rastejam aos montes, rogando esmolas.

Do outro lado oposto da avenida, amontoam-se outros andantes. Arrastam mochilas que hospedam o emudecido de suas histórias. Aglomeram passados profundos, inacessíveis à superficialidade dos olhares que os condenam mil vezes em meio segundo. Não há como saber se é o presente ou se são as memórias o que mais os assombram nestes dias regados de desprezo.

A grande maioria das pessoas passa e finge não ver o escancarado sucumbir destes corpos. Estão todos hipnotizados e abrutecidos, na futilidade ininterrupta das incontáveis telas dos smartphones. Seus olhos opacos, anseiam convulsionados, por notificações que dizem cada vez mais nada e conduzem a um vazio cada vez mais profundo e inóspito. Vivem uma vida em resumo. Gastam os dedos com movimentos desvairadamente repetitivos. Estão; apenas como pobres corpanzis moribundos.

Diferente daqueles que rastejam na crueza dos dias, estes não são considerados como malditos. Caminham em largos e seguros passos. Mergulham-se demasiadamente em boçais gargalhadas, escondem-se, quando na verdade, tudo quer ser pranto. Os esquecidos, andantes, sem morada, muitas vezes são clandestinos nas próprias vidas. Buscam asilo em qualquer teto que ofereça o mínimo de acolhimento. Seja onde for, estão sempre de passagem.

Nas varandas de simplórios casebres, sentam-se todos em posturas similares, talvez querendo indicar que apesar das subjetividades, possuem desejos comuns. O que escondem todos estes silêncios? As distrações nascem através do pouco que dividem uns com os outros, em narrativas brevemente interrompidas pelo fino cigarro de palha, que passa de mão em mão e vai de boca em boca. Escutam-se todos, sem julgamentos, sem nojo e na mais atenta e recíproca sinceridade.

Crônicas de um professor alucinado. Nordeste pra que?

Cena típica e costumeira de um dia de aula.

Alunos cabisbaixos, com aquela aparência de quem dormiu tarde da noite e foi abduzido pelo facebook ou qualquer desses aplicativos que tornam o indivíduo um zumbi. A matéria deveria ser a mais fantástica; Literatura. Romances de 30. Jorge Amado e seus Capitães da Areia, o clássico que eles encontrarão dentro de um vestibular qualquer. Instigante? Claro. Só se for para mim, professor, louco ensandecido, orgulhoso de acordar cedo, sob o céu nublado, sorumbático e poder falar sobre clássicos da literatura nacional para adolescentes de 15 anos.

A juventude de hoje não quer saber de ler. Sim. Ótimo. Não é de hoje que flertar e ficar de papinho à toa com o colega, é mais gostoso do que ler um romance da Rachel de Queiroz de 200 páginas e que fala da realidade dura do nordeste. Nordeste? Quem quer saber de nordeste professor? Essa pergunta um sujeito me arremessa do fundo da sala, pouco depois de eu falar da temática da geração de 30 (desculpe leitor, mas se você não faz ideia do que estou falando, procure em qualquer livro que você deveria ter aberto durante o ensino médio) deixei passar a pergunta do sabichão do fundo da sala. Ele só quer pegar as noivinhas nas baladinhas teens que frequenta, exibir o jetski e a lancha do pai no insta. Nordeste pra que? Sigo com a aula. Depois de cinco minutos, o sujeito do Nordeste pra que, já está numa outra órbita, quase babando sob a apostila cara que o pai comprou. O sinal bate e vou embora.

Dois dias após essa aula chega a hora de aplicar a prova bimestral. O momento que mais almejo, pois sei que os alunos vão me amar e me tratar com um carinho ímpar. Distribuo as provas e a sala em silêncio começa a ler as alternativas e textos de base. Minutos se arrastam e o sujeito dorminhoco, o do Nordeste pra que, levanta a mão. Está com uma dúvida. Meus passos vão até ele com um sorriso nos lábios. Ser professor é o máximo. “Professor, essa questão vale 4 pontos?” Sim, respondo com um sorriso tímido e diabólico. “Mas é sobre o Nordeste.” Chega o momento da minha redenção. Respondo. “Sim. Quem quer saber de Nordeste, não é mesmo? Nordeste pra que?” Ele pisca e se cala.

