Sonhar não paga pedágio

O calor infernal consegue derreter aos poucos os miolos que me restam e pra refrescar ao invés de água porque não algo mais saboroso e calórico para satisfazer meu cérebro?

Sentada na rodoviária (minha segunda casa nos últimos meses) pensando na vida, lá estava eu, olhando a “banda passar” (espero que entenda a referência), ao que meus olhos passaram por uma mulher pedindo dinheiro. Em poucos minutos ela estava parada na minha frente pronta para iniciar o discurso automático, educadamente me pediu atenção, claro, sem saber se realmente eu desejava fazê-lo.

No mesmo instante o celular toca e foi neste instante que me perdi entre ouvir a reprodução verborrágica e polidamente ensaiada ou atender a ligação. Pedi licença e fui tateando o celular na bolsa, a mulher esperou que o fizesse.

Enquanto falava ao telefone peguei a carteira e retirei R$ 0,25, uma moeda dourada brilhante, parecia aqueles chocolates que a gente come quando é pequeno. Desliguei o telefone e antes que ela começasse a falácia eu entreguei a moeda a ela. Ela fechou a boca e suspirou.

– Você pode me dar um pouco? Só um golinho. Disse a mulher.

Sem pensar muito estiquei o braço e entreguei o copo. Uma velha cética me olhava. Finalmente com a boca melada a mulher me entregou o copo.

Olhei para o canudo e fiquei na dúvida de compartilhar da saliva, eu não quis dar asas a imaginação e fui ávida e suguei o sagrado milkshake.

Não me lembro dela ter agradecido, mas quando levantei os olhos para o horizonte lá estava ela, pedindo dinheiro a outra pessoa.

A senhora do meu lado comentou:

– Que ousada não!?

Retruquei:

– As pessoas são assim quando tudo lhe é negado, resta apenas a chance de pedir. Sonhos são grátis.

A senhora deu de ombros e foi para a fila. A longa fila não foi problema para ela que ficou logo no início sem sequer pedir licença. Sim, era um direito dela, contudo não pude deixar de pensar:

– Que ousada não!

A ótica sempre se distorce conforme nossos desejos e necessidades. Meu corpo estava satisfeito e meu paladar agradecido, mas minha mente fervilhava de ideias, levantei e joguei o copo no lixo.

Bananas e um atestado de óbito

É verdade que sair do nosso aconchego, nosso mundo seguro, a nossa casa permite nos aventuramos pelos becos enveredados e ruas sujas, as nossas experiências se enriquecem e nos enchemos do conhecimento da vida. E as minhas são assim, quando saio e compartilho do ar com outros, ganho novas perspectivas.

Mais uma vez minha história segue dentro do ônibus, eu sei que você já pode estar de saco cheio, mas pare por instante e imagine só a riqueza da diversidade de seres interagindo em alguns metros quadrados de ferro e plástico que se move a uma velocidade capaz de matar todos ao mesmo tempo, pois bem, você conhecesse pelo nome ônibus. Eu sigo meu caminho observando o mundo a minha volta e vou aprendendo e desaprendendo como funcionam as coisas. Eu sou uma metamorfose, uma massa moldável e adaptável, sou um ser humano.

Ah querido leitor, não revire os olhos com as minhas divagações, apenas entre no clima, aproveite e coloque uma música enquanto lê, isso lhe ajudará bastante. 

Chegado o fim da semana eu sairia da rotina maçante do trabalho e me divertiria eram essas as expectativas. Preparei minha pequena mochila, com coisas essenciais: cigarros, camisinhas, bebida e drogas (mentira), não sou tão alucinada assim, se bem que não acho condenável algumas destas práticas. Preparei minha pequena bagagem afinal não passaria meu final de semana na cidade onde já trabalho. Sete dias na semana, na mesma cidade, é muito para minha mente suportar.

Sigo meu rumo, ao pegar o ônibus em direção a metrópole, sentei-me próximo a janela e divaguei sobre os problemas, lembrei de bons momentos, li um pouco e viagem continuava, na curva SP-010, BR-381, Rodovia Fernão Dias, passado o Graal, pegamos um congestionamento com velocidade reduzida para 7 quilômetros por hora até parar, felizmente não ficamos nisso por muitos quilômetros.

Dentro do ônibus todos ansiosos, pois a aposta era acidente na pista, os burburinhos estavam a mil, a cobradora conversa incessantemente com alguns passageiros supondo o que havia acontecido.

Enfim, começamos a avistar os estragos, primeiro eram derrapagens, seguidas de terra e mato esmagado, sutilmente bananas começaram a surgir, depois cachos e sequencialmente o chão do acostamento estava forrado de bananas amarelas e suculentas. Muitos passageiros deram longas risadas, as piadas que apesar de eu não conseguir ouvir, estava brotando como água da nascente. Eu não senti vontade de rir por saber que depois do pneu queimado, a grama esmagada tem o ferro retorcido.

De repente as risadas pararam, passamos e vimos a cabine do caminhão retorcida e cheia de sangue, os olhos arregalaram, o Coliseu abrirá as portas, ao lado da cabine, um manto cobria uma massa de carne e ossos sem vida.

