Em 1968, Geraldo Vandré subiu ao palco do Festival Internacional da Canção para entoar “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores”, um hino incontestável de resistência política e social. Quase seis décadas depois, no efervescente e multifacetado cenário da música brasileira de 2026, a banda baiana Sons de Mercúrio apropria-se do peso histórico dessa frase para batizar seu novo EP: Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores.
A subversão aqui não é um mero trocadilho, mas uma declaração de intenções. Em tempos em que a hiperconectividade digital muitas vezes mascara um isolamento profundo, o grupo de Feira de Santana propõe que a verdadeira transgressão contemporânea é, paradoxalmente, a vulnerabilidade cantada a plenos pulmões sob a distorção das guitarras.
Se a Bahia sempre foi o epicentro rítmico do país — ditando tendências que vão do axé histórico às recentes fusões de afrobeat com ritmos urbanos —, a Sons de Mercúrio caminha por uma via paralela, reafirmando a força do rock nordestino.
O EP não busca o frenesi dos trios elétricos ou a estética do “pop” que domina as paradas. Em vez disso, constrói uma sonoridade visceral, onde a energia elétrica do rock serve de cama para um lirismo intimista e profundamente humano, provando que a nova cena musical baiana também sabe usar o peso para falar de afeto.
A anatomia do EP: faixa a faixa
Estar é Sobre Instantes
O trabalho abre com “Estar é Sobre Instantes”, de Mohzah Nascimento, uma crônica sobre a desaceleração que contrasta liricamente com a urgência típica do rock.
A letra captura a beleza do banal — o olhar perdido na janela, o silêncio compartilhado no carro e a descoberta de antigas cartas de amor. Há uma reflexão madura sobre a construção do afeto, expressa no verso “No pulso lento de se decantar”, que se opõe à liquidez dos relacionamentos modernos.
Ao sugerir “imprimir mais fotos, comprar outros livros”, a banda recusa o efêmero e abraça o analógico, estabelecendo um tom contemplativo que ganha contornos épicos quando sustentado pela instrumentação rock.
Oh, Meu Bem!
Em seguida, “Oh, Meu Bem!”, de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, é o momento de maior fragilidade lírica do EP, o que, no contexto do rock, costuma render baladas poderosas.
A letra aborda o esmagamento dos sonhos pela rotina opressora da vida moderna, retratada em versos como “Como formigas, no caminho de volta pra casa / Perdidas nas ruas e quadras”.
Aqui, o amor surge não como fuga, mas como âncora e trincheira. O refrão confessional — “Eu me rendo em seus braços me faço em pedaços / E torno a me juntar” — encapsula a resiliência emocional.
É uma canção de sobrevivência urbana, onde o ato de “se naufragar” nos braços do outro é a única salvação possível contra o vento que tenta virar o barco.
Febre em Desatino
A terceira faixa, “Febre em Desatino”, de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, eleva a temperatura, encontrando no rock o veículo perfeito para a paixão visceral.
A transição da calmaria doméstica para o delírio a dois é feita com imagens poéticas fortes, como em “Rasgando a noite em plena combustão, qual febre em desatino”.
A canção dialoga com a tradição do rock de cantar o desejo de forma desavergonhada e intensa. A repetição do verso “Que a chama vela o nosso brilho, sem lacrimejar” soa como um mantra sobre uma intensidade que não se consome, mas ilumina, impulsionada pela energia elétrica.
Mil Carnavais
“Mil Carnavais”, de Mohzah Nascimento, é a faixa que mais dialoga com o DNA baiano do grupo, mas sob a ótica crítica do rock.
A letra ataca a “selva de concretos e cristais” e o ato de “enlatar o som dos festivais”, em uma crítica à mercantilização da cultura.
O refrão “E que venham mais mil carnavais” não é um pedido por mais festas rasas, mas um desejo por celebrações genuínas, de “amigos leais” e “sem enganos”. É um brinde à vida comum e à eternidade dos momentos compartilhados.
Seu Dom
O encerramento se dá com “Seu Dom”, de Cartre Sans e Mohzah Nascimento, que funciona como um respiro otimista e curativo.
A canção convida ao desarmamento emocional: “Deixa de lado essa marra / Fale aqui na minha cara”. A banda propõe a música e a dança como ritos de purificação, em versos como “Cantar pra te ver sorrir / Dançar no pulsar do som”.
A faixa tem um apelo de acolhimento: “Aqui sempre existirá um ombro amigo / Agora estou em casa”, lembrando que a amizade e o amor fraterno também são formas de resistência contra as amarras do cotidiano.
O resultado é um hino de união que o rock tão bem sabe forjar.
O veredito
Pra Não Dizer Que Não Falei de Amores é um resgate da palavra cantada com atitude. A Sons de Mercúrio reafirma a força de uma boa letra aliada à energia do rock.
O título do EP, aludindo a Vandré, ganha sentido pleno ao final da audição: se em 1968 era preciso falar de flores — a paz e a revolução — diante dos fuzis, em 2026, diante da frieza algorítmica e da ansiedade generalizada, falar de amor, com todas as suas texturas, dores e curas, através de guitarras e baterias, é o maior ato de rebeldia possível.
A banda baiana entrega um trabalho coeso, maduro e sem artificialidades. Não bajula as tendências de TikTok nem busca refrões fáceis. É um EP para ser ouvido no volume máximo, mas com o coração aberto.
Um lembrete elétrico e poético de que, no fim das contas, a nossa sorte ainda é, e sempre será, um ao outro.
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