Desse dia em diante o sujeitinho nunca mais dormiu na minha aula, tampouco abriu a boca pra comentários desnecessários. Estranho.

 

A mercadoria

As semanas tendem a começar caóticas, pelo menos para mim, e normalmente terminam mais confusas. Bem, essa é a graça da vida, não é mesmo?

A beleza de tudo isso é que eu nunca me acostumo com o caos, então tudo se revela uma surpresa.

Iniciando minha habitual segunda-feira, retornando para cidade para trabalhar, lá estava eu com cara de poucos amigos. Imersa em meu mundo, com fones de ouvidos que impediam que os ruídos atravessassem a minha barreira. Atrasada, decidi que pegar outro meio de transporte clandestino, seria a opção para garantir minha chegada o mais rápido possível.

Ao chegar no ponto, havia uma mulher sondando duas vans idênticas. Foi então que ela se dirigiu a mim e disse:

– Você saberia qual delas irá para BJP?

Retirei os fones e solicitei cordialmente que repetisse a pergunta, e assim ela o fez, prontamente respondi que seria a van que possui a placa da cidade destino. Incrédula ela olhou as placas e agradeceu. Quando estava pronta para imergir no meu mundo ela iniciou uma conversa monologa.

– Você acredita que agora pouco eu estava chegando de Bragança e após alguns minutos que sai do ônibus, me dei conta que havia esquecido uma mercadoria em um dos assentos?

Apenas olhei-a sem nenhuma expressão do caso, afinal, foda-se, porque deveria eu ter compaixão de tal criatura? Ela continuou, enquanto meu botão “foda-se” mantinha ligado.

– Ai quando voltei, o ônibus partiu e eu resolvi embarcar em um táxi, pedi ao motorista para seguir dizendo “Siga aquele ônibus”, mas esses taxistas são muito malandros, eles querem ganhar dinheiro nas nossas costas, já pensou? Ele seguiu um caminho diferente, alegando que chegaria na frente, antes que o ônibus chegasse no próximo ponto. Bem, eu já fui dizendo para ele ser rápido porque eu não tinha muito dinheiro, e nem sei se ele ouviu.

Me mantive olhando para aquela mulher que estava decidida a continuar sua história para uma desconhecida.

– Eu consegui parar o ônibus, mas quando entrei me dei conta que não era o que havia tomado, muito menos tinha a mercadoria. Era um ônibus de turismo, mas menina você acredita era igualzinho ao que eu havia subido? Ai eu voltei para cá né e o malandro não podia de deixar de se aproveitar. Você acredita que ele me disse que a corrida tinha ficado R$ 100,00, mas ele faria por R$ 70,00. Vê se pode! Como vou pagar se ele nem alcançou o ônibus? Onde já se viu pagar por algo que ele não fez!

Ela gesticulava freneticamente com uma bolsa nos braços, o motorista da van chegou e pediu para que entrássemos. A mulher se posicionou ao meu lado.

– Então, ai eu disse pra ele que eu não tinha dinheiro o suficiente. Eu já tinha avisado! Eu iria dar R$ 20,00, mas ele viu que tinha R$ 30,00 nas mãos e eu acabei dando o dinheiro. Sabe, ele não gostou muito não. O que eu ia fazer? Por sorte eu tinha um dinheirinho na bolsa, mas não numa boa fase. Eu trabalho lá em BJP numa campanha eleitoral. A gente ganha R$ 14,00.

A essa altura do campeonato eu alimentei algum interesse pela história, e tive a curiosidade de saber se eram R$ 14,00 o dia, a hora, o minuto, o mês, sei lá, entretanto me contive, isso não me acrescentaria em nada. Minha curiosidade também se estendeu ao que se tratava a tal mercadoria. Será que era material da campanha eleitoral que talvez ela fosse buscar? Algum produto? Até imagine como seria a embalagem: caixa média, parda, leve.

– Mas porque você ao invés de pegar o táxi que realmente sai caro, não pegou um mototáxi? Eles são mais rápidos e cobrariam bem menos. – Eu disse.

– Pois é, mas o táxi estava mais próximo.