O ônibus continuava avançando lentamente na rodovia, e tudo voltou ao normal sem muita cerimônia, passamos pela cabine e as pessoas voltaram a rir, todos instantaneamente apagaram a imagem do sangue e ferro da mente e se mantiveram com a imagem das bananas no chão.

Quando cheguei no ponto final, as piadas ainda estavam no ar, as bananas ainda eram o foco da conversa e uma vida havia sido eliminada não só por um acidente, mas pela indiferença.

A vida é o desejo mais belo e cruel que temos.

 Como dizia o ícone, “A vida como ela é…”

Um vintém por sua vida

 

A história de hoje era para ser curta (uma página, mas me empolguei), aviso a meu querido leitor que não é nada inovadora, entretanto convido a pensar mais uma vez no assunto.

O fim do ano se aproxima comprovando que Nostradamus errou longe na profecia da extinção da humanidade, não sei dizer se a extinção é boa ou ruim, só sei que como muitos pensadores e artistas não quero chegar nem perto dos 100 anos.

Enquanto escrevo isso o caminhão da reciclagem passa:

Compramos tudo que você não queira mais na sua casa! O caminhão da reciclagem está passando na sua porta! Geladeira velha, panela velha, liquidificador velho, bateria velha de carro…” (mais a frente você entenderá como esses parágrafos aparentemente aleatórios tem conexão).

Bem, tenho reservado o fim de ano para me presentear, nessa época, costumo fazer um check-up, exames médicos, de sangue, oftalmologista (diga-se de passagem, sou míope, grau altíssimo), entre outras consultas para ver quanto tempo mais me resta.

Essa semana foi reservada para isso. Depois de sucumbir ao terrorismo do médico, o mesmo solicitou uma ficha criminal digna de um orgulhoso bandido de tão extensa, exame disso e daquilo, e ao sair da sala fiz o orçamento de quantos órgãos deveria extrair para fazer os exames. O que posso dizer é que meu bolso latejou e muito.

Eu precisava fazer os tais exames, mas não deixaria minha córnea lá, era necessário consultar outros açougues. Passei a tarde coletando números, no fim não cheguei a veredicto nenhum.

Voltei para casa e pensei, porque não ir ao pronto socorro, existem exames que poderei fazer de graça e economizar, vamos usar o SUS.

Depois de perguntar para umas cinco recepcionistas, finalmente atenderam-me, a papelada foi preenchida e agora eu precisaria ir até outro guichê e levar as fichas para lá e ver quando seriam feitos os exames.

Cheguei no balcão e atendente que conversa com uma colega, não gostou muito quando apareci, acho que havia interrompido algo. Entreguei duas fichas para a atendente, ela pegou a primeira, anotou meus dados, e disse:

Ligaremos para você assim que houver vaga.

Eu sei que “assim que houver vaga” é muito tempo, mas quanto tempo seria?

– Por favor, você tem ideia de quanto tempo leva? – perguntei com voz de veludo.

Ah não posso dar previsão nenhuma, mas está demorando bastante.

Fiquei sem reação e não tinha muito a fazer, não poderia gritar com ela e tão pouco usar de um poder que não possuo para extorquir e furar a fila de espera.

E esse outro exame? É aqui que marca? – Eu perguntei.

Não esse é o laboratório.

Descendo o quarteirão em direção ao laboratório pensava se deveria pagar com meu pâncreas ou esperar uma possível doença (talvez inexistente) me consumir.

Saúde

Não é a primeira vez que passo por isso, mas no fim, quando a gente “encafifa” com uma coisa, a paz é a única coisa que a gente não tem e a única coisa que a gente tem é a paranoia de ter uma doença rara.

Cheguei ao laboratório:

Boa tarde, por favor exame pelo SUS, marco aqui? – perguntei.

Sim. – ela pegou a ficha – Para quando a senhora marcou o retorno?

Para mês que vem.

Nossa, mas porque tão cedo, os exames pelo SUS estão demorando bastante.

E quanto seria esse “bastante”?

Marcando agora, o resultado só sai em março.

Março do ano que vem, 2017? Eu enfatizei o ano porque achei bem absurdo.

Sim. – Disse tranquilamente.

Aqui vocês fazem exames particulares?

Sim.

E quanto sairia se ao invés do SUS, eu pagasse?

Ela prontamente puxou uma pasta preta embaixo da mesa e começou a contabilizar. Ela calculava e errava começava tudo de novo com a pequena calculadora. Por fim, ela anotou no topo da ficha o valor, não era barato, mas estava bem abaixo do valor que eu cotei em outros lugares. Perguntei:

Como faço então? Para quando posso marcar os exames na modalidade particular?

Amanhã mesmo! – Esboço um sorriso de canto.

Ah, amanhã? Então se eu fizer pelo SUS a marcação só em março de 2017, mas se pagar posso vir amanhã?

Sim.

Você já passou por situações onde você faz uma longa pausa na conversa porque são tantas coisas para pensar sobre o assunto que você precisa de um momento de silêncio?

No fim decidi pagar. Sai de lá pensando profundamente sobre as relações de poder, saúde, dinheiro, persuasão, morte e vida. E se eu não tivesse condições de pagar? Tenho certeza que você sabe muito bem qual seria o desfecho.

