Bananas e um atestado de óbito

É verdade que sair do nosso aconchego, nosso mundo seguro, a nossa casa permite nos aventuramos pelos becos enveredados e ruas sujas, as nossas experiências se enriquecem e nos enchemos do conhecimento da vida. E as minhas são assim, quando saio e compartilho do ar com outros, ganho novas perspectivas.

Mais uma vez minha história segue dentro do ônibus, eu sei que você já pode estar de saco cheio, mas pare por instante e imagine só a riqueza da diversidade de seres interagindo em alguns metros quadrados de ferro e plástico que se move a uma velocidade capaz de matar todos ao mesmo tempo, pois bem, você conhecesse pelo nome ônibus. Eu sigo meu caminho observando o mundo a minha volta e vou aprendendo e desaprendendo como funcionam as coisas. Eu sou uma metamorfose, uma massa moldável e adaptável, sou um ser humano.

Ah querido leitor, não revire os olhos com as minhas divagações, apenas entre no clima, aproveite e coloque uma música enquanto lê, isso lhe ajudará bastante. 

Chegado o fim da semana eu sairia da rotina maçante do trabalho e me divertiria eram essas as expectativas. Preparei minha pequena mochila, com coisas essenciais: cigarros, camisinhas, bebida e drogas (mentira), não sou tão alucinada assim, se bem que não acho condenável algumas destas práticas. Preparei minha pequena bagagem afinal não passaria meu final de semana na cidade onde já trabalho. Sete dias na semana, na mesma cidade, é muito para minha mente suportar.

Sigo meu rumo, ao pegar o ônibus em direção a metrópole, sentei-me próximo a janela e divaguei sobre os problemas, lembrei de bons momentos, li um pouco e viagem continuava, na curva SP-010, BR-381, Rodovia Fernão Dias, passado o Graal, pegamos um congestionamento com velocidade reduzida para 7 quilômetros por hora até parar, felizmente não ficamos nisso por muitos quilômetros.

Dentro do ônibus todos ansiosos, pois a aposta era acidente na pista, os burburinhos estavam a mil, a cobradora conversa incessantemente com alguns passageiros supondo o que havia acontecido.

Enfim, começamos a avistar os estragos, primeiro eram derrapagens, seguidas de terra e mato esmagado, sutilmente bananas começaram a surgir, depois cachos e sequencialmente o chão do acostamento estava forrado de bananas amarelas e suculentas. Muitos passageiros deram longas risadas, as piadas que apesar de eu não conseguir ouvir, estava brotando como água da nascente. Eu não senti vontade de rir por saber que depois do pneu queimado, a grama esmagada tem o ferro retorcido.

De repente as risadas pararam, passamos e vimos a cabine do caminhão retorcida e cheia de sangue, os olhos arregalaram, o Coliseu abrirá as portas, ao lado da cabine, um manto cobria uma massa de carne e ossos sem vida.

O ônibus continuava avançando lentamente na rodovia, e tudo voltou ao normal sem muita cerimônia, passamos pela cabine e as pessoas voltaram a rir, todos instantaneamente apagaram a imagem do sangue e ferro da mente e se mantiveram com a imagem das bananas no chão.

Quando cheguei no ponto final, as piadas ainda estavam no ar, as bananas ainda eram o foco da conversa e uma vida havia sido eliminada não só por um acidente, mas pela indiferença.

A vida é o desejo mais belo e cruel que temos.

 Como dizia o ícone, “A vida como ela é…”