Unabomber traduz a montanha russa do Brasil nos últimos anos com o single “Carrossel”

O peso dos riffs da Unabomber ressoam em meio à letra furiosa de “Carrossel”. Embora o título possa parecer otimista, a canção faz uma provocante reflexão sobre o ciclo de mortes, descaso e desilusão do Brasil nos últimos anos, em especial em meio a uma pandemia. Nome de destaque do underground do Rio de Janeiro desde a década de 90, o grupo se volta mais uma vez para seu potencial político e social com uma música para os tempos atuais.

Assista a “Carrossel”: https://youtu.be/y8_tO2u7HP4
Ouça “Carrossel”: https://tratore.ffm.to/carrossel

“Carrossel” é uma sequência perfeita de “O Carro de Jagrená”, o single mais recente e uma canção-metáfora para um rolo compressor de destruição que se tornou sinônimo de Brasília. Agora, Unabomber toma como ponto de partida a vontade de criar uma música solar, porém se vendo impossibilitada diante do cenário corrente.

Assista ao lyric video “O Carro de Jagrená”: https://youtu.be/XcmKuxxSrS4

“A ideia inicial de ‘Carrossel’ era de um tema mais leve, num ambiente solar, e que nos remetesse a um tempo de paz. Mas vivíamos em um dos momentos mais dramáticos da Covid19. A letra, então, foi redirecionada em meio ao sofrimento de brasileiros que sufocavam sem oxigênio, enquanto um genocida fazia piada e encenava peça macabra. Além da destruição da cultura, da ciência e de nossos biomas. Foi nesse clima de desesperança que “Carrossel” se fez, mas com a certeza de que esse pesadelo vai acabar”, resume a banda.

Expoente do rock fluminense das últimas décadas, Unabomber faz canções que convidam à reflexão. As críticas sociais fazem parte do DNA do grupo, como é notório em faixas como “Silêncio” e “A Celebração da Peleja entre o Molotov e a Máquina”. 

Originária da Baixada Fluminense e formada por André Luz (voz), Alan Vieira (baixo), Sandro Luz (guitarra) e Paulo Stocco (bateria), Unabomber estreou em 1996 com uma demotape homônima. Já a segunda fita, intitulada “R” e lançada no ano seguinte, contou com a produção do então iniciante Rafael Ramos (DeckDisc, Dead Fish, Pitty, Titãs). Após mais três anos de muitos shows, o grupo encerrou as atividades.

Quase 18 anos depois, eles retornaram à cena com o EP “Massas & Manobras S/A” (2017), onde fazem uma releitura de faixas das duas demos dos anos 90. Na sequência, em meio ao xadrez sociopolítico contemporâneo, compõem e lançam o single inédito “Silêncio”. Já em 2018, apresentam “Pesadelo”, de Paulo César Pinheiro e Maurício Tapajós, gravada originalmente pelo MPB4, em 1972. No ano seguinte, incorporaram à sua discografia o EP “O Mal da Máquina Morre”.

Em parceria com a rapper paulistana Flor MC, lançam o single “João 8:32”. Mais recentemente, a banda abordou a questão indígena com uma versão da clássica “Canoa Canoa”, do Clube da Esquina. Além disso, Unabomber trouxe um olhar sobre as contradições humanas no single “Maciota”. Por fim, dialogou com a questão do turismo espacial em “Spaceshit”.

Com “O Carro de Jagrená”, Unabomber revelou mais um single dessa já extensa discografia, se voltando para problemas terrenos. E, com “Carrossel”, inaugura os lançamentos de 2022 com versos afiados sobre o presente – e de olho no futuro.

Ficha técnica
Letra – André Luz
Produção musical – Celo Oliveira (Kolera Home Studio)
Capa:Pós-produção Alan Vieira
Direção e Edição – Jay Roxx – Nove Frames
Atores: Erica Van, Felipe Borba, Isabella Eduarda e Samuel Rodrigues

Letra

Faz um dia lindo de sol
Vamos passear, pelo parque
Não há diversão, só fumaça no ar
Queimam vida

Quem fez girar, nesse carrossel
Tanta maldade
Tem que parar, quem vai parar
Essa roda gigante de dor, ódio e mentiras
Tá pior e vai piorar
O trem fantasma acabou de chegar
E o maquinista é um capitão
Especialista em destruição
Quem fez girar nesse carrossel
Mais um domingo no parque,
feito pra viver sonho e magia
Pura ilusão, só desgraça no altar
Sufocam vidas
essa roda gigante de dor, ódio e mentiras
Pague para entrar
Reze para sair
Dessa montanha russa infinita
Essa montanha russa infinita, infinita, infinita….

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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