Marchioretto – Um Dia A Gente Esquece Tudo Isso

Com violão em punho, a energia de um garoto inquieto de Pirituba-SP de 16 anos e com dois álbuns (“No One To Leave You” e “Bandeja”), alguns EPs e singles, todos gravados de forma caseira em seu quarto. Marchioretto analisa os fantasmas de erros passados que voltam para assombrar quando tudo está quieto.

Cuspindo seus sentimentos sem pudor algum: a descoberta do amor, a insegurança, o medo de ser usado, a raiva, sem nunca cismar ser taxado de inocente. Sua sonoridade é inspirada no pop punk do Knuckle Puck, no emo do Mineral e no rock triste do LVCASU.”“Um Dia A Gente Esquece Tudo Isso” é seu terceiro EP, com influências do Eliminadorzinho, Theuzitz e Title Fight.

O que há de muito massa no som do Marchioretto, é uma vibe emocore, Cap’n Jazz, Againe, Polara e até o Albertinho dos Reys. Tudo isso apenas com um violão, confiram o som, vale à pena!

O Ep do Marchioretto – Um Dia A Gente Esquece Tudo Isso, gravado e mixado por Marchioretto, na sala de sua casa.Foi lançado pelo coletivo Pessoa que Voa, localizado na cidade de São Paulo, que busca incentivar a produção artística fora do grande centro.

I, Daniel Blake, filme para você pensar em anarquismo

A primeira coisa a dizer que cinema é luxo em tempos de apocalipse social e econômico. Não me conformo pagar R$ 26,00 na entrada. E isso meus amigos duofoxers não tem nada a ver com (des)valorizar a sétima arte, afinal o cinema é maravilhoso, mas caro pra “chuchu”.

Bem, não estamos aqui pra falar de preço de entrada, vamos falar do que interessa, Eu, Daniel Blake, “FILMÃO”, recomendo até o último segundo. A convite de um amigo fui assistir “no escuro” – sem saber sinopse, linguagem fílmica – apenas ciente que:

  1. era pra sair do cinema com lencinho enxugando as lágrimas.
  2. revoltada com a burocracia que nos é imposta goela abaixo todos os dias.
  3. As duas alternativas acima.

Claro que se você chegou ao terceiro parágrafo quer saber “o porquê” da recomendação. Eu, Daniel Blake é um drama britânico-franco-belga e já deu pra sentir o peso, além de ser ganhador de Palma de Ouro e outros 14 prêmios, como os festivais de Locarno e San Sebastián.

Daniel é um carpinteiro que após um ataque cardíaco e sem condições para retornar ao trabalho se vê refém do sistema burocrático para conseguir um benefício concedido pelo governo, similiar ao nosso auxílio invalidez daqui e tudo fica ainda mais complicado quando percebemos que ele é um analfabeto digital e todos os formulários a serem preenchidos devem ser unicamente feitos através da internet. Entre idas e vindas no departamento ele conhece uma mãe solteira com dois filhos, Katie, que mudou recentemente para NewCastle e não tem condições de se manter, buscando pelo mesmos recursos que Daniel.

Aqui fica clara a crítica do diretor em relação ao governo que impõem uma sistemática e cansativa burocracia sobre a minoria. O objetivo não é ajudar e sim dificultar e fazê-lo desistir pelo cansaço, com o bônus de perder o pouco que o trabalhador ainda tem e sofrer um processo.

Ao assistir I, Daniel Blake é possível entender o quão frágil é o sistema e ao mesmo tempo o quão complexo e gerador de paradoxos sociais são estabelecidos ao longo da trama. Mesmo tratando de questões sociais inglesas, obviamente bem longe do Brasil é fácil se colocar na mesma situação dos personagens ou mesmo conhecer alguém vivencie um caso, digamos, igual.

Um dos pontos positivos de todo esse cinismo do sistema fracassado é perceber que diante das dificuldades ainda existe humanidade entre as pessoas, o senso de colaboração e centros assistenciais se esforçam para ajudar, e sim, é possível ajudar ao próximo se querer algo em troca.

Blake e Katie compartilham de momentos difíceis, mas mesmo achando que os dois irão se amar e cair na pieguice de romance, no fundo ao assistir esse longa é o que você menos vai pensar, o foco aqui são as relações, relações essas entre pessoas e governo, entre governo e burocracia, entre burocracia e necessidades, entre pessoas e pessoas.

Se você ainda está com a pulga atrás da orelha, eu vou te dar um exemplo mais comum de sistema feito para te fazer desistir: Você precisa alterar um plano do seu celular, depois de vários números, você ainda precisa passar por diversos setores, responder as perguntas-praxe 20 vezes e depois de algumas horas ou você desiste e tenta outro dia, ou simplesmente deixa como está e continua pagando uma fortuna. Eu já passei por isso. Para alterar o plano eu teria que ligar num dia do mês específico, detalhe, cada mês o dia mudava. Viu? Eu sei que você conhece várias outras histórias.

