Há artistas que fazem música para serem ouvidos. Damiantoni Miranda parece pertencer a outro grupo: o daqueles que precisam criar para continuar respirando. É assim, sem rodeios, que o músico se apresenta em seu Bandcamp em uma frase breve, mas suficiente para iluminar a natureza profundamente pessoal de sua extensa produção.
Em “Reparo”, composição registrada no sexto episódio do projeto Toca do Bode desafia, essa necessidade encontra um ambiente perfeito. Fora da estrutura convencional de estúdio e diante de recursos limitados, Damiantoni transforma o processo de gravação em parte da própria música, conduzido tecnicamente por Bodão Hubner.
O Duofox acompanha há anos a trajetória de Damiantoni e já o definiu como um dos músicos mais criativos da “Seattle brasileira”, apelido afetuoso dado a Bom Jesus dos Perdões. Multi-instrumentista, ele transita por violão, guitarra, baixo, teclado e escaleta, além de construir interpretações vocais capazes de sustentar uma apresentação quase sem qualquer ornamento.
Seu catálogo ajuda a compreender a amplitude desse trabalho. Projetos como Birds, quiet., meandmyghosts, c o n t r a s s e r (redux), menos que nada, Desorganizado, Lixo e Fora de mim formam uma produção fragmentada, colaborativa e inquieta, na qual diferentes nomes e identidades parecem representar novas possibilidades de expressão.
Esse impulso criativo nunca esteve preso a uma única formação. Damiantoni também desenvolveu trabalhos ao lado de PLinteous, Emanuel Hubner e Bodão, além de participar de discos produzidos na própria Toca do Bode. Em Estranhos Dias de Sol, por exemplo, assumiu os vocais de “Eu e a Morte”; em outro trabalho de Bodão Hübner, encerrou “Você sabe demais” com um solo de guitarra que o Duofox associou a grandes guitarristas dos anos 1990.
Em 2021, Meu(s) Soturno(s) Eu(s) apresentou uma das faces mais densas de Damiantoni. O álbum aproximava noise rock, slowcore e indie rock, dialogando com nomes como Mogwai, Low e Radiohead, enquanto suas letras abordavam depressão, sofrimento, culpa e os limites entre ser vítima e algoz.
Apesar do peso, o disco não encerrava sua narrativa no desespero. Conforme a resenha publicada pelo Duofox na época, sua força estava justamente na possibilidade de reconhecer a dor sem abandonar a esperança de que tudo pudesse melhorar. Esse conflito entre escuridão e permanência tornou-se uma chave importante para compreender a obra do músico.
“Reparo” surge como uma possível continuação desse percurso. Se Meu(s) Soturno(s) Eu(s) olhava para as diferentes formas assumidas pelo sofrimento, a nova composição parece começar pela tentativa de lidar com aquilo que permaneceu quebrado.
A palavra “reparo” guarda dois movimentos. Pode significar perceber, prestar atenção e olhar novamente; mas também aponta para o ato de consertar uma estrutura danificada. É justamente nessa ambiguidade que a música encontra sua principal força simbólica.
Antes de reparar alguma coisa, é preciso reparar nela. Reconhecer as rachaduras, medir os danos e aceitar que certas marcas não desaparecem apenas porque deixamos de observá-las. Dentro da trajetória de Damiantoni, o título parece condensar uma obra inteira dedicada a tornar visível aquilo que normalmente se tenta esconder.
A apresentação não surge como promessa de cura imediata. “Reparo” está mais próxima de um processo: o momento delicado entre identificar uma ferida e descobrir o que ainda pode ser reconstruído. Damiantoni não oferece respostas prontas mas oferece presença, algo raro num tempo em que até as emoções parecem editadas para caber em poucos segundos.
Idealizado por Bodão Hubner, Toca do Bode desafia convida músicos da região bragantina a registrarem composições autorais de maneira “raiz”, utilizando poucos equipamentos e fazendo das limitações uma linguagem criativa. O projeto trabalha com um gravador multipistas portátil e coloca o artista diante da necessidade de construir arranjos sem depender da abundância tecnológica de um estúdio convencional.
A proposta combina especialmente com Damiantoni. Seu trabalho já nasce de uma relação quase vital com a música, atravessando diferentes instrumentos, projetos e estados emocionais, além de várias gravações realizadas em um gravador de fitas k7 portátil. Retirar o excesso de recursos não reduz essa expressão; ao contrário, cria espaço para que suas decisões apareçam com mais clareza.
Nesse processo, artista e produtor ocupam funções complementares. Enquanto Damiantoni conduz a composição e sua expressão musical, Bodão cuida da captação e da produção, transformando as restrições técnicas em parte da identidade do registro, princípio que norteia toda a série.
“Toca do Bode desafia: Damiantoni Miranda (Reparo) #006” também ajuda a preservar a memória de uma cena que raramente encontra espaço nos grandes veículos. Bom Jesus dos Perdões não aparece apenas como localização geográfica, mas como território criativo: a cidade pequena que apelidada carinhosamente de “Seattle brasileira” e de onde continuam surgindo músicos, bandas, estúdios e encontros improváveis.
“Reparo” não representa uma ruptura com os trabalhos anteriores de Damiantoni. A canção prolonga suas inquietações e abre outra fresta dentro de uma obra marcada pela tentativa de converter angústia em linguagem. Depois de cantar seus “eus soturnos”, preencher vazios com música e admitir que compõe para respirar, o artista agora parece examinar o que ainda pode ser recuperado.
Talvez não exista conserto definitivo. Algumas fissuras permanecem visíveis mesmo depois do remendo, lembrando tudo aquilo que quase desmoronou. Ainda assim, no universo de Damiantoni Miranda, criar já é uma forma de reparação e continuar respirando talvez seja sua obra mais importante.

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