Rua da Padaria de Bruna Beber: Boas lembranças através de poesia

Quando se trata dos anos 80, vem aquela enxurrada de lembranças, que ao passar dos anos trazem consigo, um misto de saudade e nostalgia. Dos refrigerantes ao sorvete de casquinha, do atari às tardes na rua.

Rua da Padaria de Bruna Beber, traz à tona toda esta magia saudosa e até mesmo um pouco melancólica. Carioca de Duque de Caxias, é poeta, escritora e tradutora. Autora dos livros de poesia a fila sem fim dos demônios descontentes (2006), balés (2009), rapapés & apupos (2012) e Rua da Padaria (2013) e Ladainha (2017). Também é autora de um infantil Zebrosinha (2013).

Rua da Padaria é um livro com poemas, com beleza calcada na simplicidade e linguagem coloquial, que só resultam em apenas um objetivo: Terminar a leitura em uma tacada só. Daqueles livros sem firulas ou rodeios, tais como Morte e vida Severina (João Cabral de Melo Neto) que possui uma escrita enxuta e direta. Abaixo seguem alguns dos poemas. Boa leitura e até a próxima.

Rua da padaria de Bruna Beber
Um exemplo desta nostalgia, no poema intitulado “o que dói primeiro”:

O que dói primeiro
todo urubu titia gritava
urubu urubu sua casa
tá pegando fogo
todo estrondo na rua
papai dizia eita porra
aposto qué bujão de gás
todo avião vovó acenava
é seu tio! desquentrou preronáutica
num tenho mais sossego
temi e ainda temo toda espécie
inflamável lamentei tanto urubu
desabrigado desejei o fim
da força aérea brasileira
só custei a entender mamãe
e o que queria dizer com seu irmão
não vem mais brincar com você
papai do céu levou.

Rua da Padaria – Bruna Beber from Patricia Chmielewski on Vimeo.

Mas também há espaço para o amor, e o sentido da espera, da saudade e da ausência:

 

romance em doze linhas
quanto falta pra gente se ver hoje
quanto falta pra gente se ver logo
quanto falta pra gente se ver todo dia
quanto falta pra gente se ver pra sempre
quanto falta pra gente se ver dia sim dia não
quanto falta pra gente se ver às vezes
quanto falta pra gente se ver cada vez menos
quanto falta pra gente não querer se ver
quanto falta pra gente não querer se ver nunca mais
quanto falta pra gente se ver e fingir que não se viu
quanto falta pra gente se ver e não se reconhecer
quanto falta pra gente se ver e nem lembrar que um dia se conheceu.

Até mesmo poema sobre a monga, figura icônica dos jogos de espelho dos circos e parques de diversões:

A monga no circo
quando perderes
os para-choques
deixa que caia
toda a roupa
te rebaterás
em dúvidas e lírios
ao ver-te puro e cheio
de urgências
sentirás alegre
preguiça
de toda
a gente
tão desnecessária
toda a gente.

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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