No dia seguinte cheguei no local, paguei e mal sentei na cadeira de espera e fui chamada. Entrei na sala, fiz o que deveria ser feito em menos de 5 minutos acredito.

Voltei para recepção e a atendente educadamente disse que o resultado sairá dentro de 20 dias, mas já pediu urgência na análise e assim que o resultado chegasse entraria em contato.

Agradeci, fui até o supermercado, comprei sabão para lavar roupa. Cheguei o caminhão da reciclagem está na minha rua.

Nota de fim anunciado:

Se você não fez nenhuma conexão com caminhão da reciclagem e este texto, não fique triste, você não tem obrigação nenhuma de entender como minha cabeça funciona. Se você entendeu é tão louco quanto eu, mas talvez tenha pensado em outras coisas. Que tal conversamos mais sobre isso?

Eu pensei sobre o sistema que vivemos, a sociedade, quando a gente envelhece e não tem o que oferecer na nossa cultura nos tornamos fardos, então quando ele diz “Compramos tudo que você não queira mais na sua casa! … Geladeira velha, panela velha, liquidificador velho, bateria velha de carro…” Eu penso em pessoas e nós enquanto sociedade que descartamos quem não precisamos. Pensei na velhice e quando não temos dinheiro para pagar por nossa saúde morremos miseravelmente.

Eu não tenho uma solução maravilhosa para oferecer, tão pouco uma lição de moral, mas sempre há o primeiro passo, e é refletir sobre como vivemos e como tratamos os outros. Eu provavelmente não vou viver para ver o mundo mudar, mas me agarro na esperança que aos poucos podemos fazer a diferença.

Crônicas de um professor alucinado. Enem, prova do Capiroto

Qual a causa de tanto desespero? Pergunto a uma aluna acuada, num canto do pátio, com uma apostila aberta junto ao rosto miúdo e angelical. É o Enem, professor, essa prova do demônio. O Enem deixou de ser uma forma de seleção para os aptos à universidade faz tempo. Hoje é uma espécie de barca do inferno. Gil Vicente que o diga. Uma prova que julga e elimina os que não cabem na barca para fazer a travessia até a ilha da universidade.

A estrutura da prova é bem interessante, não se pode negar. Digna de um inferno de Dante. Dois dias, um bilhão de questões e a redação tão deliciosa, que decepa cabeças como uma brilhante e afiada guilhotina. Ah, sem contar as fórmulas de física e exercícios quilométricos de matemática onde X + Y elevado a 8ª potência resulta em 0.

Os alunos que querem algo nessa vida surtam e se descabelam. Muitos chegam desesperados querendo que eu use minha bola de cristal pra saber qual o tema da redação. Não sou o Gandalf, muito menos o Dumbledore, não tenho esse poder. Portanto, apenas levanto suspeitas dos temas para acalentar os pobres corações que esperam tanto dessa prova.

O que fazer para realizar uma boa prova, professor? Escuto dias, semanas antes do tão aguardado final de semana do juízo final. Minha resposta não passa disso. Leia muito e estude pra valer em casa. Uns dizem que já fazem isso. Sorrio e acredito. Afinal, tenho que apoiar meus pequenos discípulos, mesmo sabendo que nas aulas que destino a leitura silenciosa, o sujeito só lê Diário de um banana ou gibi da Mônica.

Depois não sabem por que não vão bem numa prova como o Enem. Vida de professor é uma droga às vezes.

 

 

Momentos Fugazes

Além do meu trabalho, passo a maior parte do meu tempo me deslocando no trajeto de ida e volta para casa, portanto as experiências significativas do meu dia acontecem no trajeto, é normalmente dentro do ônibus que muitas das minhas histórias irão se desenrolar.

Hoje não podia ser diferente. Numa conversa acalorada e interessante com um amigo, discutíamos sobre arte, eis que uma pessoa sentada um pouco a frente tomou minha atenção e apesar de ouvir cada palavra da conversa que mantive, meus olhos estavam direcionados em outro lugar-espaço-tempo.

Com os dedos, indicador e polegar sobre os olhos, apertando-os intensamente ela contorcia a face. Tive dúvidas: era um choro um riso a ser controlado?

A conversa fluiu, mas meus olhos estavam nela. A certa altura ela deu um longo suspiro seguido de um soluço, foi então que tive certeza, era um choro.

Os olhos vermelhos, marejados, carregados de dor a faziam olhar para o vazio e pensar sabe Deus o que, talvez nem Deus soubesse o que ela pensava.

O descontrole veio aos picos e cada tomada de fôlego mais ela chorava. O homem ao lado se encheu de compaixão (maldita outra vez) e tentou consolá-la:

– Não sei qual o problema, mas tenha calma moça.

Ela chorou mais, respirou mais uma vez e talvez tenha dito para si mesma o que eu digo quando preciso cessar meu choro “Você é forte, seja maior que seu sofrimento”. Ela olhou outra vez para o vazio e restou somente uma face desconsolável.

Algumas pessoas olharam para trás, mas nada fizeram e eu estava de observadora, me encantando com a diversidade do mundo, os conflitos, os medos, as alegrias fugazes, os sentimentos.

Pronto o espetáculo talvez tenha acabado. Não se espante você irá encontrar muitos “talvezes” aqui, pois fazem parte do acaso.

