A atemporalidade e premonições de Raul Seixas

O rock brasileiro sofreu na década de 1970 uma fase difícil, o brilho que antes povoava os palcos com a Jovem Guarda e os Mutantes, foi esmorecendo.

As únicas figuras que permaneceram flutuando em meio ao caos da música nacional foram a talentosa e extravagante Rita Lee, Erasmo Carlos, o trio Secos e Molhados e o amado ou odiado, Raul Seixas.

As gritarias em festa pedindo “Toca Raul” perduram até hoje. E não é a toa que isso acontece. Raul deixou um legado musical repleto de frases premonitórias. Inveterado desde sua juventude, e amante de Elvis Presley, Raul inspirou-se no ídolo americano para montar uma banda que deslancharia na década de 80.

Raul Seixas em um momento de reflexão

O estilo Brock, nome dado as canções do rock cantado em português, se popularizou na voz de Raulzito. É interessante salientar que o Brasil passava por um período tumultuoso entre ditadura e democracia, por isso as letras dizem tanta coisa em forma de protesto.

Artistas e músicos buscavam na arte uma forma de se expressar e libertar-se da repressão que tornava os dias tão ásperos.

Nesse cenário, Raul Seixas compôs pérolas que encantaram e continuam nos impressionando pela sua atemporalidade. Escutar Raul Seixas ainda se faz necessário para compreendermos como o mundo foi e o que ele se tornará.

As canções de arranjos até certo ponto inovadores e com acordes relativamente fáceis, Raulzito deixou uma marca na linha musical brasileira em que não faltam críticas, apologias e grandes metáforas sobre o mundo moderno.

Os Mutantes – Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias

Entre as canções Gita, Eu nasci há dez mil anos atrás, Maluco Beleza, Ouro de Tolo e A maça, um exemplo que pode deixar qualquer um de queixo caído é a letra da canção O dia em que a terra parou.

Escutar essa composição nesses dias que atravessamos é mergulhar num mar de perplexidade e questionamentos sobre a existência e futuro do planeta. Como essa letra é medonha e atual!

Através dela é possível olhar para nós mesmos e buscar respostas para entender nossa relação com o mundo que queremos deixar ou que não vamos deixar para as gerações futuras, já que os dias se tornam cada vez mais angustiantes e caóticos.

Segue abaixo um trecho da letra e o link para audição. Viaje na letra e veja se o que ela diz tem alguma relação com os dias atuais. Deixe nos comentários depois. Forte abraço, e até semana que vem!

https://www.youtube.com/watch?v=SqQfySakoK0

O DIA EM QUE A TERRA PAROU

Essa noite, eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou

Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo
O planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém
Essa noite, eu tive um sonho de sonhador
Maluco que sou, eu sonhei
Com o dia em que a Terra parou
Com o dia em que a Terra parou

O empregado não saiu pro seu trabalho
Pois sabia que o patrão também não tava lá
Dona de casa não saiu pra comprar pão
Pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
Pois sabia que o ladrão também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
Pois sabia que não ia ter onde gastar

E nas Igrejas nem um sino a badalar
Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá
E os fiéis não saíram pra rezar
Pois sabiam que o padre também não tava lá
E o aluno não saiu para estudar
Pois sabia o professor também não tava lá
E o professor não saiu pra lecionar
Pois sabia que não tinha mais nada pra ensinar

O comandante não saiu para o quartel
Pois sabia que o soldado também não tava lá
E o soldado não saiu pra ir pra guerra
Pois sabia que o inimigo também não tava lá
E o paciente não saiu pra se tratar
Pois sabia que o doutor também não tava lá
E o doutor não saiu pra medicar
Pois sabia que não tinha mais doença pra curar

Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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