O herói discreto – A narrativa cascuda de Mario Vargas Llosa

Em O Herói discreto, o peruano Mario Vargas Llosa mostra que ainda é um grande contador de histórias. Confesso que tive contato com uma outra obra dele, anos atrás, mas não desceu. Foi o famoso Travessuras da menina má, um puta livro conhecido, mas que deixei em minha mesa como peso de papel. Intragável.

A razão? Bem, a leitura não era fluída e me irritou profundamente o fato de uma história com um título interessante como esse, demorar 500 anos para engrenar. Na real, não engrenou pois larguei o livro na página 40.

Pois bem, após esse triste episódio de tentativa frustrada de leitura do peruano, recentemente me caiu nas mãos um outro livro dele que me fez querer reatar laços com o autor. Resolvi dar uma chance.

O enredo era bem enigmático, um toque de novela policialesca que eu adoro, e me pareceu algo bem propício para as férias de julho que chegavam.

O título do livro O Herói discreto não é dos melhores, óbvio, pior que isso só os títulos de álbuns de jazz do Chet Baker (entendedores saberão) mas é sobre ele que vou falar de forma breve aqui.

O QUE TEM DE ESPECIAL NESSE LIVRO?

Esse romance conta três histórias ao mesmo tempo. Só esse detalhe já vale o preço do livro. Contar uma história não é tarefa das mais simples. Agora, contar três histórias, onde cada uma caminha para um lado e ao final, por um elo minúsculo, elas se juntam é mais difícil ainda.

O estilo narrativo de Vargas Llosa gera discussões. Uns amam o autor, outros, não chegam a tanto.

O filho da mãe do Llosa inicia o livro com um personagem recebendo uma carta anônima com um belo recado com um alto teor de chantagem. Desse mote, nasce uma trama policial e a derrocada de um personagem que parece não conseguir encontrar o caminho para a redenção.

Vargas dificulta as coisas quando, nos capítulos seguintes, introduz personagens novos e novas tramas distintas, e também personagens velhos conhecidos dos leitores.

HISTÓRIAS QUE CAMINHAM PARA LADOS OPOSTOS

Sim, o tal Dom Rigoberto, de Os cadernos de Dom Rigoberto está nesse livro. Assim como o Sargento Lituma “quase apagado” que participa das investigações lentas da polícia peruana ao invetigar o caso de chantagem que envolve o personagem principal, Felícito Yanaqué.

O barato desse romance é que o escritor dá ao leitor três narrações diferentes e não há tempo para dormir. A coisa flui. O suspense cresce e vai descendo a encosta feito lava.

Mortes acontecem, cartas anônimas com desenhos de aranhas surgem a cada dia na porta de um homem de bem. Filhos querem destruir o casamento do velho pai, podre de rico, só por que ele resolve casar com a empregada.

Além disso, tem o drama de Dom Rigoberto. Ele precisa assimilar e descobrir, se a estranha história de seu filho de 14 anos, Fonchito, que diz e jura de pés juntos que um tal de Edilberto Torres, um homem que ele nunca viu antes e que aparenta saber tudo sobre sua vida, é mesmo real. Sim, pois esse sujeito, Edilberto Torres, brota e desaparece do nada como um fantasma.

LEIA SEM MEDO!

Para quem tem dúvidas de que livro do Vargas Llosa pegar para ler, esse é o caminho. Os enredos de O Herói discreto revelam toda a genialidade de um autor experiente e cascudo feito as patas duma lhama. Mostra que boas ideias, por mais que caminhem para lados opostos, podem se unir por um fiozinho quase invisível e completar o destino trágico das personagens.

A experiência de leitura desse livro me surpreendeu. O primeiro livro do mestre Mário Vargas que li e recomendo. Uma leitura primorosa e que vale a pena, sem dúvida.

Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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