Eder Takahama traz o apocalipse doméstico para o Toca do Bode Estúdio

O Toca do Bode Estúdio, sediado em Bom Jesus dos Perdões (SP), é um estúdio voltado para músicos que buscam qualidade e respeito pela própria arte, com Bodão Hubner assumindo gravação, produção, mix e master.  No formato “Toca do Bode desafia”, a proposta é tirar o artista do conforto do estúdio tradicional e gravar uma música autoral com poucos recursos, em ambientes improvisados, destacando a fragilidade e a força da performance humana em oposição à lógica de automatização.

O episódio de estreia com Du Cassemiro já mostrava esse método: uma canção registrada fora do estúdio clássico, com Bodão cuidando de som e imagem, em um projeto pensado para divulgar “arte humana que ainda respira e resiste num mundo controlado cada vez mais por robôs”, com os demais artistas, a premissa segue a mesma. Com Eder Takahama em “Sick People”, quarto episódio da série, essa estética de desafio se encontra com uma trajetória marcada por bandas, selos pequenos e discos feitos na raça.

Influenciado por Tom Waits, The Sonics, The Gories além de outros artistas/bandas.Antes de chegar ao Toca do Bode desafia, Eder Takahama passou por projetos como Sonora Scotch, cujo álbum El apocalipsis arruinó tu sueño de comprarte el auto cero kilómetro foi gravado em fita no finado Studio Caffeine do Luis Tissot (atual Lixo estranha gravações ), com caixa e disco serigrafados manualmente e primeira tiragem de apenas 100 cópias.  Essa opção por um caminho DIY, em que tudo é cortado e montado à mão, já aponta para um tipo de relação com a música que privilegia o gesto, o processo e a proximidade com quem escuta, em vez da escala industrial.

Outro capítulo importante é Traidores de nada (Dirtydéias) 2000, lançado pela própria Toca do Bode Estudio, reafirmando o vínculo de Eder com esse eixo de produção independente que mistura gravação em fita à moda antiga, bandas de garagem e registros que circulam muito mais por redes afetivas do que por grandes plataformas.

Quando Eder entra no quarto episódio da série com “Sick People”, traz consigo esse histórico de som que nasce entre amigos, selos pequenos e gravações feitas em gravadores de fita AKAI e Fostex e muito fuzz que foram transformadas em documento.

“Sick People”, já pelo título, acena para um universo de desgaste e adoecimento coletivo, ecoando uma sensação de colapso que dialoga com o imaginário de “apocalipse” explorado em trabalhos anteriores relacionados à estética do Sonora Scotch.
 
Na Toca do Bode desafia, essa canção ganha corpo em condições controladas ao mínimo: poucos equipamentos, cenário improvisado, captação direta, tudo pensado para que o foco recaia sobre o modo como Eder ocupa o espaço com guitarra, voz e presença garageira, algo que já faz parte do seu DNA musical.

O resultado é uma performance em que cada frase parece carregar a fadiga de “pessoas doentes” em vários sentidos: (físicos, emocionais, sociais) sem que a música se torne panfleto óbvio; há mais um registro de sensação do que um diagnóstico explícito.
Essa ambiguidade funciona bem dentro do projeto: se o Toca do Bode desafia quer mostrar que a arte humana ainda resiste, “Sick People” se torna uma espécie de contraplano, lembrando que resistir também significa admitir os próprios limites e exaustões.

Ao convocar Eder Takahama para o episódio #004, Bodão Hubner não está apenas chamando um músico para “fazer um som”; está acionando um arquivo vivo da cena alternativa que tem enorme peso não só nas bandas em que tocou, mas também como um dos guitarristas mais criativos e influentes da nossa região. É o guitar hero de inúmeros artistas e, inclusive, deste que vos escreve.

Há, portanto, um jogo de espelhos interessante: o estúdio que hoje desafia Eder em “Sick People” é o mesmo que abrigou uma parte da história de Dirtydéias, fechando um ciclo entre passado e presente do rock subterrâneo.

Essa continuidade dialoga com o tipo de jornalismo cultural que o Duofox vem praticando há mais de 12 anos, acompanhando bandas, discos e espaços como Abbey Roça, Toca do Bode e tantos outros pontos de encontro da música independente no interior paulista e em outras cenas.
 
Assim, a finalidade desta resenha não olha apenas para uma sessão de gravação: enxerga um fragmento de uma linha do tempo maior, em que cada riff, cada single/EP/álbum/ e cada desafio filmado ajudam a contar a história de uma resistência que se escreve, há décadas, com instrumentos e amplificadores modestos e convicções gigantes.

Assista aqui:

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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