– Mentira! – Eu disse a mim mesma, os mototaxistas rondam a rodoviária iguais a urubus, não havia sentido essa afirmação.

Ela continuou e finalmente eu saberia do que se trata a valiosa mercadoria.

– Mas sabe o que acontece… Eu estava na casa da minha irmã, eu fiquei o final de semana lá e não contava com isso, quando saímos à noite, peguei emprestada uma calça dela. Uma calça muito bonita sabe? Hoje eu coloquei a calça na sacola e entrei no ônibus.

Tudo isso por uma calça? Tudo isso por uma calça, uma calça? Sério mesmo? E ela continuou sua fantástica história adivinhando minha descrença.

– Eu e minha irmã emprestamos uma roupa da outra, mas ela não vai entender que eu perdi a calça dela. Era muito bonita e única, não vou encontrar outra igual por ai, mesmo que eu procure muito. Minha irmã ficará muito brava comigo.

De alguma forma fiquei um pouco comovida com aquele monstro da irmã dela, que não compreenderia as desventuras de uma mulher desempregada em busca da calça perdida.

– Porque você não liga na rodoviária de Bragança, talvez por ser apenas uma calça, vá para os achados e perdidos.

Sinceramente, ela deu de ombros e isso me fez crer que nunca ligará.

Como se apiedar dela, não que realmente ela precise de piedade ou compaixão, mas é assim que compartilhamos as coisas, a compaixão é o sentimento que nos persegue durante nossa vida. E quem sou eu para oferecer piedade a alguém?

Ela retornou ao taxista, atribuindo-lhe todas as mazelas sofridas. Ao ver dela, um indivíduo abusivo, que fez uso do desespero para se favorecer.

– Eu disse ao taxista que amanhã traria o restante do dinheiro, pois defini que pagaria mais R$ 30,00 além do que já dei, mas eu não vou pagar nada não, né? Ele me cobrou muito caro, eu dei mais do que ele merecia, afinal ele não alcançou o ônibus.

Quem está errado nessa história toda, o taxista por cobrar pelos serviços, a mulher por embarcar no ônibus e perder a calça, a irmã por supostamente ser inflexível ou eu por ter ouvido essa história? Certo e errado são dois pesos de uma balança, muito relativos e resumir tudo em dois lados limita muito nossas percepções. Então o que dizer sobre isso?

Mas não ache que a história chegou a fim. Talvez esse ato sim, contudo um novo começo entrelaçado emerge.

Ao afirmar que não pagaria mais nada ao taxista, o cobrador da van entra e fecha a porta, o motorista da ignição e a nossa protagonista começa a contar a história a seu velho conhecido, o cobrador, a história se inicia outra vez, com algumas ênfases em trechos específicos e palavras trocadas.

Meu alívio enfim retorna, posso voltar para o meu mundo, coloco meus fones, e pego um livro. Li as três primeiras frases pelo menos cinco vezes. A mulher ao meu lado contava fervorosamente a história. A música foi abafada pelas palavras dela e a concentração que já não era muito boa há semanas foi para o espaço.

Minha polidez me impediu de mudar de banco, senti que seria uma grosseria. A grosseria maior na verdade foi cometida contra mim, com todo aquele esbravejar, porém fui tola e me mantive ao lado dela, sangrando a cada palavra.

No meio da viagem, quando ela chegou a dizer sobre quanto ganhava, a história tomou outro rumo: o da política e trabalhar para ela. Aí tudo foi ladeira abaixo. As amenidades, fofocas e mediocridades de ter posição política e brigar por causa disso começaram a surgir.

Uma das passageiras pediu para repetir quanto ela ganhava e ela assim o fez, a passageira queria saber para quem ela trabalhava.

– Ah, ele me ajudou bastante quando estava necessitada, ele é humilde, ele conversa com a gente. Ele me deu um abraço e a gente ficou conversando…

A passageira chuta o nome do candidato e acerta.

– Sim. Ele paga direitinho, mas sabe o ex-prefeito, essa eleição está perdida para ele, ele só se candidatou para prejudicar esse outro homem tão bom que me ajuda. Eu que não trabalho para o ex-prefeito não, quem garante que ele vai pagar, ele não vai ganhar mesmo.

