Formada em 2025 em Porto Alegre, a Betume chega ao seu primeiro EP, Gulag, mergulhando ainda mais fundo na atmosfera sombria apresentada em seu debut single, Sozinho Contra Todos. O lançamento reúne três faixas que atravessam temas como destruição, isolamento, repressão, desesperança e a sensação de aprisionamento diante de uma realidade social cada vez mais sufocante.
Formada por Guilherme Silva (guitarra e voz), Vinícius Fantin (baixo) e Rodrigo Corrêa (bateria), a banda constrói uma sonoridade que parte da estética raivosa e urbana do punk para encontrar no post-punk novas possibilidades de tensão, espaço e escuridão. O resultado é um som direto, mas carregado de atmosfera: guitarras geladas, reverb, delay e flanger criam uma paisagem sonora que parece tão concreta quanto abstrata: uma cidade em ruínas, vista através de concreto, ferrugem, água e fumaça.
Não por acaso, Gulag nasce em Porto Alegre, em um período em que a cidade ainda enfrentava as consequências da catástrofe climática que devastou o Rio Grande do Sul. Mas o EP não se limita ao registro de um acontecimento específico. A destruição física da cidade funciona como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre um cotidiano marcado pela precarização, pelo medo e pela sensação permanente de que não há saída.
A abertura, “O Tempo Destrói Tudo”, transforma a passagem do tempo em uma força inevitável de desgaste. A música percorre memórias, cicatrizes e perdas, questionando aquilo que permanece depois que tudo parece ter sido destruído. É uma faixa sobre sobrevivência, mas também sobre as marcas que não desaparecem.
Em “Guaíba”, a paisagem de Porto Alegre assume protagonismo. O rio aparece simultaneamente como cenário e metáfora: águas, cais, navios e ruínas se misturam à sensação de repetição, desespero e ausência de saída. A cidade destruída pelo desastre climático encontra na música uma espécie de fantasma de si mesma: o que existiu, o que foi perdido e aquilo que talvez nunca volte a existir.
Já a faixa-título, “Gulag”, leva o conceito do EP para seu ponto mais extremo. A ideia histórica do campo de prisioneiros soviético é deslocada para o presente e transformada em metáfora de uma sociedade na qual a vigilância, a censura e a repressão deixam de estar restritas às instituições e passam a ocupar também a consciência individual. O “gulag” deixa de ser apenas um lugar físico: torna-se uma condição psicológica e social.
Musicalmente, a Betume trabalha justamente nessa tensão entre agressividade e claustrofobia. Os riffs carregados de efeitos não suavizam a violência das músicas; ao contrário, criam uma sensação de espaço fechado, como se cada camada sonora comprimisse ainda mais o ouvinte. A urgência do punk encontra a frieza do post-punk, enquanto as letras transformam experiências individuais e acontecimentos coletivos em imagens de isolamento, destruição e resistência.
Gulag é, portanto, um EP sobre estar preso: ao passado, à cidade, às próprias cicatrizes, às estruturas sociais e políticas e a um presente que parece cada vez mais difícil de compreender. Mas também é um registro de uma banda que encontrou na música uma maneira de transformar esse desconforto em linguagem.
Gravado em Porto Alegre, o EP teve guitarras, vocais e baixo registrados na Ahead Records por Lucas Queiroz, enquanto as baterias foram gravadas no Estúdio Hurricane por Sebastian Carsin. A mixagem e masterização ficaram a cargo de Pedro Carvalho, e a capa foi criada por Guilherme Silva.

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