Eu, Daniel Blake continua em cartaz em alguns cinemas em SP, então se você estiver de bobeira dá um pulinho no cinema, garanto que não vai se arrepender.

 

Vidro e pele – Mão Nua | Post-Punk/Shoegaze diretamente de Goiânia

Vidro e pele é o projeto encabeçado por Diego Robert, com referências incríveis.Canções que foram compostas e gravadas em seu quarto, com letras intimistas e seguindo uma sonoridade Post-Punk e às vezes numa vibe shoegaze que remetem de forma mais etérea e viajada, bandas como She Wants Revenge, Joy Division e até Massive Attack.

Baterias eletrônicas e guitarras etéreas são a receita para fazer um som bem bacana, mesmo no quarto.Sem grandes recursos, utilizando loopings de bateria eletrônica e softwares livres ( que vocês encontrarão gratuitamente na web).Abaixo algumas letras das canções do homônimo Vidro e pele – Mão Nua, confiram.

Diego Robert

Nuvens

Da folha ao chão
Mergulho em você
No caminho

Da pedra ao mar
Não sei dizer
Se vou sozinho

Em algum ponto eu caminhei
Em algum ponto eu caminhei
Em algum ponto eu caminhei

 

Fumaça

Fumaça
Vai sentar, cair, deitar
No sofá

Devo deixar parti-
Cular, colar

 

Vislumbre

O rio ainda vai
Me levar
Me levar
Me levar

Não vá dissolver
Não vá dissolver
A memória, o jantar
Sem querer

Não vou lembrar
Daquele lugar
Que eu insisto em nadar

Youtube

Facebook

Sunset Park, de Paul Auster. Uma história sobre abandonos e autoexílio

Mais uma vez venho falar de um dos meus autores americanos prediletos. Paul Auster é simplesmente genial. Suas obras são fantásticas no que diz respeito à construção narrativa. O livro dessa semana, lido em três dias é Sunset Park. Até agora é o melhor que já li.

Os enredos de Auster, como já comentei em outro texto sobre A Trilogia de Nova York, são uma mistura de elementos que nenhum ser humano é capaz de dizer que dali sairá uma história capaz de cativar o leitor. E é justamente ai que quebramos a cara quando lemos seus romances.

Sunset Park é um livro onde encontramos várias vidas. Vidas despedaçadas e absurdamente envolventes. Uma história sobre pais e filhos. Sobre como as escolhas e ações que tomamos por não controlar nossos instintos acabam transformando a calmaria de nossas vidas em um tumultuoso trem sem rumo.

Miles Heller, personagem central do livro, tem um passado que quer esquecer. Uma morte em seu passado parece ter mexido completamente com seu interior. Seu pai, Morris Heller, um homem que sempre tentou se dedicar ao filho, não encontra respostas para o desaparecimento de seu filho, seu único filho legítimo.

Entre idas e vindas, Miles decide, após ouvir um estranho e pesado diálogo de seu pai com sua madrasta, ir embora, abandonar a faculdade e sumir no mundo. Por obra do acaso, recebe uma carta de um antigo amigo de colégio, o excêntrico e obeso Bing Nathan, um cara que está sempre querendo caminhar contra a sociedade americana e que acredita que pode viver no mundo sem celulares, internet e tudo mais e será mais feliz.

Paul Auster

A proposta de Nathan para Miles é simples. Para cortar gastos com aluguel, ele propõe que ambos, na companhia de mais duas amigas, ocupem uma velha e abandonada casa na região de Sunset Park. Tentado e ao mesmo tempo intrigado com o estranho convite, Miles pensa no caso até que decide partir.

Sunset Park é um grande livro. Além do tema central, conflitos familiares (relação pai e filho) é uma ótima história sobre amor, amizade e erotismo. Miles é apaixonado por uma adolescente menor de idade, Pilar, o que vai fazer com que sua vida sofra grandes transformações.

As diversas personagens que desfilam no universo desse livro são amplamente profundas. Alice Bergstron uma estudante de pós-graduação que nutre uma estranha paixão por seu namorado escritor. Ellen Brice, uma artista plástica que tem prazer em pintar pessoas nuas contanto que elas se masturbem e gozem em sua boca depois. E por fim, a estranha mania de Miles em fotografar objetos que encontra em casas abandonadas devido à crise do mercado imobiliário americano de 2008.

Com a linguagem repleta de lirismo e num ritmo vertiginoso, Paul Auster dá a seus leitores mais um monstruoso romance. Cada página lida vale muito a pena. Impossível ler e sair indiferente com os conflitos desse livro.

