Nestor Lampros – Artista Plástico, poeta e professor

Davos -2015
Davos-2015 – Desenho a nanquim

 

1-Quem é Nestor Lampros?

Escritor, poeta, cartunista, artista plástico, artista gráfico, professor, dramaturgo, ator, (falta-me dançar[ já ensaio um pouco de música cigana], ser músico, e ser humorista de talk show!). Filho mais velho de Lukas Lampros, exímio cartunista, e desenhista urugayo, falecido em 2014; e de Hissae Isejima, publicitária e desenhista.

Sou antes de mais nada um curioso. Tudo é precioso. Custa-me muito a indiferença. Quero me tornar notório, porém, como um sujeito que descobriu-se, e assim, tudo fez sentido. E Deus supervisiona tudo do alto de sua onisciência. Virtude que pede aclamação do espírito. Confirmo na arte, tudo.

Poema que notabiliza isso:

AUTO-RETRATO AOS 40 ANOS EM SETE ESPELHOS- LADO SUL

1.Tenho quatro olhos, virtudes, duas rimas, um nariz.
Compreendi cedo o valor das cores primárias sem Rimbaud
( ele ainda está aprendendo do modo mais quente…).
Vi isso assimilando a corrida dos homens
e a pegada das mulheres que passavam;
especialmente daquelas, das nascidas virgens.
Hoje estão mais calmas, mas chovem ainda, descalças, em vitrines.

2.Aprendi a configurar máquinas e pesadelos capitalistas,
ousando nos meus cabelos apará-los antes da raiz, quando
o inverno teimaria ser mais escuro, ou frio, ou primavera.
Estou com fome, mais seguro de mim, com tudo, assim; contudo,
mas procurando no futuro os espectros do presente, meus amigos,
meus inimigos, meus meio-inimigos, meus- um- quarto- de- amigos, etc…

3.Sinto dizer mais o “não” que um “sim”, em outras palavras.
Eu preciso sentir a música sem a correção, ou coação.
De forma a me manter fiel à Liberdade aos causos
comuns às rosas dos precipícios voando nas celas dos olhos.

4.( Acendo minha luz própria para me economizar melhor…),
em torno dos sóis que dão sua força às luas de Júpiter,
para caírem em forma de estaca, no meu coração tranquilo e terrestre…

5.Moo o trigo descansando dos meus poemas maus.
Sou por isso intrabudista e brasileirônio e nestorquista,
por parte de pai e das ideologias esquecidas por algum judeu interior.
E gosto do dinheiro, que me olha no seu selo e marca sensual de prostituta
verde, e se vende nos mercados e os derruba.

6.Por isso estou atento e o mundo não acabou.
Embora quisesse que minha voz perdurasse na eternidade.
Acaba esta caneta, o papel, você, mas o mundo não
-é inacabavelmente cruel.

7.E por isso socorri-me do mundo para que não me formatizem,
para me deixarem aqui quieto e relutante- mas esperançoso.
Em ter uma vida construída entre tijolos de átomos leves,
em casas quânticas tecidos pelos meus dois braços de borboleta.

(Poema do livro Roupagem Leve, Nestor Lampros)

 

2- Quando você percebeu que faria arte?

Percebi-me artista quando não soube mais explicar-me, não sabendo explicação para as coisas. Quando tudo que vi estava opaco, permiti-me a humildade de que não poderia solucionar as coisas. Uma rosa não é uma rosa, não é uma rosa, não são ideias, umas rosas são várias e duas rosas são belas…

         ROSAS

Cogito ergo sum, não:
uma rosa não é uma rosa,
não é uma rosa.
Não são ideias.
Uma rosa são várias
e duas rosas são belas.

Na fonte onde habitam
falam como se escapassem
pelas janelas…

Rosa como a de Guimarães,
rosas como de Yndiara,
rosas como a dos ventos,
rosas como a de Hiroshima
e Nagasaki, como dos tempos,
rosas como a das perdidas,
rotas, tragadas, forçadas, derruídas…

Não: uma rosa não é uma rosa,
não é uma rosa.
Não são ideias.
Uma rosa são várias
e duas rosas são belas.

