Eram assim os grã-finos em São Paulo, assim é o título de uma das reportagens mais “chute na cara” que já passaram por aqui. Joel Silveira exibe uma escrita repleta de bom humor o dia a dia da burguesia paulistana na década de 40.

Joel Silveira, conhecido como víbora no jornalismo literário (Apelidado gentilmente por Assis Chateaubriand), se esgueirou pelas entranhas da vida social da elite paulistana para descrever o casamento da filha do magnata paulista Francisco Matarazzo Junior, Filly Matarazzo, herdeira do maior parque industrial da América Latina, com o carioca João Lage. Ao comentar sobre o Clube das Vitórias-Régias, local de reunião de senhoras quarentonas da elite paulistana, Joel Silveira escreve que elas “se juntavam para expelir de público os fluidos e gases de sua literatice”.

Neste meio requintado, havia uma cachoeira de futilidade como no trecho a seguir – “Os rapazes se vestem muito bem e telefonam. Telefonam de cinco em cinco minutos e conversam com Lili, com Fifi e com Lelé. Recebem também telefonemas de Fifi, de Lili e de Lelé”

Sobre a riqueza dos Matarazzo, “Dizem por exemplo, que os lucros de Matarazzo no ano passado foram de 700 milhões de cruzeiros. É muito dinheiro e com ele, os Matarazzo podem fazer grandes e belas coisas. Algum dia (quem sabe?), Matarazzo fará um refeitório ventilado e claro para seus operários. ”

A milésima segunda noite na avenida paulista traz dezesseis reportagens, clássicas do jornalismo brasileiro, Além de reportagens, o livro traz crônicas curtas e bem-humoradas sobre a vida cultural do Rio, além de textos situados entre o perfil e a entrevista, retratando escritores e artistas como Di Cavalcanti, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga. Monteiro Lobato, Agripino Grieco, Antônio Nássara, Candido Portinari e João Cabral de Melo Neto.

Sim, Joel Silveira sempre foi um jornalista gigante. Não foi à toa que foi provocado por Assis Chateaubriand que, ao lhe enviar para a 2 ª guerra mundial, ordenou; “mas, por favor, não me morra! Não me morra, seu Silveira! Repórter não é para morrer, repórter é para mandar notícias. Vá, seu Silveira” (p. 74).
A milésima segunda noite na avenida paulista – Joel Silveira é a indicação da vez do nosso blog, até a próxima.

Categorias: Literatura

Diego Fernandes

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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