Afinal, Sunset Park é um livro sobre casas abandonadas e desfeitas, não só no plano físico, mas principalmente no plano da alma, dos sentimentos humanos. O homem e seus medos e frustrações. O homem buscando um autoexílio num mundo onde não se pode dobrar a esquina sem que o passado esbarre em você.

 

[Lançamento] Sereno: singles antecipam novo EP pela Violeta Discos

“Ao Oeste do Sol” e “Se Tudo Der Errado” são os primeiros singles dos cariocas da Sereno, lançados via Violeta Discos. Formado pelos irmãos Victor e Vinícius Damazio, o duo aposta nos elementos essenciais do rock alternativo viajado para tecer seu som: licks de guitarra letárgicos, vocais doces e atmosfera lo-fi.

A Sereno está prestes a lançar seu primeiro EP, “Adivinhar o Futuro das Estrelas”, um trabalho fundado em camadas de garage-rock pesado e altas doses de reverb em uma mistura nostálgica. O lançamento em K7, CD e digital marca também a estreia do selo Violeta Discos, fundado por eles em parceria com a LuvBugs, veterana banda de indie rock do Rio de Janeiro.

A arte de capa fica por conta da ilustradora australiana Carla McRae, autora de “Still”.

Ouça e baixa “Ao Oeste do Sol” e “Se Tudo Der Errado” no Bandcamp:


Violeta Discos
violetadiscos.com.br
violetadiscos.bandcamp.com

Traz teu amor para mim – Charles Bukowski | Robert Crumb

Um dos grandes nomes da literatura norte-americana, Charles Bukowski, veio da Alemanha comer o pão que o diabo amassou nos EUA, mais precisamente  no subúrbio de Los Angeles.Foi hostilizado pelos amigos e por seu problema com acnes, filho de alcoólatra desempregado.Seguiu os passos do pai, descontando as desilusões amorosas em um bom trago.Começou a escrever aos 35, vivendo em pensões baratos, dormindo na rua, trazendo à tona mendigos, prostitutas e outsiders para sua literatura. 

O livro conta com simplesmente ilustrações de um dos maiores quadrinistas de todos os tempos, Robert Crumb, músico e desenhista e vizinho da Janis Joplin, famoso pela capa do álbum Cheap Thrills da banda Big Brother and the Holding Company.Traduzido por Joca Reiners Terron, escritor de mão cheia, conhecido pelo romance A Tristeza Extraordinária do leopardo-das-Neves – Joca Reiners Terron 

No intitulado, Traz teu amor para mim – Charles Bukowski | Robert Crumb, é uma compilação com  3 contos, o primeiro, Traz teu amor para mim.É um conto sobre uma esposa com problemas mentais, internada em uma clínica psiquiátrica, recebe a visita do marido, que por sinal, está hospedado em um Motel com sua amante….

Traga seu amor

 

Segundo conto, Não tem negócio, é sobre um comediante decadente, que tenta fazer suas apresentações em um dos salões do Hotel Sunset, para tentar sobreviver.

Não tem negócio

 

O último conto, Bop Bop contra aquela cortina, fala sobre as aventuras de 3 garotos, das desilusões e sonhos, representados através de domingos em casas de show com bailarinas regadas a muita cerveja.Garotos tentando se divertir em uma época de recessão, onde seus pais tinham vergonha de sair nas ruas e serem chamados de pobres e loosers.Sem emprego e afundados no alcoolismo, para suportar as tempestades da vida.Grande pequeno livro de 57 páginas.

Bop Bop

O Fascínio, a prosa visceral e ágil de Tabajara Ruas

Ler autores nacionais está se tornando um hábito para mim. Meus companheiros de Duofox que o digam, pois sempre me vem atolado em autores norte-americanos ou japoneses. Essa semana reli um livro que tive a oportunidade de ter nas mãos quando tinha uns 14 anos. Na época, O Fascínio, do gaúcho Tabajara Ruas, me assombrou pela brutalidade de seu texto. Hoje, ainda mais.

Apesar de não ser um leitor maduro na época, a escrita desse autor me marcou bastante. O texto rápido, sem embromação e de uma energia poderosa me fez ler toda a história em dois dias (Isso por falta de vergonha na cara, pois o livro é curto e daria pra ler num domingo na beira da piscina ou estirado na rede).

Tabajara Ruas

No livro acompanhamos a vida de um homem de negócios chamado Bertholino. Sua vida de reuniões, envolvimentos políticos e preocupações financeiras começa a desmoronar quando ele descobre que herdou uma antiga estância da família nos pampas gaúchos.

