Quanto AINDA nos resta?

Meu sono não é mais o mesmo, acordei várias vezes à noite, num desses sobressaltos meu coração pulsava tanto que minha respiração estava pesada, o que havia sonhado?

O dia começou bem, um banho quente, contudo a sensação de cansaço me tomava.

Sai atrasada corri um bom trecho e me orgulhei, ainda tinha fôlego.

Quando cheguei ao ponto de ônibus, uma fila serpenteava a calçada. Uma longa cobra de pessoas com seus compromissos inadiáveis. O ônibus ia acolhendo um a um e cada vez mais todos se apertavam e espremiam as esperanças de não adiar o impreterível.

A possibilidade de perder os compromissos, atrasar em suas tarefas era insuportável para aguardar o próximo horário.

Os reféns da rotina, seguiam entrando até as portas do ônibus se fecharem e ele seguir tão obeso de seus reféns.

Havia apenas um caminho a seguir, ir trabalhar e cumprir com o combinado, se algo fugisse da rota tudo iria por água abaixo e o que restaria para os pobres e sob stress numa manhã de segunda-feira, era descontar a frustração no primeiro que se rebelasse em dizer qualquer coisa contrária as suas convicções.

Quantos caminhos temos nessa vida?

Quantos caminhos decidimos seguir?

Quantas possibilidades anulamos em prol da ideia de liberdade que nunca acontece?

Quantas vezes reduzimos nossas escolhas para camuflar no sofrimento e frustração?

A lábia do barbeiro²

A lábia dos espertalhões é uma armadilha fatal para a ingenuidade da benevolência impura. O cabeleireiro tagarela, passa a tesoura na cabeça de mais um cliente. O corte comum é narrado sem parada. Ouve-se uma voz exagerada, onde a alternância desnecessária das entonações, cansa os ouvidos.

São sempre os mesmos bordões. Ele sapateia sobre os cabelos que forram o encardido de um chão falsamente branco. Conta histórias de pescador. Fala do que plantou e do que não plantou. Tenta trazer a vida da roça para os paralelepípedos. 

Na porta da barbearia, a criança chata de nome composto, corre e chora. A mãe se irrita. Na boca, falta um dente, como falta a paciência. Entre o barulho rangido da tesoura enferrujada, ouvem-se os causos incrivelmente sempre parecidos. 

A criança ainda corre, numa tentativa ingênua de compreender um ambiente nada familiar.

A mãe, tropeça nos próprios passos, chamando o menino por uma centena de vezes. Seu esforço é em vão. Ela passa as mãos enrugadas sobre o rosto, borrando o traço preto, feito às pressas, que jaz sob os olhos. 

Fígaro, que lábia é essa? O próximo cliente é a criança, que a própria mãe, em sua impropriedade insuficiente, não dá conta de acolher.

O menininho nem cabe na cadeira. Ele chora. Abre um berreiro, naquilo que lhe é de direito. As lágrimas descem. A mãe chata não fecha a boca e assim, não se sabe se o pior está no choro ou na fala. 

Nessa hora, não há lábia capaz de persuadir o não desejo. Há apenas o espaço para poucas tesouradas. A criança urra em absoluto descontrole, e o homem de lábia agora duvidosa, parece não saber qual caminho tomar. 

Enquanto a mãe segue com sua fala repetitiva e reducionista, ele se perde por caminhos antes tão familiares, como se guiasse um veículo desconhecido, esbarrando em tudo o que está à sua frente.

 A ingenuidade da criança, não caiu no papo do velhaco, que de tão barbeiro, não pôde nem cobrar o corte. 

Mergulho em nossos silêncios diários

Nos entardeceres hostis, sobrevive o genuíno e inabalável amor materno. Na deslealdade de dias impiedosos, nem o mais deplorável estado humano é capaz de silenciar o som do amor.

Dentre seres convulsos, que cruzam as avenidas fritando o mundo, resiste-se. Mesmo na insuficiência de braços da figura mater, que insiste em impedi-la de abraçar simultaneamente numerosas crias, vê-se no pequeno reflexo de suas pupilas, a imagem das faces afetuosas de cada um dos meninos que a cercam na certeza de que ali sempre se encontrará o mais puro abrigo.

Quando o horror impera, cabe à inocência, sobressair-se e sobreviver. Ainda que com isso, esteja por vir mais um dia de dor. No frio cortante da noite, ainda pode-se observar o singelo encontro de almas consonantes. Vê-se na face castigada do menino ingênuo, um semblante que exibe um emaranhado de sentimentos inconfessos.

As impossibilidades devoram e o fazem, em seu estado marginal, tecer um caminho incerto, doloroso, que exige de mais de sua evidente fragilidade. Em seus anseios mais puros, reside o desejo de passar a vida inteira sob o olhar destes olhos. Impossível prever os caminhos que o destino reserva aos desdenhados. Estejam onde estiverem, parecem sempre estrangeiros. Em suas andanças, pesa a ausência de familiaridade. Tudo lhes é estranho. Neste aborrecido mundo, seus corpos sem morada, rastejam aos montes, rogando esmolas.

Do outro lado oposto da avenida, amontoam-se outros andantes. Arrastam mochilas que hospedam o emudecido de suas histórias. Aglomeram passados profundos, inacessíveis à superficialidade dos olhares que os condenam mil vezes em meio segundo. Não há como saber se é o presente ou se são as memórias o que mais os assombram nestes dias regados de desprezo.

A grande maioria das pessoas passa e finge não ver o escancarado sucumbir destes corpos. Estão todos hipnotizados e abrutecidos, na futilidade ininterrupta das incontáveis telas dos smartphones. Seus olhos opacos, anseiam convulsionados, por notificações que dizem cada vez mais nada e conduzem a um vazio cada vez mais profundo e inóspito. Vivem uma vida em resumo. Gastam os dedos com movimentos desvairadamente repetitivos. Estão; apenas como pobres corpanzis moribundos.

Diferente daqueles que rastejam na crueza dos dias, estes não são considerados como malditos. Caminham em largos e seguros passos. Mergulham-se demasiadamente em boçais gargalhadas, escondem-se, quando na verdade, tudo quer ser pranto. Os esquecidos, andantes, sem morada, muitas vezes são clandestinos nas próprias vidas. Buscam asilo em qualquer teto que ofereça o mínimo de acolhimento. Seja onde for, estão sempre de passagem.

Nas varandas de simplórios casebres, sentam-se todos em posturas similares, talvez querendo indicar que apesar das subjetividades, possuem desejos comuns. O que escondem todos estes silêncios? As distrações nascem através do pouco que dividem uns com os outros, em narrativas brevemente interrompidas pelo fino cigarro de palha, que passa de mão em mão e vai de boca em boca. Escutam-se todos, sem julgamentos, sem nojo e na mais atenta e recíproca sinceridade.