Diego Gomes Menezes deixa o rock desgraçado de lado, mas a desgraceira continua!

O título “Deixei de lado o rock desgraçado” pode até sugerir uma despedida, mas, vindo de Diego Gomes Menezes, soa muito mais como uma de suas brincadeiras. No quinto episódio do Toca do Bode desafia, o músico conhecido por sua trajetória no Churumi e agora também como baterista do Crasso S. Apresenta uma composição que olha para o passado sem transformar a memória em peça de museu.

A canção encontra Diego fora do seu habitat que ajudou a defini-lo, o crust punk, mas ainda cercado pela mesma inquietação. Afinal, é possível deixar o rock desgraçado de lado quando a própria história foi construída no punk, no hardcore, no crust e na vontade de fazer barulho justamente onde quase não havia espaço para isso?

O Churumi nasceu em Bom Jesus dos Perdões quando Diego, Bode Macabro e Zulu, inconformados com a falta de alternativas culturais na cidade, decidiram começar uma banda. Após a saída de Zulu, o grupo assumiu definitivamente o formato de duo, com Diego e Bode encontrando nas limitações do formato uma maneira própria de compor.

O Churumi sempre foi um punk pesado que flertava com hardcore e crust — uma “dupla crust de bebuns”, conforme os próprios integrantes resumiram com o humor habitual, mas que também misturava o peso de Black Sabbath à sujeira de Nirvana.

Esta banda não nasceu cercada de glamour. Veio de ensaios com equipamento precário, microfonia, horas extras para pagar instrumentos parcelados e encontros nos quais os amigos podiam assistir, conversar e fazer um som. O trabalho cotidiano, as contradições profissionais e a insatisfação com a cidade alimentavam as composições: no fim de semana, a resposta era se reunir e fazer barulho para soltar a raiva.

O repertório do Churumi nunca respeitou cercas muito rígidas. Na lista de influências e discos citados pela banda conviviam Napalm Death, Luiz Gonzaga, Isabella Superstar e Sir Lord Baltimore, combinação que ajuda a explicar por que peso, sarcasmo e referências aparentemente incompatíveis sempre puderam ocupar a mesma canção. O primeiro disco do duo foi apresentado justamente por suas letras sarcásticas e por um leque de influências que passava de MDR e Napalm Death a Amado Batista.

Mais do que uma curiosidade, essa mistura oferece uma chave para entender “Deixei de lado o rock desgraçado”. A canção não precisa representar o abandono de uma identidade; pode ser compreendida como mais um desvio dentro de uma trajetória que nunca pediu autorização para combinar punk, música popular, humor e experiência cotidiana.

A frase do título possui ainda aquela ironia típica de quem anuncia que largou alguma coisa enquanto continua falando sobre ela. Diego deixa o rock de lado apenas para colocá-lo novamente no centro da conversa, agora observado com a distância de quem acumulou ensaios, festivais, equipamentos ruins, histórias improváveis e divertidas.

O projeto Toca do Bode desafia propõe que artistas registrem músicas autorais fora do ambiente convencional de estúdio e com poucos recursos. Idealizada por Bodão Hubner, a série valoriza a arte humana que continua respirando e resistindo em meio à crescente automatização da produção cultural.[4]

Esse formato combina naturalmente com Diego. O Churumi já defendia a ideia de fazer música por gosto, sem preocupação em agradar, gravando demos, divulgando-as em blogs e usando o som como caminho para encontrar shows e novas pessoas. A precariedade, portanto, nunca foi exatamente um obstáculo; tornou-se parte do método.[1]

Em “Deixei de lado o rock desgraçado”, essa experiência aparece condensada em uma performance mais próxima, na qual o personagem do músico barulhento dá lugar ao compositor. A mudança de enquadramento veio só para pavimentar ainda mais o trabalho no Churumi. Permite perceber que, por trás da distorção e da irreverência, sempre houve alguém atento ao cotidiano e disposto a transformá-lo em música.

Diego também demonstrou essa preocupação coletiva ao definir o Abbey Roça como um espaço democrático, capaz de receber bandas sem depender de panelas ou favores, além de cultivar amizade, paz e o surgimento de novos projetos. É uma visão coerente com a história do Churumi e com a própria proposta do Toca do Bode: criar espaços onde a música autoral possa existir antes de atender às exigências do mercado.

Por isso, “Deixei de lado o rock desgraçado” funciona menos como um final de desenho da disney e mais como uma final de filme do “Sexta-feira 13”, que sempre tem alguma continuação. O rock pode ter sido colocado de lado durante alguns minutos, mas permanece na forma de compor, no humor, no desconforto e na recusa em fazer tudo da maneira esperada.

No quinto episódio do Toca do Bode desafia, ele apenas troca o ângulo, baixa momentaneamente o volume e deixa que a canção mostre outra face da mesma contaminação radioativa. O rock desgraçado talvez tenha saído de cena, só esqueceu de ir embora.

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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