Este é um tempo de hiperconexão, em que a distância parece ter sido suprimida pela dinâmica das telas e das transmissões instantâneas. Pura ilusão. A distância nunca é, de fato, abolida. Ela é física, mas também metafísica, habitada pelo invisível do que restou, do que é e do que vem a ser: ecos, lembranças, espectros de diálogos reticentes e silêncios profundos, noites de som e fúria, futuros perdidos reencontrados.
E, entre tantas distâncias de naturezas distintas, na geografia estendida entre Cambuí, no sul de Minas, e Bom Jesus dos Perdões, no interior paulista, vemos e ouvimos emergir a banda O Espaço é um Lugar Frio e Vazio.
Após dois singles, a banda apresenta seu EP de estreia “Por enquanto, é isso”, contendo quatro faixas instrumentais inéditas, que percorrem distâncias e afetos múltiplos e sobrevoam as ruínas da memória. Guiado pelo espírito punk do “faça você mesmo”, a banda constrói uma arquitetura sonora sem a presença da palavra cantada ou declamada como guia. Em cena, guitarras massivas, ora melódicas ora ruidosas, ora eufóricas ora melancólicas, somadas a uma bateria densa e pesada.
Can, Neu!, Mogwai, Slowdive, Pink Floyd (em sua fase Syd Barrett), poesia e cinema experimental são algumas das inúmeras referências do grupo. O resultado, contudo, não se limita a emular origens. Muito pelo contrário: em vez de se perder, como tantas bandas contemporâneas, na tentativa de soar como suas influências e recair em uma espécie de “cover autoral”, O Espaço é um Lugar Frio e Vazio tem consciência de seu próprio espaço sonoro, de suas dimensões, de suas limitações e potencialidades plásticas.
O ‘do-it-yourself’ ganha aqui um segundo sentido, operando como um mapa para quando estamos perdidos frente aos infinitos estímulos das redes sociais e à falsa sensação de proximidade com nossos ídolos, ou mesmo com ilustres desconhecidos.
O próprio título do EP, “Por enquanto, é isso”, reforça a consciência da banda sobre o lugar onde se encontra. Ao invés de apelar a múltiplos artifícios de pós-produção visando domar a expressividade do som e, talvez assim, receber a validação das redes de ‘fast food’ sonoro e dos algoritmos, o grupo se contém em seus próprios limites, optando por colocar uma vírgula entre o tempo e a ação. Limites estes que em nenhum momento soam como limitações estéticas, mas sim como um campo criativo para a experimentação viva de uma verdade artística que não se adquire com likes ou views.
O registro, gravado entre a delicadeza e a distorção, a sobriedade e a confusão, entre quilômetros, entre o recolhimento contemplativo e a ansiedade de vir à tona, entre noites de ruído e lirismo expressos nos shows bombásticos da banda, a dor e o luto, entre o trabalho exaustivo cotidiano e o desejo de liberação anárquica, revela algo do espírito da nossa época.
Até que ponto, hiperconectados, estamos cada vez mais perto de tudo e de todos e, ao mesmo tempo, cada vez mais distantes de tudo, de todos e, no limite, de nós mesmos? Essa distância, que se abre, de repente, como um abismo sob nossos pés, talvez seja a possibilidade de um novo espaço para a solidão. Frio e vazio, sim, mas densamente povoado por discos, livros, pinturas, fotografias e danças, com aquilo que há de melhor em uma humanidade que tende à vigilância do outro e ao exibicionismo de si na maior parte do tempo. Certamente a hiperconexão não é a saída, mas, ao experimentá-la, descobrimos, não sem angústia, a potência necessária da distância e uma via, quem sabe, de resistência a um novo tipo de totalitarismo cibernético.
Aliás, o vídeo para a faixa “Penélope Obscura” sintetiza imageticamente essa “potência da distância”. Vemos imagens de Cambuí fotografadas por um adolescente com rara sensibilidade poética, misturadas a tomadas da banda tocando ao vivo no “Beco”, um dos poucos redutos da cidade que abre as portas para experimentações sonoras contemporâneas, feitas por um amigo de quase meia-idade.