A frente outra linda criatura se segurava entre as colunas de ferro do ônibus, alta, branca, magra, na faixa dos seus 30 e tantos anos, cabelo negros, marcas de expressão, não menos bonita, nem tanto atraente.

Olhar baixo, olheiras que denunciavam tristeza, se tiver que apostar, ela estava a alguns segundos de um choro, compartilhando sem saber da tristeza da outra que acabará de chorar. Voltando a encantadora criatura, ela olha para baixo, serra os lábios, pensa, finalmente passa a mão no rosto, um gesto gentil, mas firme, fazendo do seu pensamento um gesto físico. Uma negação talvez. (olha ele aqui novamente)

A nossa mente divaga no espaço, pensar o que se passa na cabeça do outro nos geram muitas histórias, um frenesi de imagens e possibilidades onde o “talvez” estará presente, e você poderá reconhecê-lo por “e se”.

A tristeza estava invadindo aquele ambiente, pouco a pouco eu via em cada olhar e cada gesto uma história, uma luta travada, mas a quem diga que era meu olhar que estava triste, influenciado pelos pesares vida. Nem tudo são flores, nem tudo dores.

Olhei outra vez para minha amiga chorona agora ela tirava um selfie com o celular, queria registrar o momento ou queria apenas se ver?

Os paralelos do sentir e do ser.

Estamos tão envolvidos no caos diário, nas urgências da vida, no uso de tecnologias que até nos momentos do “sentir” nos deixamos levar pelo acalento tecnológico.

Finalizo dizendo a você, deixar-se envolver pelo seu interior, esquecer-se por alguns momentos no dia do mundo que urge pelo imediatismo, ouvir os pássaros e sentir ressoar o seu coração.

A viagem acabou, desci na parada final, minha conversa continuou, a vida continuou.

 

Crônicas de um professor alucinado. Selfie Generation

Quase todo o dia encontro uma senhora na fila do mercado ou um engravatado com pinta de empresário comentar, enquanto abastece o carro “Meu filho não está aprendendo nada naquele maldito colégio.” Passo perto e finjo não saber o motivo.

Morro de vontade de parar e explicar aos pais e avós das pequenas criaturas “pensantes” que as “belezinhas” que vão ao colégio todas as manhãs não entendem a dinâmica de uma sala de aula. Não pegaram e não querem pegar o espírito da coisa.

No tempo do meu avô, do meu pai e no meu, era simples. A aula mais produtiva era aquela GLS (Giz, lousa e saliva) Tinha professor que ensinava da Revolução francesa ao 2º Reinado pra gente só com um toco de giz verde oliva, coisa que nem dava pra ver naquele maldito quadro negro. Falava, falava, um aluno perguntava, alguém tirava uma dúvida e ele seguia falando. Nós alunos? Bem, copiávamos e íamos enchendo o caderno. Vários defensores modernos da educação podem e devem se contorcer de ódio, e tem todo o direito, mas que antigamente o lance era diferente isso era. Os pais e alunos eram outros. Os mimos eram outros. A tecnologia era um computador de tubo com Windows 95. Antes se buscava um pouco de conhecimento na escola. Hoje se busca qualquer coisa e quase nunca conhecimento.

Um dia desses, depois de passar míseros tópicos no bom e querido quadro para explicar a matéria, escuto perguntas geniais.

“Professor, preciso copiar? Vai cobrar isso na prova?”

Bacana. Digno de aplausos. E como se não bastasse, para guilhotinar o meu trabalho, metem a mão no bolso e tiram a porra do iphone pra tirar fotinho do quadro. Selfie de quadro negro? Essa é boa, minha letra logo mais no facebook, exposta como um manequim na vitrine.

Por outro lado, esse é o momento mais esplêndido da aula. Instante em que paro e reflito. Lembro do cara abastecendo o carro importado e reclamando que o filho não aprende nada no colégio. Rio até doer o estômago. Pensando bem, melhor mesmo é eu comprar um iphone e começar a fotografar tudo pra mostrar pros meus filhos e netos. Principalmente o quadro negro da escola.

 

O busão

Você deve imaginar aqueles dias que a gente volta do serviço meio bêbado de cansaço, e é nesse momento que acabamos fazendo as maiores cagadas e dando descarga.

A rotina massacrante me rendeu uma história bem absurda. Pensando agora sobre isso as vezes tenho a impressão que sonhei, me custa acreditar que a vida me ofereceu uma história tão cretina quanto esta.

Eu morava em uma cidade e trabalhava em outra assim como a maioria das pessoas. Depois de um dia inteiro de reclamações e explicações, claro, a de saberem que eu era professora de informática, aliás, não só professora, recepcionista, faxineira, assistente de cobrança, e entre muitas aspas, administradora indireta, é como assim dizem uma “Dita” (aquela mulher que faz de tudo, sabe). Tudo bem que não tinha reconhecimento merecido, mas por força maior sempre insisti em trabalhar não como professora, mas como Dita e isso nem chegava a ser um problema.

O dia capcioso chegou ao fim. Um dia cheio de justificativas e bem movimento, dia de recebimento das mensalidades. Como era de praxe eu fazia os meus malabares que pra que tudo fosse acertado, fechei o caixa e respirei fundo. Ufa!