(Poema do livro Roupagem Leve, Nestor Lampros)

A solução para a vida empedernida. Ar-te. Arte que evoca á bela e composta presença das bonitezas do mundo. Compõem–se assim a arte como meio e obrigação para fazer este mundo mais sustentável, mais dado a ser ninho e não albergue.

3- Qual foi o motivo que te impulsionou para trabalhar com arte?

O motivo maior foi a necessidade irresistível em me expressar. Sem isso, acho, estaria vencido, morto, mumificado. Tudo tem algum mistério, o maior mistério é encarregar-se do mundo e torna-lo vidente e visível, como escreveu Merleau Ponty.

Devia tornar o meu mundo uma presença. Algo que poderia fornecer aos meus contemporâneos dos mundos que carrego dentro e fora da minha cabeça, olhos e pulsões. De despregar-me do mundo, circular-me e mesmo não sabendo tudo ( Legião Urbana), construir-me como projeto acessível a todos que tenham boa vontade e vocação para tradução ao que manejo, palavras, símbolos, cores e desígnios. Vida em tempestades e bonanças. Tudo, enfim.

 

4-Quais são suas influências, tanto na arte como na música e aproveitando o barco, cinema também?

Um mundo:

-É inspirado por…

Leonardo da Vinci, Siron Franco, David Hokney, Lukas Lampros, Xul Solar, Jean Michel Basquiat, Paul Klee, os artistas “loucos” do Engenho de Dentro(grupo de Nise da Silveira-Brasil),Grupo COBRA, Pablo Picasso, Giotto, Marc Chagal, Miró, Rembrandt van Rijn, Velázquez, Rubem Grillo, M.C. ESCHER, cartunistas como Luiz Gê, Larte, Hergé, Frank Miller, Henfil, Monet, Van Gogh, Odilon Redon, Paulo Pasta, João Câmara, Manabu Mabe, Tomie Ohtake, Saul Steinberg, Urderzo & Gocinny, Moébius, os Gêmeos, Kandinsky, Max Beckman, Salvador Dalí, Gustave Doré, Marcel Duchamp( pouquinho só…), Vinicius Berton, Inácio Rodriques, Gersey Pinheiro Cruz, Edson Beleza, Yeronimus Bosch, Brueghel, Guto Lacaz, Mariza Dias Costa, Paulo Caruzo…

-Curiosidades:

Gosta de filmes:

O Nome da Rosa(Jean-Jacques Annaud), 2001, uma Odisséia no Espaço(Stanley Kubric), Muito Além do Jardim(Hal Ashby), Pulp Ficcion, Kill Bill, Bastador Inglórios, DJango Livre( Tarantino), Corpo fechado( M. Night Shyamalan), Metrópolis(Fritz Lang), Um Cão Andaluz(Luis Buñuel), O Grande Ditador(Charles Chaplin), O Poderoso Chefão, Drácula (Francis Ford Coppola), todos da Marvel, A Viagem de Chihiro(Hayao Miyazaki ), Todos Star Wars( George Lucas), Idiocracy(Mike Judge),tudo de Stanley Kubrick, O Iluminado( Stanley Kubric). O Senhor dos Anéis( Peter Jackson), O Advogado do Diabo, etc, etc, etc…

Livros:

O Terceiro Tira( Flann O’Brien); Ilíada e Odisséia( Homero); tudo de Platão; A Divina Comédia(Dante Alighieri), 1984, A Revolução dos Bichos(George Orwell), A Bíblia( Deus); Flores do Mal( Baudelaire); Demian, Sidarta ( Herman Hesse); todos do Kafka; todos do Drummond; tudo de Guimarães Rosa; tudo de Clarice Lispector; tudo de Nikos Kazantzákis; O Pequeno Príncipe, Terra dos Homens, A Cidadela(Saint Exupéry); tudo de Manuel Bandeira; O Desejo Pego Pelo Rabo( Pablo Picasso); Pai Ubu( Alfred Jarry); tudo de José Geraldo Neres; tudo de Yndiara Macedo; Tudo de Vinicius de Moraes; tudo de Haroldo de Campos( especialmente a crítica literária   e ensaios); tudo de Adélia Prado; tudo de Manuel de Barros; tudo de Murilo Rubião; O Poder do Mito( Joseph Campbell e Bill Moyers), tudo de Carl Gustav Jung; Tudo de Jorge Luiz Borges; Cartas a Théo, Vincent Van Gogh; Mensagem, Fernando Pessoa; tudo de Herberto Helder; Allan Moore, Millôr Fernandes, Cecília Meireles, Jorge Amado, o Espírito Santo, Ariano Suassuna, Ferreira Gullar, Fábio Siqueira do Amaral, José Paulo Martino, Esopo, Erasmo de Roterdam, Nélson de Souza, Lewis Carroll, Nietzsche, Sartre, Merleau Ponty, Luiz Vaz de Camões…etc, etc, etc…

