Alice no País sem Maravilhas

A verdade é que está todo mundo querendo dar conta de tudo.
 
É um tal de querer parecer um super-homem que chega a dar nojo. Ninguém pode abraçar tudo, mas a inércia diária nos obriga a cair na roda gigante e nunca mais sair.
 
Antigamente uns trocos pra cerveja ou pro pastel na feira bastavam.
 
Agora? Bem, agora o pastel não faz mais frente pros carros, roupas caras e as fotinhos nos finais de semana.
 
O tempo vai correndo, com gente atrás dele até o pescoço. Tipo o coelho da Alice, que todo mundo acha fofo mas alma alguma consegue puxar pela orelha.
 
O tempo nos consome enquanto foge feito um trem sem maquinista.
 
Não somos nós que gastamos ou perdemos tempo. Nós nos perdemos nele e quando vemos já era. Aquele amigo não vem mais em casa por que casou ou morreu.
 
Nosso antigo professor está dando aula pro nosso filho e o vira-lata que resgatamos novinho, na rua de terra, está sendo enterrado no fundo do quintal debaixo do pé de manga. Isso quando se tem o pé de manga.
 
A verdade é essa. Todo mundo deseja ser super-homem ou mulher-maravilha.
 
Mas no fundo nos tornamos apenas mais uma Alice no País sem Maravilhas, correndo atrás do tempo e do dinheiro, tentando escapar do mar de contas, afundando nas lágrimas e deixando a banda tocar sozinha, no palco levemente iluminado, a valsa da morte.
Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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