Sai de lá pisando em ovos, meio desatenta, acredito profundamente que eu estava lesada nesse dia.

Você já passou por um daqueles momentos que você sente tanto cansaço e dor que você fica flutuando? As coisas a sua volta são um pouco diferentes, mesmo que tenha visto bilhões de vezes aquele ninho na árvore ou tenha lido centenas de vezes aquela frase obscena pichada no muro, ainda sim, tudo tem um outro significado.

E lá estava eu, subindo um interminável morro, já eram mais 21 horas. Cheguei no ponto e pensei em aproveitar a mureta do próximo ponto e me encostar por lá.

Pronto estava fazendo a via sacra, aproveitei para comprar isopor com gosto de milho ou cebola (tudo tem sal e gordura), caminhei para o ponto pensando sabe lá o que (borboletas na panela, com meias em formatos de rosas de divagações e palavras incomuns).

Sentei na mureta, e claro que a Lei de Murphy estava a meu favor: Se está ruim, vai piorar.

Os minutos eram intermináveis e decidiram brincar com a minha paciência, cheguei ao ponto 21:20 horas e eram quase 22:00 e nada do maldito ônibus aparecer, quando se súbito imersa em minhas ideias pouco cabíveis me aparece um ônibus, não era o ônibus que costumava pegar, porém na ânsia de ir pra casa e claro dormir, dei sinal pra que ele parasse. Vai que tinha mudado?

O ônibus parou, cumprimentei o motorista com um breve “boa noite”, sem olhar muito, subi as escadas, logo que coloquei os pés no corredor do ônibus uma vozinha que disse pra voltar, sair dali, tinha alguma de errada naquilo.

Poderia pedir para parar me desculpar, entretanto recobrei um resto de estupidez que tinha e me contive, achei um banco e me sentei.

Observei o ambiente, era fúnebre, meio que “ônibus fantasma”, tinha alguma coisa estranha e a vozinha na minha cabeça dizendo: Que porra é essa!

Num banco atrás de mim do outro lado do corredor vi um homem com chapéu de palha, barba malfeita e um imenso bigode, em outro banco uma mulher imensamente gorda com roupas mais largas ainda, com um cabelo totalmente armado, e no primeiro banco um menino pequeno ranhento que me olhou fixamente quando entrei, e mais outras pessoas estranhas que não consegui distinguir no fundo do ônibus tamanha a escuridão.

Logo que fiz o reconhecimento da área e me acomodei, percebi que havia um rapaz de se dirigia de um lado para outro, com jaqueta de bege e calça social, ele me lembrava o Duffy, o personagem do filme “Todo mundo em Pânico”, uma paródia.

Juro que poderia dizer que ele tinha algum problema mental, era um comportamento indefinido, eu estava bêbada de canseira, num lugar diferente, bem não estava lá nas minhas faculdades mentais favoráveis e nem tranquilas (desculpem o trocadilho).

Cheguei a pensar que tinha entrado num daqueles ônibus de excursão que levavam grupos para algum lugar longe, os quintos do inferno por exemplo.

Minha cabeça trabalha de forma criativa e esquizofrênica na maioria das vezes, portanto criei uma história: a crer que o garotinho tivesse a mãe e o pai, os dois estavam se encoxando aos fundos do ônibus (casal apaixonadíssimo) e o chapeludo fosse o tio e a gorda, a tia ou cunhada. Pronto comecei a suar frio, e o que eu fiz, claro, a coisa mais sensata a se fazer, nada.

Lembrando agora essa situação era só levantar e perguntar ao motorista ou o cobrador? Aliás onde estava o cobrador?

Um lampejo de racionalidade invadiu minha mente, levantei e notei que exatamente o rapaz que julguei ser o Duffy era o cobrador do ônibus, contudo minha tranquilidade foi breve.

– Boa noite, por favor, pode me informar pra onde vai este ônibus? _ indaguei nervosa.

Ele balbuciou um nome, que não pude compreender totalmente (Eu só pensava em caralho, puta que pariu, que merda). A certeza aqui era que o nome citado não era para onde eu pretendia ir.

– Mas qual a rota que este ônibus faz? – Perguntei

O cobrador indiferente, disse o nome das cidades por onde passava, ouvi no meio de algumas palavras, o nome do meu destino, aliviei, peguei o ônibus certo afinal. Mas só pra desencargo de consciência eu fiz a perguntinha crucial.

– Mas esse ônibus, passa por dentro da cidade?

– Não moça, passamos próximo. Resmungou o cobrador mastigando um palito de madeira na lateral da boca.

Pronto parecia que tinha visto o crush, coração pulou pela boca. A quantidade de palavrões que eu consegui pensar, ultrapassou a velocidade da luz.

Mesmo que ele fosse pra cidade mais próxima, não teria ônibus quando chegasse pra voltar e um detalhe mais importante, eu não tinha muito dinheiro pra ficar fazendo um passeio turístico à noite às… olhei o relógio 22:35.

– Mas moço, onde exatamente é “próximo” que esse ônibus passa?

– Olha ele passa em frente da cidade. Dá pra parar no meio da pista e a senhora desce. Disse o cobrador irritado tentando preencher o recibo da minha passagem.