E ela continuou exaltando as qualidades divinas do candidato para qual ela trabalhava e atualizando para todo mundo sobre os acontecimentos políticos do “boca-em-boca”. Estávamos chegando na rotatória e isso era muito bom.

Eis que em algum momento entre os meus pensamentos furtivos e a falácia, o cobrador disse:

– Vocês ficaram sabendo que tem um candidato que está dando R$ 100,00 para quem votar nele?

– Quem é? – Alguém disse, muitos pensaram, inclusive eu.

– Ah, isso eu não sei, mas eu conheço uma mulher que anda com ele.

– Ah, Pedrinho se souber me avisa. Disse a mulher da calça.

O rapaz assentiu com a cabeça e ela continuou se justificando.

– Eu sei que é pecado e que deus me perdoe pela mentira, eu sou evangélica, mas você sabe como estou precisando do dinheiro. Ainda mais por ter perdido esse dinheiro com o táxi e ter que reembolsar minha irmã. Terminando essas eleições não tenho para onde correr, vou estar sem emprego outra vez.

As palavras ocultas e explícitas nessa frase não combinavam em nada. Eu via um monte de hipocrisia. E me perguntava, os fins justificam os meios?

Ela pagou o cobrador, pediu para a van estacionar e desceu. Minha cabeça estava latejando e os meus dedos coçando para que todas as ideias fossem para o papel.

Cheguei no trabalho, a fumaça do cigarro fazia curva pelas salas, aqui todos fumam, até quem não fuma. A segunda-feira estava começando.

O Olhar provocativo através das lentes de Donato Di Camillo

Há pouco tempo um amigo me convenceu a criar uma conta no instagram. Eu tinha um certo preconceito com essa rede social, mas isso não é assunto para agora.

Hoje eu vim falar de um cara que me chamou atenção. Ele não é bonitão, sarado, famoso, ou qualquer atrativo escancarado que surja na sua cabeça.

Você irá encontrá-lo como Donato Dicamillo no instagram.

A primeira vez que eu o vi foi na área de sugestões. Era uma foto de uma senhora idosa com o corpo que estaria longe dos padrões de beleza, contudo ela se propôs a posar para Donato e se manteve numa postura bem a vontade. Me agradou apreciar, era um momento congelado numa tarde ensolarada na praia.

dicamillo

Hoje pela manhã, lá estava ele novamente como sugestão no instagram.

Donato apresenta uma assinatura singular e inquietante em suas fotografias, (talvez pelo seu histórico de vida – vale a pena conferir um pouco da história no site) é possível ficar desconfortável e imaginar quanto nós seres humanos, somos bizarros.

Estamos sempre tão preocupados em mostrar nosso melhor ângulo, parecermos atraentes nas fotos que no fim ficamos como um rótulo de produto de embalagem, todos iguais.

É preciso celebrar as diferenças as imperfeições, somos bizarros, estranhos, iguais a alienígenas devem ser e isso não deveria ser vergonha pra ninguém.

Envelhecer, engordar demais, ser de outra etnia, ou qualquer distinção que seja diferente não deveria nos impedir de sermos quem somos.

Não deveria ser um problema para os outros e uma barreira de socialização.

Não deveria ser a vergonha por esconder nossos corpos e nos apresentarmos como somos. Nascemos nus e porque nosso corpo se torna um problema com o passar dos anos?

Ao ver o trabalho de Donato eu penso nisso e foi pensando que desejei compartilhar com vocês essas impressões.

Convido vocês a apreciar um olhar provocativo.

Donato Di Camillo

RaroZine Sessions – Loromudo, Gasoline Special e Stone House on Fire

Domingo ensolarado, sol de queimar as costas e o RaroZine Sessions para alegrar a vida da galera.Quem iniciou foi Loromudo de Bragança Paulista, com Indie bonito, cheio das guitarrinhas, aquelas que todos os fãs do Stephen Malkmus veneram.Fora a cozinha que é 50% do Leptospirose, só poderia ser uma banda ótima.

