Maleita – Lúcio Cardoso traz a cultura popular mineira junto ao rio São Francisco

Um livro extremamente delicado, assim é possível descrever Maleita – Lúcio Cardoso, onde há inúmeras histórias e subtramas envolvidas. Onde a religiosidade, cultos, ritos, regionalismo e a força da natureza são vórtice cultural que guiam o leitor por paisagens literárias regionais, descritas de forma direta e curta, sem muitas voltas.

No romance Maleita, Lúcio Cardoso baseia-se em informações de seu pai sobre a história de Pirapora-MG na última década do século XIX. O povoado desenvolveu-se então com a construção de um depósito de tecidos da empresa conhecida nos dias atuais como Companhia de Tecidos Cedro e Cachoeira. 

Mas o romance possui uma paisagem poética criada através da população nativa, dos imigrantes, de traços da cultura popular e do sistema de crenças, sem se perder de vista o poder local, a paisagem ribeirinha e a dinâmica criada pelos meios de transporte, que era feito através de embarcações e cavalos.

O narrador, encarregado por uma companhia comercial de trazer o desenvolvimento à região (na última década do século XIX) acaba se convencendo de que é preciso disciplinar  os negros na base do chicote, com extrema violência. 

Conta com auxiliares para sua “missão civilizadora”; pois ele acredita estar entre um povo “libertino” onde álcool e promiscuidade, correm solto no dia a dia.

No entanto, no meio da históra, surgem os inimigos como o jagunço Randulfo, que é sedento por vingança, inimigo do protagonista (além de praguejar), coloca-se a serviço do coronel Tibúrcio, sendo nomeado delegado no povoado, passando a intimidar o adversário.

Mas Pirapora estava longe de ser um paraíso: “Aquele brilho – oh! – aquele brilho era o mesmo do homem que tombara vencido de sezão. Eu o pressentia ali, escarninho, o demônio da maleita, na guerra surda contra a vida.”

A doença que devastava as pobres vidas de nativos chegara à casa do protagonista, à sua esposa: “(Elisa) Tremia toda, indefesa, vencida. Carreguei-a para a cama, sem saber o que fizesse, passando as mãos pela sua testa ardente, procurando um meio de afastar o suplício.” (Cardoso, s/d, p. 66)

Publicado em 1934, Maleita pertence a  esta  linhagem tão rica e significativa da literatura brasileira: o regionalismo, como Vidas Secas e Grande Sertão Veredas . Algumas das características presentes no romance: a paisagem, os nativos da região, os imigrantes, as relações de poder (o coronelismo), a cultura regional e o sistema mítico-mágico-religioso. Retrata também a história do povoado de Pirapora. Fica aí nossa dica de leitura e até logo!!!!

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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