Pode soar contraditório, mas mesmo estando em dificuldades financeiras, essa herança vem carregada de algo que vai mudar todo o curso da vida de Lino e de sua família.

Curioso para saber mais sobre a herança, Lino parte com seu filho Bento para a estância. Chegando lá, percebe que algo misterioso envolve a mansão. Um velho caseiro e sua neta são duas figuras tão enigmáticas ao longo do romance que fica difícil não achar que escondem algum pavoroso segredo.

tabajara

As coisas parecem correr bem. Lino começa a investigar mais sobre a antiga fazenda e o passado de seus antepassados. Suas investigações começam a dar resultado. Entretanto, com o ritmo ágil da prosa, o leitor se vê tão perdido quanto o personagem, que, noite após noite, através da janela de seu quarto, começa a ver uma figura encapuzada e que parece fitá-lo com os olhos da morte.

O que se segue é um banho de sangue, violência e culpa. A narrativa ainda conta com descrições maravilhosas das paisagens gaúchas e de toda a região sul do Brasil.

Impossível ler O Fascínio e não se lembrar de livros como Luna Caliente: três noites de paixão, do argentino Mempo Giardinelli e O estrangeiro de Camus. Um livro repleto de ação, suspense e elementos sobrenaturais. Excelente pra quem aprecia a literatura brasileira de autores como Rubem Fonseca, Dalton Trevisan e por que não Toni Bellotto, que, aliás, será o próximo livro na minha lista dos brazucas. Aguardem…

Quanto AINDA nos resta?

Meu sono não é mais o mesmo, acordei várias vezes à noite, num desses sobressaltos meu coração pulsava tanto que minha respiração estava pesada, o que havia sonhado?

O dia começou bem, um banho quente, contudo a sensação de cansaço me tomava.

Sai atrasada corri um bom trecho e me orgulhei, ainda tinha fôlego.

Quando cheguei ao ponto de ônibus, uma fila serpenteava a calçada. Uma longa cobra de pessoas com seus compromissos inadiáveis. O ônibus ia acolhendo um a um e cada vez mais todos se apertavam e espremiam as esperanças de não adiar o impreterível.

A possibilidade de perder os compromissos, atrasar em suas tarefas era insuportável para aguardar o próximo horário.

Os reféns da rotina, seguiam entrando até as portas do ônibus se fecharem e ele seguir tão obeso de seus reféns.

Havia apenas um caminho a seguir, ir trabalhar e cumprir com o combinado, se algo fugisse da rota tudo iria por água abaixo e o que restaria para os pobres e sob stress numa manhã de segunda-feira, era descontar a frustração no primeiro que se rebelasse em dizer qualquer coisa contrária as suas convicções.

Quantos caminhos temos nessa vida?

Quantos caminhos decidimos seguir?

Quantas possibilidades anulamos em prol da ideia de liberdade que nunca acontece?

Quantas vezes reduzimos nossas escolhas para camuflar no sofrimento e frustração?

A festa de Babette de Karen Blixen – Um banquete mágico

A festa de Babette de Karen Blixen, é um conto que se passa num pequeno vilarejo chamado Berlevaag (Noruega), onde, em um uma noite tempestuosa, surge uma francesa maltrapilha, que exaurida, busca abrigo na casa de 2 irmãs (Martine e Philippa), filhas de um profeta protestante.

Fugitiva do massacre à Comuna de Paris em 1871, Babette Hersant, traz uma carta de recomendação de um amigo em comum, Papin, cantor de ópera, que apaixonou-se por Philippa no passado, já que tanto Philippa quanto Martine, foram jovens exuberantes e distintas, que preferiram seguir a religião.

Babette trabalhava na casa de Philippa e Martine em troca de abrigo, nunca aprendeu o idioma, mas o pouco que sabia, pechinchava e conseguira diminuir os custos, referentes a casa.Depois de 12 anos de trabalho.Babette, recebeu uma carta de Paris, dizendo que havia ganhado um prêmio da loteria de 10,000 francos.

A festa de Babette

Babette ganhou na loteria, o que acontece depois de enriquecer?

Antes de deixar o vilarejo, que recebeu a notícia com contragosto, pois era uma vilarejo repleto de pessoas simples e sem muita perspectiva. Babette pede um único e último favor as irmãs.Que a autorizassem fazer um banquete em homenagem ao deão, pai de Martine e Philippa que comemoraria 100 anos.

Este é o mote deste conto incrível de Karen Blixen, escritora dinamarquesa conhecida por seu homônimo, A fazenda africana. A festa de Babette é conto curto que ensina, sobre o quanto os recursos são importantes para que possamos viver, no entanto não são imprescindíveis, pois podemos oferecer muito, mesmo sem os recursos. Boa leitura e até logo.