Loro Mudo

Gasoline Special, coloca a receita aí na sua caderneta:

  1. 1Kg de Garage Rock
  2. 1Kg de Stoner Rock
  3. ½Kg de Rock dos anos 70

Obs:Mexa bem esta mistura, talvez você se aproxime da desenvoltura do Reverendo André Bode e sua SG envenenada, com ganho no talo.Apresentação grandiosa dos caras do Gasoline Special, novo baixista manda muito bem, veio só acrescentar a este grande power trio.Venham mais vezes.

gasolines

Na sequência, Stone House on Fire, numa apresentação ensandecida… psicodelia, que isso meu? Se você estivesse lá, tivesse de repente, descolado a bunda do sofá, desligasse um pouquinho o celular e deixasse de ser preguiçoso, poderia ter assistido e até conheceria uma galera, faria amizade, em resumo sairia do lugar comum.

Pensa num lance doido, Fuzz daqui, sonoridade vintage dali.Coisa fina. Stone House On Fire toca um Stoner bonito, Red Fang, Kyuss e Wo Fat provavelmente são referências, incrível. Não conhece? Só ouvir aqui.Aguardamos o próximo e que seja divertido como todo os outros.Até a próxima!!!

Stone House on Fire

A Garota das Laranjas de Jostein Gaarder

Jostein Gaarder, escritor norueguês que conquistou milhões de leitores de diversas idades com O mundo de Sofia, escreveu grandes títulos e não resta dúvida que, O dia do Curinga, Através do espelho e Pássaro raro, complementam a lista de obras-primas escritas por este autor.

No romance A garota das laranjas, Jostein Gaarder fala sobre a vida de um garoto de 15 anos, Georg Røed , que não teve a oportunidade de conhecer o Pai, Jan Olav que pereceu de uma doença terminal.O que Georg não esperava, é que seu pai tivesse deixado há 11 anos atrás, uma carta para ele, dentro de um carrinho antigo de bebê. Georg Røed mora com a sua mãe Veronika, o padrasto Jørgen e com a sua irmã de apenas 1 ano e meio, Miriam.Na mesma casa em que seu pai vivia antes de morrer.

O mote da história é justo o relacionamento de seu pai com a garota das laranjas, as desilusões amorosas, as alegrias e as divagações existenciais.Através desta carta, que mais se assemelha a um diálogo póstumo entre pai e filho. Georg começa a conhecer mais sobre o pai, sua personalidade, suas fraquezas entre outros atributos.O livro é uma lição de vida, pois retrata a perseverança de um pai prestes a morrer, com um filho pequeno e no ápice da vida, feliz com a carreira e o casamento.

Um livro possui uma temática triste,mas em contrapartida é uma história de amor incrível, faz refletirmos o quanto somos vulneráveis neste mundo.E que podemos partir a qualquer momento.Horácio (65 a.C.-8 a.C.) se faz mais presente do que nunca com sua expressão de Carpe diem, expressão em latim que significa “aproveite o dia”.

A garota das laranjas possui uma adaptação lançada em 2009, dirigida por Eva Dahr.

A Garota das Laranjas é um livro curto, apenas 138 páginas de simplicidade.Leitura altamente indicada pelo Duofox, Até a próxima resenha!!!

Oficina de Stencil em Atibaia com Dani Grandi e Nahayanna Sorgon

Neste último domingo ensolarado, podemos acompanhar a Oficina de Stencil com a Dani Grandi, Nahayanna, Carol Aikawa e Laura Aidar.A oficina foi realizada na praça da Matriz, organizada pelo Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de Atibaia e repleta de alunos interessados.

O destaque da oficina com certeza foi organizar e concentrar um grande número de garotas se enveredando pelos caminhos da arte.O que é extremamente interessante, pois não é todo dia que vemos garotas pintando nas ruas.

Aliás, aguardamos muros pintados por garotas, lembrando que a representante feminina atibaiense, com devido reconhecimento na praça, é a Siss Sapienza. Detona em todos os locais que deixa seus stencils, com irreverência e muita expressão.

Aguardamos mais eventos como este, que fomente cultura, que façam as pessoas refletirem, sobre suas posições na sociedade como individuo e cidadão.Que venham mais oficinas e saraus em Atibaia.Agradecimentos ao Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro de Atibaia e aos participantes da oficina de stencil. Até a próxima!!!!

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