A teus pés e a poesia marginal de Ana Cristina Cesar

Ana Cristina Cesar (Niterói, 2 de junho de 1952 — Rio de Janeiro, 29 de outubro de 1983)  foi uma poetisa, tradutora, professora e fez mais uma porrada de coisas.

Destacou-se pela escrita visceral de poemas e prosas, lançou seus primeiros livros de forma independente, inclusive, A teus teus pés, que foi relançado pela Cia da s Letras.

Apesar de sua educação e criação vir de um berço de classe média, fez intercâmbio na Inglaterra, envolveu-se com o movimento de poetas malditos, movimento este conhecido por sua literatura marginal, onde fazia-se uso de mimeógrafos para disseminar o material escrito.Viveu intensamente do caldeirão cultural de sua época, produzindo e trabalhando.

 
Acervo Ana Cristina Cesar/Instituto Moreira Salles
Acervo Ana Cristina Cesar/Instituto Moreira Salles

 

A teus pés, possui um tom provocativo, com estrutura poética contemporânea, fugindo da conhecida estrutura parnasiana, mas com sofisticação ímpar.Ana Cristina Cesar chegou a trabalhar para a Globo de analista de texto do departamento de análise e pesquisa em 1981.

Infelizmente em 29 de outubro de 1983 Ana Cristina Cesar suicida-se em decorrência da depressão, mesmo tendo acompanhamento de um especialista.Deixou um legado com sua poesia, inigualável!!!Abaixo alguns de seus poemas.Tenham uma boa leitura!!!

Poemas de “A teus pés”  de Ana Cristina Cesar

Arpejos
1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho examinei
o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus olhos
leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem significado
a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa e murcha)
ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente meus
projetos de ir de bi
cicleta à ponta do Arpoador. O selim poderia
reavivar a irritação. Em vez decidi me dedicar à leitura.
2
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra
o beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do
susto. Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da
noite. Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua
boca de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos
de acordo, dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.
3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário.
Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha pró-
pria imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela
signos de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. Saio
depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia
os tendões duros. Os navios me iluminam. Pedalo de maneira
insensata.

Nada disfarça o apuro do amor.
Um carro em ré. Memória da água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

A ponto de
partir, já sei
que nossos olhos
sorriam para sempre
na distância.
Parece pouco?
Chão de sal grosso e ouro que se racha.
A ponto de partir, já sei que
nossos olhos sorriem na distância.
Lentes escuríssimas sob os pilotis.

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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