Enquanto a IA cria com um comando, “Toca do Bode Desafia” aposta no erro, na mão na massa e na experimentação!

Em tempos em que a criatividade parece, cada vez mais, ser deixada de lado, em que o ato de criar já não exige necessariamente o mesmo esforço, transformado, muitas vezes, em uma simples linha de comando para uma Inteligência Artificial, o músico e produtor Bodão Hubner nada contra essa tendência ao criar o “Toca do Bode Desafia”.

O projeto consiste em convidar músicos da região de Bragantina, no interior de São Paulo, para registrar, da maneira mais “raiz” possível, utilizando o mínimo de equipamentos: um gravador multipistas portátil e, principalmente, criatividade.

O mais novo convidado para o desafio foi Diego Fernandes (Crasso S.O espaço é um lugar frio e vazio), que trabalhou sobre a música “Lembrar”, versando sobre o desgaste que a vida moderna e seus periféricos causam nas relações interpessoais e na saúde mental.

Nada mais propício para um desafio que busca uma produção quase artesanal, no autêntico espírito “Do It Yourself”.

Violão, guitarra, baixo, teclado e uma bateria eletrônica emolduram uma canção que flerta com a música alternativabedroom pop e o dream pop, sem deixar de lado a brasilidade, presente não somente na letra, mas também na atmosfera mais intimista que o próprio projeto propõe.

Enquanto Diego desenvolve toda a parte artística do projeto, tocando os instrumentos e construindo os arranjos, o produtor Bodão cuida da parte técnica, como captação, produção e mixagem. É justamente nessa divisão de funções que o “Toca do Bode Desafia” encontra uma de suas principais características: não se trata apenas de registrar uma música, mas de construir um processo criativo a partir de recursos limitados, fazendo das restrições parte da própria linguagem.

Em vez de buscar a perfeição técnica a qualquer custo, o projeto parece interessado em preservar aquilo que muitas vezes se perde no excesso de possibilidades: o erro, a experimentação, a improvisação e as decisões tomadas no calor do momento. É uma forma de lembrar que criar também é colocar a mão na massa, testar, errar, refazer e descobrir caminhos que nem sempre estavam planejados.

“Lembrar” nasce, portanto, desse encontro entre duas propostas: de um lado, a inquietação de Diego diante das relações e da vida contemporânea; de outro, a provocação de Bodão, que coloca músicos diante do desafio de transformar poucos recursos em música.

No fim, talvez seja justamente essa a maior provocação do “Toca do Bode Desafia”: descobrir até onde a criatividade pode chegar quando, ao invés de aumentar as ferramentas, decidimos diminuir as possibilidades.

Leandro F. Rosa Escrito por:

É jornalista, músico e escritor, nascido em São Paulo mas tendo sua paz e tranquilidade encontrada em uma pequena e bucólica cidade do Sul de Minas, cercado por discos, livros e cafés sem açúcar.

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