Lançado nesta quarta-feira, 16 de setembro de 2026, “Macarrão de Guerrilha” é o novo trabalho do quinteto gueersh, sexto capítulo de uma trajetória construída em imersões coletivas e mais de 130 shows autogeridos. Coproduzido por Eduardo Manso, guitarrista da Bemônio e produtor-chave do selo QTV, com passagens por discos de Negro Leo e Ava Rocha, o disco confirma a banda como uma das vozes mais singulares do rock experimental brasileiro contemporâneo.
A gueersh nasceu em 2018/2019 no Rio de Janeiro, entre Região dos Lagos e o interior fluminense, de improvisos livres que resultaram no EP “Fogo Amigo” (2022) e nos álbuns “Tempo Elástico” (2023) e “Interferências na Fazendinha” (2024). A formação: Lívia Gomes (voz e sintetizadores), David Dinucci e Guilherme Paz (guitarras), Thomaz Alves (baixo) e Igor Arruda (bateria) sempre trabalhou em longas imersões coletivas em sítios de permacultura, um método que explica o caráter fractal e repetitivo de suas composições não veem apenas das influências de Krautrock da banda.
Parte da banda migrou para São Paulo, o que teria deixado as novas músicas “mais indie rock”, ainda que sem romper com a matriz coletiva e experimental da banda. É justamente esse deslocamento geográfico e simbólico do “solar” e externo de “Fazendinha” para algo mais introspectivo que marca a virada de “Macarrão de Guerrilha”.
Com seis faixas, o álbum é descrito pela própria banda como mais próximo do formato canção do que o antecessor, ainda que de um jeito “meio doideira”, pouco convencional. Lívia Gomes resume a diferença: enquanto “Fazendinha” dialogava com o ambiente externo, “Macarrão de Guerrilha” é mais interno, mais denso, ainda com humor, mas atravessado por conflitos pessoais e pela experiência de sobrevivência coletiva em grupo.
Ouça aqui: https://open.spotify.com/intl-pt/album/4gRnV9S1JOmtfINFQJDe8X?si=rmB_e_YBSnewXCqq9a–vA
O single de apresentação, “Guerreires do Jóquei” batizado originalmente de “Jóquei “, em referência ao bairro de Campos dos Goytacazes onde os integrantes moravam, foi escolhido a dedo pela equipe de produção justamente por ter “uma linguagem bem acessível” para introduzir o ouvinte ao restante do disco, mais hermético. É um índice interessante de como a banda equilibra acessibilidade pop e abstração: cada faixa nasceu isolada, em lugares e momentos distintos, e só depois foi reunida por afinidade sonora dentro do álbum.
Um traço estrutural chama atenção: as músicas longas não são um capricho estético, mas resultado direto do processo composicional da banda, baseado no que Guilherme Paz chama de “linguagem de improvisação de mínima ação” deixar o som se desdobrar sozinho, em repetições lentas e hipnóticas, até condensar os instrumentos numa massa sonora única em vez de partes separadas. Esse método, testado ao vivo em performances-maratona (a banda já tocou improvisações por seis horas e meia ininterruptas, com o público dormindo no local), explica por que faixas de discos anteriores como “Luz Guia” passam dos dez minutos sem perder tensão.
Já a entrada de Eduardo Manso como coprodutor é um salto de produção para a banda. Guilherme Paz relata que acompanhava o trabalho do produtor “antes de nascer” e que o convite se concretizou quando Manso assistiu a um show da gueersh e se ofereceu para gravar o disco mesmo sem garantia de cachê, viabilizado, por fim, com recursos de um edital cultural conquistado pelo grupo. Manso, também autor de discos solo lançados pelo selo QTV mesclando krautrock, eletrônica analógica e ruído, empresta ao álbum um acabamento sonoro mais sofisticado sem descaracterizar a espontaneidade que sempre definiu a banda.
“Macarrão de Guerrilha” chega após uma trajetória de mais de 130 shows e cinco turnês autogeridas, duas delas internacionais, passando por Argentina e Uruguai e que consolidaram a gueersh como referência do circuito independente brasileiro, ao lado de nomes como Boogarins e Drogma em cartazes recentes.
No conjunto, “Macarrão de Guerrilha” parece confirmar o amadurecimento de uma banda que trata a improvisação livre, a repetição de células mínimas e a canção brasileira não como referências separadas, mas como um único tecido sonoro, cada vez mais denso, cada vez mais pessoal. Destaques para as faixas: Nova esperança, Guerreires do Jóquei,Tempo das coisas e Sempre pode ser. Um discaço!!!!

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