Subterrâneo afetivo e registro necessário com Xande Beraldo no “Toca do Bode desafia”

No terceiro episódio, o convidado é Xande Beraldo, que apresenta a música “Carta para o meu pai”, já no título inscrita numa tradição de canções que se aproximam da linguagem epistolar.

Em vez de apostar em grandes estruturas de produção, a proposta segue a lógica de poucos recursos, valorizando a entrega de Xande em um cenário em que cada palavra e cada respiração carregam mais peso justamente por estarem expostas sem filtro com apenas: voz, viola e sintetizadores. Influenciada pela simplicidade e beleza da musica regional assim como também pelo britpop.

Essa escolha se alinha à ética do estúdio: dar visibilidade à “arte humana que ainda respira e resiste”, como o próprio projeto descreve, criando um espaço de escuta para narrativas que raramente encontram lugar em formatos industriais.

Na canção “carta para o pai”, no universo da música, costuma funcionar como instrumento de reconciliação ou de acerto de contas, atravessando lembranças, silêncios e faltas que nem sempre cabem em conversas diretas.

Em “carta para o pai” se insere nessa linhagem ao escolher incluir, já no título, o destinatário da canção, convidando quem assiste a testemunhar algo que, em outras circunstâncias, poderia permanecer restrito ao âmbito privado, justamente por ser uma estrutura de carta.

O episódio com Xande Beraldo amplia a cartografia do estúdio: além de bandas e álbuns, agora também desafia cartas cantadas, memórias familiares e histórias individuais.

Ao documentar “Carta para o meu pai” nesse formato, o projeto constrói um arquivo afetivo da cena independente, em que cada registro vale tanto pelo que diz quanto pelo modo como foi produzido: com pouco equipamento, muito envolvimento e uma confiança rara entre artista e produtor.

Assistir “Toca do Bode desafia: Xande Beraldo (Carta para o meu pai) #003” é, portanto, entrar num capítulo em que o subterrâneo perdoense não se limita a riffs e distorções, mas também abriga cartas abertas, vozes que falam com o passado e canções que insistem em tornar público aquilo que, por muito tempo, ficou apenas dentro de casa.

Sobre o projeto Toca do Bode desafia
O Toca do Bode Estúdio vem se consolidando como um laboratório da cena independente no interior de SP, onde Bodão Hubner grava, produz, mixa e masteriza trabalhos de artistas de forma visceral e quase artesanal.

No formato “desafia”, a ideia é tirar o músico do conforto do estúdio tradicional e propor a gravação de uma música autoral com poucos recursos, em situações improvisadas, reforçando a presença humana num mundo cada vez mais mediado por automatismos.

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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