Punk direto da Paraíba com Carrapato’s

1-Antes de qualquer coisa, fale um pouco sobre o surgimento do Carrapato’s?

A Carrapato’s nasceu em 2011 ensaiando na cozinha de casa porque ter uma banda era a coisa mais legal que tínhamos pra fazer. Uma forma de romper o tédio, fazer mais e dar voz a nossa existência e inquietações.

O início foi marcado por uma série de confusões onde morávamos, mesmo a gente já tendo um acordo preestabelecido que vinha perdurando por dois anos, ensaiávamos em completo clima de guerra por conta de vizinhos que não iam com nossa cara e começaram a encrencar com nossos ensaios.

Lá em casa já bateu polícia, Seman, tentativa de abaixo assinado e até intimação pra abertura de processo. Foi uma espécie de treinamento pra lidar com o caos. Inclusive uma dessas histórias virou música, “Dom de Gritar” retrata com precisão um desses episódios.

No início Flávia não queria ter banda, mas depois do primeiro show foi meio que inevitável a vontade de subir no palco, gritar e expurgar os demônios adquiridos com o dia a dia. Era e ainda é divertido, além de necessário pegar o microfone e dizer o que muitos ouvidos não querem ouvir, e assim fazer frente contra todo tipo de opressão. Pra nós o rock sempre teve a ver com se rebelar, protestar e incomodar, e é isso que fazemos.

2- Quais as influências da banda?

A nossa maior influência é sempre a vida, nossas experiências e situações que colocamos no papel e vai ganhando forma musical. Quanto a nossa linguagem musical, nós escutamos muita coisa e cada uma delas se manifesta de alguma maneira, vai do punk rock, garage punk, grunge ao folk, country blues, etc.

Que se fazem presente seja no nosso trabalho oficial, como também no Projeto Punk Caipira, que é nosso projeto como músicos de rua onde tocamos folk punk. Entre os principais nomes que nos serviram de base, destacamos Cólera, Ramones, Green Day e Violent Femmes.

3- Porque um duo e como a logística de um duo impacta ao marcar shows?

Ser um duo nunca nos foi uma pretensão, quando começamos a fazer isso não tínhamos sequer uma referência nesse segmento, apenas começamos a ensaiar juntos em casa, somos irmãos e quando ganhamos guitarra e bateria logo começamos a fazer barulho juntos.

Até chegamos a pensar em adicionar alguém no baixo mas vimos que nosso som funcionava bem assim e colocar mais alguém podia atrapalhar a sincronia que tínhamos tanto musicalmente como também em relações as ideias, os objetivos e a amizade. Aí ao invés desse outro alguém acrescentar, acabaria por subtrair, então assim ficamos.

Ajuda bastante na logística ser um duo porque fica bem mais fácil de se locomover, e por ocupar menos espaço cabemos em qualquer palco. Talvez a única desvantagem é ter menos gente pra rachar os custos pra gravar, produzir, etc.

Carrapato's

4- Como é ser guitarrista e baterista numa formação de duo?

Victor: É um desafio estimulante ser guitarrista de um duo, ter que pensar inúmeras soluções criativas que não seriam necessárias caso tivéssemos um baixo na banda, isso nos torna mais criativos. Quando me dei conta disso, comecei a prestar muita atenção no meu som, o timbre que me agrada e tal, pra conseguir apresentar nosso trabalho como de fato é, seja no ensaio, nos palcos ou dentro do estúdio, até mesmo pra mostrar que dois também enchem o palco.

Então sempre tive esse cuidado em equalizar bem nosso som antes de cada show pra não deixar a desejar o potencial musical que bandas duo podem ter. Mesmo nós não sendo porta voz pra representar o formato, ainda assim sinto essa responsabilidade de fazer bem feito não só por nós, mas também pela credibilidade do formato que por vezes é questionada por alguns mais apegados ao tradicional.

Flávia: É uma experiência constate de aprendizado. A Carrapato’s é minha primeira banda, minha formação musical se deu em um duo, portanto é algo natural pra mim, foi como eu aprendi a fazer meu som.

5-O disco “Isso é Carrapato’s Porra” e o EP “Chegou a Hora” foram gravados de que forma? Nos fale um pouco sobre o processo de gravação destes registros?

O “Isso é Carrapato’s Porra” foi um registro ao vivo de um show em 2017, algo não planejado, mas que topamos de cara quando surgiu a oportunidade. É um registro bem sincero daquele momento, sem firulas, direto, com acertos e erros. Já o EP “Chegou a Hora” é nosso primeiro material oficial de estúdio, contendo 5 músicas que gravamos em 5 horas direto.

Gravamos bateria e guitarra ao vivo e em seguida os vocais. Foi uma experiência bem interessante pra entender melhor a dinâmica dentro do estúdio, e conseguimos chegar num resultado muito próximo de como soamos ao vivo, que era o nosso objetivo.

6-Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para uma ilha deserta?

Vamos indicar um de cada que tem um significado importante, individualmente e/ou coletivamente pra ambos que, de certa forma, acabam por se entrelaçar de algum modo a partir de uma narrativa de viver intensamente, o agora, seja no conteúdo da obra ou no impacto que nos causou, como é o caso do primeiro disco do Violent Femmes que foi uma peça importante pra construção do projeto Punk Caipira.

Livro: A História de Fernão Capelo Gaivota de Richard Bach
Filme: Sociedade dos Poetas Mortos
Disco: Violent Femmes (1982)

8-Qual mensagem/conselho vocês deixariam aqui para bandas iniciantes? De que forma podem produzir seus discos e divulgá-los?

Não esperar as “condições perfeitas” pra começar a produzir, tentar extrair o melhor das condições que você tem e nunca deixar de fazer, até porque se as condições perfeitas realmente existissem a gente não precisaria nem estar fazendo música de protesto, então… Não deixe pra depois, a vida é curta e o depois pode nem existir.

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