– Mas agora à noite eu não posso atravessar a pista, além do mais, está muito escuro, isso seria mais que perigoso.

O cobrador estava me dando um “vai a merda” mental, desconversou e perguntou qual seria o destino da passagem pra reajustar o preço. Eu desistindo de qualquer argumento, disse o nome da cidade e ele balbuciou:

– São 14,75 dona!

– Quatorze reais e setenta e cinco centavos! Mas tudo isso! A minha cidade não é tão longe assim, vocês que estão lentos demais pra chegar onde preciso.

Lentos? Como assim? Eu dei o argumento mais esdrúxulo que poderia imaginar. Lentos?

A minha burrice tinha me levando fora da zona de conforto e a única coisa sensata a fazer foi entrar em desespero. O cobrador pouco se importava em colaborar com uma doida (eu) às 22:00.

Murphy estava se divertindo muito comigo nesse dia. Com dinheiro contadinho e longe de ser R$ 14,75, estava eu de olhos arregalados e tentando ajustar meus pensamentos, mas o que eu pensava era: Terei que descer no meio da rodovia no escuro. Fudeu!

 – Olha moço, eu estou quase chegando na cidade e não tenho quatorze reais e setenta e cinco centavos pra pagar, e além do mais o meu destino não pode valer mais que de cinco reais, eu só tenho isso na bolsa, me desculpe, mas não posso pagar tudo. – Disse com os olhos marejados, implorando piedade ao meu executor.

O cobrador visivelmente “puto-da-vida”, vez uma linda careta, do tipo “Parem esse ônibus, essa caloteira vai descer aqui mesmo”, fiquei angustiada.

Finalmente Murphy teve piedade. Ele aceitou as moedas e foi pra frente do ônibus sem dizer nada, depois voltou e apenas me perguntou a onde eu queria parar.

Venci, cheguei ao topo das escadarias (referência Rocky Balboa). Levantei fui para frente para indicar o local. Percebi que não tinha como dizer onde iria parar, porque não dava pra enxergar nenhum ponto de referência na porra da estrada. Não tinha uma pedra que me ajudasse.

Fiz “uni-duni-te” e indiquei um lugar, me guiei pelas luzes da cidade no lado oposto.

– Motorista pare aqui mesmo, por favor!

O motorista prontamente seguiu minha ordem e parou, desci do ônibus, sem saber onde pôr a cara, dei um “boa noite” e esperei o ônibus se afastar.

Dei um chute e foi fora, parei bem longe, tive que atravessar duas pistas no meio da noite e andar um bocado pra chegar em casa.

Morta de canseira, uma chegada muito maluca, eu queria tomar um banho, deitar sem dar satisfação a ninguém. Abro o portão de casa, tudo no mais absoluto silêncio como de costume. Olho no relógio 23:10, está tarde pra quem teria que acorda 6:00 horas dia seguinte.

Ah, finalmente cheguei em casa, pensei. Suspirei profundamente.

Abro a porta, tudo escuro, isso já não era normal e num baque:

– Parabéns pra você, nesta data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida…

Detalhe, era o dia do meu aniversário, milagrosamente esqueci. Não tinha como lembrar, concordam?

A única coisa que eu desejei ao soprar as velas era dormir, estava anestesiada.

Meio abobalhada agradeci, fiz sala, conversei, ri e fiquei até o último convidado sair as 3:00 horas.

Fui deitar. O despertador tocou, mais um dia.

Crônicas de um professor alucinado. Nordeste pra que?

Cena típica e costumeira de um dia de aula.

Alunos cabisbaixos, com aquela aparência de quem dormiu tarde da noite e foi abduzido pelo facebook ou qualquer desses aplicativos que tornam o indivíduo um zumbi. A matéria deveria ser a mais fantástica; Literatura. Romances de 30. Jorge Amado e seus Capitães da Areia, o clássico que eles encontrarão dentro de um vestibular qualquer. Instigante? Claro. Só se for para mim, professor, louco ensandecido, orgulhoso de acordar cedo, sob o céu nublado, sorumbático e poder falar sobre clássicos da literatura nacional para adolescentes de 15 anos.

A juventude de hoje não quer saber de ler. Sim. Ótimo. Não é de hoje que flertar e ficar de papinho à toa com o colega, é mais gostoso do que ler um romance da Rachel de Queiroz de 200 páginas e que fala da realidade dura do nordeste. Nordeste? Quem quer saber de nordeste professor? Essa pergunta um sujeito me arremessa do fundo da sala, pouco depois de eu falar da temática da geração de 30 (desculpe leitor, mas se você não faz ideia do que estou falando, procure em qualquer livro que você deveria ter aberto durante o ensino médio) deixei passar a pergunta do sabichão do fundo da sala. Ele só quer pegar as noivinhas nas baladinhas teens que frequenta, exibir o jetski e a lancha do pai no insta. Nordeste pra que? Sigo com a aula. Depois de cinco minutos, o sujeito do Nordeste pra que, já está numa outra órbita, quase babando sob a apostila cara que o pai comprou. O sinal bate e vou embora.

Dois dias após essa aula chega a hora de aplicar a prova bimestral. O momento que mais almejo, pois sei que os alunos vão me amar e me tratar com um carinho ímpar. Distribuo as provas e a sala em silêncio começa a ler as alternativas e textos de base. Minutos se arrastam e o sujeito dorminhoco, o do Nordeste pra que, levanta a mão. Está com uma dúvida. Meus passos vão até ele com um sorriso nos lábios. Ser professor é o máximo. “Professor, essa questão vale 4 pontos?” Sim, respondo com um sorriso tímido e diabólico. “Mas é sobre o Nordeste.” Chega o momento da minha redenção. Respondo. “Sim. Quem quer saber de Nordeste, não é mesmo? Nordeste pra que?” Ele pisca e se cala.

Desse dia em diante o sujeitinho nunca mais dormiu na minha aula, tampouco abriu a boca pra comentários desnecessários. Estranho.

 

A mercadoria

As semanas tendem a começar caóticas, pelo menos para mim, e normalmente terminam mais confusas. Bem, essa é a graça da vida, não é mesmo?

A beleza de tudo isso é que eu nunca me acostumo com o caos, então tudo se revela uma surpresa.

Iniciando minha habitual segunda-feira, retornando para cidade para trabalhar, lá estava eu com cara de poucos amigos. Imersa em meu mundo, com fones de ouvidos que impediam que os ruídos atravessassem a minha barreira. Atrasada, decidi que pegar outro meio de transporte clandestino, seria a opção para garantir minha chegada o mais rápido possível.

Ao chegar no ponto, havia uma mulher sondando duas vans idênticas. Foi então que ela se dirigiu a mim e disse:

– Você saberia qual delas irá para BJP?

Retirei os fones e solicitei cordialmente que repetisse a pergunta, e assim ela o fez, prontamente respondi que seria a van que possui a placa da cidade destino. Incrédula ela olhou as placas e agradeceu. Quando estava pronta para imergir no meu mundo ela iniciou uma conversa monologa.

– Você acredita que agora pouco eu estava chegando de Bragança e após alguns minutos que sai do ônibus, me dei conta que havia esquecido uma mercadoria em um dos assentos?

Apenas olhei-a sem nenhuma expressão do caso, afinal, foda-se, porque deveria eu ter compaixão de tal criatura? Ela continuou, enquanto meu botão “foda-se” mantinha ligado.

– Ai quando voltei, o ônibus partiu e eu resolvi embarcar em um táxi, pedi ao motorista para seguir dizendo “Siga aquele ônibus”, mas esses taxistas são muito malandros, eles querem ganhar dinheiro nas nossas costas, já pensou? Ele seguiu um caminho diferente, alegando que chegaria na frente, antes que o ônibus chegasse no próximo ponto. Bem, eu já fui dizendo para ele ser rápido porque eu não tinha muito dinheiro, e nem sei se ele ouviu.

Me mantive olhando para aquela mulher que estava decidida a continuar sua história para uma desconhecida.

– Eu consegui parar o ônibus, mas quando entrei me dei conta que não era o que havia tomado, muito menos tinha a mercadoria. Era um ônibus de turismo, mas menina você acredita era igualzinho ao que eu havia subido? Ai eu voltei para cá né e o malandro não podia de deixar de se aproveitar. Você acredita que ele me disse que a corrida tinha ficado R$ 100,00, mas ele faria por R$ 70,00. Vê se pode! Como vou pagar se ele nem alcançou o ônibus? Onde já se viu pagar por algo que ele não fez!

Ela gesticulava freneticamente com uma bolsa nos braços, o motorista da van chegou e pediu para que entrássemos. A mulher se posicionou ao meu lado.

– Então, ai eu disse pra ele que eu não tinha dinheiro o suficiente. Eu já tinha avisado! Eu iria dar R$ 20,00, mas ele viu que tinha R$ 30,00 nas mãos e eu acabei dando o dinheiro. Sabe, ele não gostou muito não. O que eu ia fazer? Por sorte eu tinha um dinheirinho na bolsa, mas não numa boa fase. Eu trabalho lá em BJP numa campanha eleitoral. A gente ganha R$ 14,00.

A essa altura do campeonato eu alimentei algum interesse pela história, e tive a curiosidade de saber se eram R$ 14,00 o dia, a hora, o minuto, o mês, sei lá, entretanto me contive, isso não me acrescentaria em nada. Minha curiosidade também se estendeu ao que se tratava a tal mercadoria. Será que era material da campanha eleitoral que talvez ela fosse buscar? Algum produto? Até imagine como seria a embalagem: caixa média, parda, leve.

– Mas porque você ao invés de pegar o táxi que realmente sai caro, não pegou um mototáxi? Eles são mais rápidos e cobrariam bem menos. – Eu disse.

– Pois é, mas o táxi estava mais próximo.

– Mentira! – Eu disse a mim mesma, os mototaxistas rondam a rodoviária iguais a urubus, não havia sentido essa afirmação.

Ela continuou e finalmente eu saberia do que se trata a valiosa mercadoria.

– Mas sabe o que acontece… Eu estava na casa da minha irmã, eu fiquei o final de semana lá e não contava com isso, quando saímos à noite, peguei emprestada uma calça dela. Uma calça muito bonita sabe? Hoje eu coloquei a calça na sacola e entrei no ônibus.

Tudo isso por uma calça? Tudo isso por uma calça, uma calça? Sério mesmo? E ela continuou sua fantástica história adivinhando minha descrença.

– Eu e minha irmã emprestamos uma roupa da outra, mas ela não vai entender que eu perdi a calça dela. Era muito bonita e única, não vou encontrar outra igual por ai, mesmo que eu procure muito. Minha irmã ficará muito brava comigo.

De alguma forma fiquei um pouco comovida com aquele monstro da irmã dela, que não compreenderia as desventuras de uma mulher desempregada em busca da calça perdida.

– Porque você não liga na rodoviária de Bragança, talvez por ser apenas uma calça, vá para os achados e perdidos.

Sinceramente, ela deu de ombros e isso me fez crer que nunca ligará.

Como se apiedar dela, não que realmente ela precise de piedade ou compaixão, mas é assim que compartilhamos as coisas, a compaixão é o sentimento que nos persegue durante nossa vida. E quem sou eu para oferecer piedade a alguém?

Ela retornou ao taxista, atribuindo-lhe todas as mazelas sofridas. Ao ver dela, um indivíduo abusivo, que fez uso do desespero para se favorecer.

– Eu disse ao taxista que amanhã traria o restante do dinheiro, pois defini que pagaria mais R$ 30,00 além do que já dei, mas eu não vou pagar nada não, né? Ele me cobrou muito caro, eu dei mais do que ele merecia, afinal ele não alcançou o ônibus.

Quem está errado nessa história toda, o taxista por cobrar pelos serviços, a mulher por embarcar no ônibus e perder a calça, a irmã por supostamente ser inflexível ou eu por ter ouvido essa história? Certo e errado são dois pesos de uma balança, muito relativos e resumir tudo em dois lados limita muito nossas percepções. Então o que dizer sobre isso?

Mas não ache que a história chegou a fim. Talvez esse ato sim, contudo um novo começo entrelaçado emerge.

Ao afirmar que não pagaria mais nada ao taxista, o cobrador da van entra e fecha a porta, o motorista da ignição e a nossa protagonista começa a contar a história a seu velho conhecido, o cobrador, a história se inicia outra vez, com algumas ênfases em trechos específicos e palavras trocadas.

Meu alívio enfim retorna, posso voltar para o meu mundo, coloco meus fones, e pego um livro. Li as três primeiras frases pelo menos cinco vezes. A mulher ao meu lado contava fervorosamente a história. A música foi abafada pelas palavras dela e a concentração que já não era muito boa há semanas foi para o espaço.

Minha polidez me impediu de mudar de banco, senti que seria uma grosseria. A grosseria maior na verdade foi cometida contra mim, com todo aquele esbravejar, porém fui tola e me mantive ao lado dela, sangrando a cada palavra.

No meio da viagem, quando ela chegou a dizer sobre quanto ganhava, a história tomou outro rumo: o da política e trabalhar para ela. Aí tudo foi ladeira abaixo. As amenidades, fofocas e mediocridades de ter posição política e brigar por causa disso começaram a surgir.

Uma das passageiras pediu para repetir quanto ela ganhava e ela assim o fez, a passageira queria saber para quem ela trabalhava.

– Ah, ele me ajudou bastante quando estava necessitada, ele é humilde, ele conversa com a gente. Ele me deu um abraço e a gente ficou conversando…

A passageira chuta o nome do candidato e acerta.

– Sim. Ele paga direitinho, mas sabe o ex-prefeito, essa eleição está perdida para ele, ele só se candidatou para prejudicar esse outro homem tão bom que me ajuda. Eu que não trabalho para o ex-prefeito não, quem garante que ele vai pagar, ele não vai ganhar mesmo.

E ela continuou exaltando as qualidades divinas do candidato para qual ela trabalhava e atualizando para todo mundo sobre os acontecimentos políticos do “boca-em-boca”. Estávamos chegando na rotatória e isso era muito bom.

Eis que em algum momento entre os meus pensamentos furtivos e a falácia, o cobrador disse:

– Vocês ficaram sabendo que tem um candidato que está dando R$ 100,00 para quem votar nele?

– Quem é? – Alguém disse, muitos pensaram, inclusive eu.

– Ah, isso eu não sei, mas eu conheço uma mulher que anda com ele.

– Ah, Pedrinho se souber me avisa. Disse a mulher da calça.

O rapaz assentiu com a cabeça e ela continuou se justificando.

– Eu sei que é pecado e que deus me perdoe pela mentira, eu sou evangélica, mas você sabe como estou precisando do dinheiro. Ainda mais por ter perdido esse dinheiro com o táxi e ter que reembolsar minha irmã. Terminando essas eleições não tenho para onde correr, vou estar sem emprego outra vez.

As palavras ocultas e explícitas nessa frase não combinavam em nada. Eu via um monte de hipocrisia. E me perguntava, os fins justificam os meios?

Ela pagou o cobrador, pediu para a van estacionar e desceu. Minha cabeça estava latejando e os meus dedos coçando para que todas as ideias fossem para o papel.

Cheguei no trabalho, a fumaça do cigarro fazia curva pelas salas, aqui todos fumam, até quem não fuma. A segunda-feira estava começando.