Pode-se perguntar: qual é a camada principal do vídeo? O que está sendo privilegiado? As imagens poéticas da cidade ou a performance da banda em ação nessa mesma cidade? Que cidade está sendo revelada: uma que se transforma, mantendo certas estruturas conservadoras, uma que se conserva abrindo-se a transformações necessárias, ou ainda outra coisa?
Mas também pode-se perguntar: o que imagens tão distantes no espaço-tempo, quando aproximadas, produzem?
A resposta de qualquer uma destas questões depende do ponto de vista em que são abordadas. Não há primazia a priori entre a nostalgia contemplativa de um passado silencioso que pulsa no presente e é rebatido por este, e seu tensionamento com camadas e texturas poéticas de ruídos oníricos de guitarra.
Também não há um resultado premeditado visando um receptor passivo.
Tudo está em aberto. O ouvinte, e o espectador no caso, também é protagonista da obra, pois doa sentido, mas também recebe sentido vindo de outras distâncias.
Em um de seus primeiros projetos, “Escher”, Leandro F. Rosa cantava: “já não temos mais a mesma idade de quando tudo era possível”. Talvez agora, sabendo também do impossível, ele alcance o momento de fazer das impossibilidades enfrentadas por todo artista no extremo sul de Minas, sufocado por múltiplos conservadorismos e hábitos arraigados, a possibilidade de um novo gesto, paradoxalmente silencioso e ruidoso.
O silêncio das imagens (que, para dizer a verdade, talvez também grite), friccionado às múltiplas camadas sonoras da banda, produz uma terceira coisa. Não é simplesmente nostalgia, nem esperança ingênua ou paralisia diante dos acontecimentos: é o presente vivo em que passado e futuro não se dissociam, mas também não se reúnem com perfeição, assim como são nossas lembranças, nossos esquecimentos, sonhos, impressões diversas, ilusões, delírios e tomadas repentinas de consciência e sentido, sempre incompletas. Distância, incompletude, o que mais?
A esta altura do EP, que não se restringe à materialidade do próprio produto, já não importa quem fez o quê, quem é o quê, se adolescentes ou adultos, se apocalípticos ou ingenuamente integrados. Tese e antítese se misturam em um gesto expressionista, culminando em uma síntese que não é mera conservação saudosista nem destruição rebelde sem causa, mas superação dialética traduzida em obra de arte, algo valioso em tempos em que a imagem e a performance do artista nas redes sociais parecem valer mais do que a própria criação.
Ainda que o som de O Espaço é Um Lugar Frio e Vazio seja aberto ao acaso e ao jogo aleatório dos dados, nada é acidental em sua concepção. A faixa “Janelas da Escola (de Frankfurt)” abre o EP, lançando o ouvinte no universo sonoro da banda, mas também abre a possibilidade, sem nenhuma imposição, desse mesmo ouvinte ir além do que se apresenta e se enveredar por perspectivas teórico-críticas que nenhuma playlist de plataforma de streaming oferece.
Se o rock tem algo a dizer no século XXI, isso certamente está bem longe (ainda que, inevitavelmente, e infelizmente passe por aí) das estatísticas das plataformas, que são apenas o reflexo da maior ou menor adequação ao sistema industrial de produção cultural.
Entre a prisão dos algoritmos, com suas fórmulas prontas para produzir música, automóveis, hambúrgueres tristes, ou cerveja artesanal pequeno-burguesa para consumo instantâneo, e a liberdade estética de romper com os ditames da indústria cultural na era da inteligência artificial, a escolha revolucionária é, evidentemente, pela segunda opção. Mas, apesar de evidente, ela precisa ser uma escolha, uma descoberta, um tateio, uma experimentação para que a linha de fronteira se rompa.
Em O Espaço é Um Lugar Frio e Vazio, há janelas ocultas a partir das quais podemos imaginar que o fim do capitalismo é possível, sem que, para isso, seja necessário o fim do mundo.
Onde encontrar:
https://www.instagram.com/oespacoeumlugarfrioevazio/
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