Músicas: todas boas, menos o funk, menos o que nos rebaixa ao nível do pré- precário. Rock, rock, Legião Urbana, Paralamas, Titãs, Capital Inicial, Alguns do Cazuza, menos o pensador, que dói- e mais o músico inspirado. Pink Floyd, The Doors, Músicas como do A-há, Gênesis, ABBA, MPB, Música clássica( barroco+ Bach, Vivaldi/ Beethoven, Mozart, Mussorgsky, Devorák, românticos/ Igor Stravinsky, Villa Lobos, os modernos. Os contemporâneos, Phillip Glass) Egberto Gismonti, Tom Zé, Elomar, Lorinna Mckennitt, Era, Vangellis, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Chico Buarque, Ney Matogrosso, Uatki, Joelho de porco, Karnak, Violeta Parra, Mercedes Sosa, Juan Manuel Serrat, algumas de Mano Chao, etc, etc…

 

5-Quando e como você desenvolveu esse estilo de desenhar?

“Quando não temos como fazer de qualquer jeito, achamos o nosso estilo”, Paul Klee.

Bom, eu estou em fase de metamorfose ambulante. Todos os dias, acredito, incorporo algo novo, e transformo-me em algo que ainda não sei. São tantas as artes que acabo sintetizando e dando vasão a todas elas de alguma forma, quiçá, nova.

 

6-Como é o seu fluxo de trabalho atualmente?

É menos intenso. Mais concentrado na pintura e nos textos. Como professor, dando muitas aulas no SENAI de Atibaia. Como cartunista quase sempre distante de uma rotina. Mas não deixo o élan desaparecer. Há sempre um foguinho na reserva para os imprevistos. Para concursos, para salões e editais. Concentração para publicação do livro da esposa e companheira Yndiara Macedo, o seu primeiro livro de contos, em 2015.

 

7-Quais são as dicas para quem está começando, onde pode encontrar referências fora da internet (livros, revistas ou fanzines) e como poderia utilizar estas no dia a dia?

Referências… bom a enciclopédia é uma ótima referência. Uma boa gramática, Bons livros de história, tanto do Brasil como do mundo. Bons livros de crítica literária e de artes, bons na crítica literária, como o professor Massaud Moisés, Alfredo Bosi, Antônio Cândido. Os chamados, “concretistas”, que trouxeram para a literatura contribuições importantes, tanto da visão da literatura contextualizando a brasileira com a internacional, assim como a própria literatura, dando relevo a escritores e escritas esquecidas: Haroldo, Augusto de Campos e Décio Pignatari. O grande José Paulo Paes. No campo da crítica de arte: Ferreira Gullar, Mario Schemberg, Agnaldo Farias. Em âmbito internacional: Rerbert Read, Esnst Gombrich, Giulio Carlo Argan , etc.

 

8-Dicas para marinheiros de primeira viagem?

Veja o mar, veja o pôr do sol. Calcule que as estrelas são musicas, partituras, ore, crie hábitos saudáveis. Ame! Tenha no cardápio pouca carne e pouco álcool. Muito amor, ame, grave o nome das constelações, e obedeça ao vento, ame a natureza, seja indiferente com a palhaçada política e os políticos. Crave seus olhos nas cores que nunca existiram…- será assim mais um louco, um louco sublime. E se deixar a vida te naufragar, aposte na arte para ser achado com VIDA! Acredite em você e na vida. Ela nunca é nem nunca foi um acaso. Ela determina sua condição se você amá-la. Ame e nunca mais odeie. São estas coisas que fazem a gente ser feliz. Se não fizer arte, pelo menos se salvará para a alegria, para o Absoluto, para Deus, para a concretização de um ideal…

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Confira alguns trabalhos do Nestor Lampros: