Snuff A.R lança no subterrâneo mineiro o EP Psicótico

Snuff A.R  se afirma como parte viva da cena rock independente do Sul de Minas Gerais, transformando “resistência” em prática sonora, formação improvável e presença de palco. Mais do que apenas colocar oito faixas nas plataformas, Psicótico funciona como registro de uma banda que vem rodando festivais, rádios e selos, fortalecendo a cadeia subterrânea onde o rock ainda respira sem filtro.

Da autoescola ao Garage Fest – Inicio da Snuff A.R

A história da Snuff A.R começa no Garage Fest (orquestrado pelo Tânis das respectivas bandas Shadow Walker e Nãos ) em Cambuí (MG), quando João Bola (guitarrista, vocalista e instrutor de autoescola) cruza o caminho de Josué, futuro guitarrista solo da banda.

Entre uma aula de direção e outra, as conversas sobre música evoluíram até Josué se oferecer para tocar algumas composições de João em um show na AVG, em Cambuí, abrindo a porta para o que viria a ser a primeira formação da Snuff A Resistência.

Paralelamente, Manoel (baterista da banda O Espaço é um Lugar Frio e Vazio e Double Stoner) já conhecia de longa data João Bola e suas músicas, incluindo a primeira versão de “A Curva do Canguava”, e o convidou para cantar esse repertório ao vivo.

Nascia ali um núcleo inicial: João Bola na guitarra e voz, Manoel na bateria e Josué no baixo, que se apresentou pela primeira vez por volta de 2024, ainda sem a certeza de que aquilo seria mais do que um show de garagem.

A formação atual e o peso das composições

Com o tempo, mudanças naturais de rota fizeram Manoel indicar outro baterista para o projeto, abrindo espaço para a entrada de Diego Rosa na bateria e, posteriormente, de Elisa no baixo, consolidando a formação atual. Hoje a Snuff A.R se apresenta com João Bola (guitarra base e vocal), Josué (guitarra solo e segunda voz), Elisa (baixo) e Diego Rosa (bateria), uma configuração que já soma cerca de um ano e meio de estrada, shows e gravações.

Foi nesse período que a necessidade de registrar o repertório se tornou incontornável: João Bola vinha compondo sem parar, “uma música diferente por dia”, e o risco de perder essas ideias no fluxo da rotina levou o trio inicial (João, Josué e Diego) a decidir pela gravação do EP.
 
Elisa chega depois desse processo de estúdio, assumindo o baixo nas apresentações e apontando para um ciclo novo da banda, que já pensa em um segundo EP com material inédito em andamento.

O EP Psicótico e a estética do Brock oitentista somada a crueza punk

Psicótico é o resultado direto dessa avalanche de composições, organizado em oito faixas que trazem uma pegada declarada da década de 1980: guitarras que oscilam entre o rock clássico e o punk/HC, linhas de baixo firmes e uma bateria que empurra as músicas para frente sem medo de soar crua.

Quem ouve costuma identificar esse sabor oitentista, uma mistura de urgência e melodias que flertam com a nostalgia sem perder o pé na realidade atual da cena independente.

Ao colocar o EP no Spotify e demais plataformas, a banda não está apenas ocupando espaços digitais: está testando até onde suas mensagens conseguem viajar, conectando ouvintes de circuitos diferentes a uma mesma linguagem, a do rock feito com orçamento apertado, mas convicção larga.

O lançamento reforça a disposição da Snuff A Resistência em “pegar estrada”, expandindo o circuito que já inclui rádios alternativas, selos independentes e pequenos festivais do Sul de Minas e região.

A produção de Marcelo Reis

Para transformar essa vontade de registro em som palpável, a Snuff A.R se aliou ao produtor e músico Marcelo Reis, que assina tanto a gravação quanto a lapidação dos arranjos na “O Quarto produtora”. Que também foi responsável pela mixagem do ultimo EP do Espaço é um lugar frio e vazio chamado “Por enquanto é isso”.

Marcelo gravou arranjos de duas faixas : “Fuca” e “Rua de Baixo” e, junto ao Josué, desenvolveu a arquitetura sonora das demais músicas, mantendo a estética da banda e reforçando a identidade que o grupo vinha construindo nos palcos.

O processo partiu das bases trazidas por João Bola: riffs, estruturas e letras já consolidadas, mas ainda em estado bruto. A partir dessas fundações, Marcelo foi criando arranjos em parceria com a banda, usando suas próprias influências em punk rock e hardcore para dar peso, dinâmica e coesão ao repertório, sem descaracterizar o universo particular da Snuff A.R .

Na emblemática “A Curva do Canguava”, faixa que acompanha João Bola há anos, os solos foram gravados pelo irmão de Marcelo, Felipe Reis, aprofundando o caráter de colaboração familiar e comunitária que já marca a trajetória da banda.

O resultado é um EP que soa fiel à “estética dos caras”, como o próprio produtor define: direto, orgânico e com cara de subterrâneo mineiro, sem abrir mão de detalhes de arranjo que tornam a experiência de escuta mais rica.

Entre o palco, garagem e os streamings da vida

Antes de chegar aos streamings, a Snuff A.R já circulava em espaços como Rádio Vaca Brava Rock e eventos do Coletivo Garage, dividindo noite com outros nomes do eixo independente e reforçando a sensação de que seu lugar natural é o palco, não apenas a playlist.

Chamadas para festivais como Garage Fest em Bom Repouso (MG) e noites organizadas por selos como Outono Discos mantêm a banda em rota constante, abrindo shows e compondo line-ups em que as bandas independentes seguem como linguagem principal.

Quando esse movimento de estrada encontra o registro em EP, o resultado tende a ser menos polido e mais fiel: Psicótico é um recorte daquilo que acontece quando a Snuff A.R ocupa o palco, traduzido em gravação para quem ainda não trombou com o grupo ao vivo.

Ouvir o disco é, ao mesmo tempo, entrar num recorte da cena independente mineira atual e apostar que, por trás de cada riff e cada refrão, há um circuito de bares, garagens e rádios comunitárias que mantém as bandas independentes em circulação, longe do zum zum dos algoritmos, mas perto de quem ainda precisa da música como forma de insistir em existir.

Ouça aqui: https://open.spotify.com/intl-pt/album/48KTmv9ay942jZKpytNVb5?si=FbHqWUFoTsOuks_oI53Qkw

 

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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