A jornada de Felícia, o perturbador romance de William Trevor

A resenha dessa semana vem direto da Irlanda. William Trevor, autor contemporâneo que deixou um legado literário interessante. Apesar de ser pouco conhecido fora das fronteiras literárias europeias, onde viveu toda sua vida, Trevor escreveu pelo menos dois grandes livros que tiveram traduções em português. A Jornada de Felícia e A história de Lucy Gault (Livro para uma próxima resenha).

A Jornada de Felícia é um romance profundo e perturbador sobre o abandono e a esperança de dias melhores em um universo de solidão e morbidez. Trevor narra a saga de uma jovem grávida de 17 anos em busca do pai do filho que carrega. A trama se desenrola numa narrativa em que o lirismo e a fluidez caminham juntos.

A infelicidade de Felícia é notável desde o início do livro, pois podemos perceber que a mente da personagem está em constante conflito. Ela quer encontrar algo que parece nem saber o que é e quer ser algo que nunca poderá ser. Vagando pelas ruas da Inglaterra, deixando para trás a avó, uma velha com problemas de saúde e que passa a maior parte dos dias sobre uma cama, e um pai que insiste em seu fanatismo e preceitos católicos, o bebê que carrega parece ser o mais trágico fortuito que poderia se abater sobre ela.

Embora tenha esperança de encontrar o pai de seu filho, Johny, Felícia acaba cruzando o caminho do bondoso e misterioso Sr. Hilditch, um homem solitário e que parece nutrir um profundo desejo de proteção. Os personagens vão surgindo ao longo do livro e tem a estranha mania de tirar o pouco de esperança que ainda resta a Felícia de achar o namorado desaparecido. Tudo porém, um dia muda, quando o generoso Sr. Hilditch a convida para tomar um café numa lanchonete. Depois desse encontro, nem Felícia nem o leitor serão os mesmos.

William Trevor escreveu um romance primoroso e perturbador. Uma história que abre inúmeros questionamentos. Não só sobre a relação de amor entre jovens, filhos ou religião. Mas sim sobre a vastidão que habita as profundezas da mente humana e que pode levar-nos ao caminho da loucura e da solidão.

Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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