Microliteratura e microcontos com Marcio Markendorf

1-Antes de qualquer coisa, Quem é Marcio Markendorf?

Eu sou professor, pesquisador e escritor. Formado em Letras, tenho doutorado em Teoria da Literatura e leciono no curso de Cinema e na Pós-graduação em Literatura da UFSC. Sou autor de “Soy loca, Lorca, feito um chien no chão” (Urutau, 2019) e, em parceria com Adriano Salvi, de “Microcontando” (Caiaponte edições, 2019).

2-Como surgiu o microliteratura? 
Eu já escrevia microcontos em outro projeto, o Microcontando, em parceria com Adriano Salvi, há pelo menos um ano. Esse projeto chegou a ganhar um edital público e foi financiado pela Fundação Cultural de Balneário Camboriú que rendeu a publicação impressa de uma coletânea de microcontos, distribuída gratuitamente. Mas comecei a sentir que deveria investir em um espaço diferente, a fim de difundir e popularizar o formato narrativo brevíssimo de forma mais acentuada, apresentar outros/as escritores/as e suas obras, assim como propor exercícios de escrita criativa em ficção brevíssima. E está sendo um desafio divertido e recompensador. O encontro com a microliteratura tem sido uma surpresa agradável para muitas pessoas.

3-Qual é importância de fomentar a microliteratura em tempos líquidos?
A microliteratura tem grande aderência com as redes sociais, sobretudo com o dinamismo da comunicação de hoje. Há certa agilidade demandada pelas redes que nos faz usar menos pontuação, ter preferência por frases simples, substituir texto verbal por emojis ou gifs, ser muito impulsivo (e menos reflexivo) no que se publica, e cobrar respostas rápidas de quem quer que seja. A liquidez dos tempos, a meu ver, reside nessa dinâmica. O Twitter, quando possuía a limitação de 140 caracteres, acabou por estimular um bom número de pessoas a criar ficções a partir dessa restrição, os twittcontos. Eu mesmo fiz experimentos poéticos na plataforma, indo contra aquele registro puramente prosaico que era feito da rede naquela época. Podemos pensar, ainda que, em certa medida, a microliteratura dialoga com a montagem texto e imagem dos memes, assim como com a profusão de aforismos e citações em legendas de fotos. E, em função do tamanho, é algo que cabe bem nesse intervalo de rolar o feed de notícias. Mas não é algo que passa despercebido, curiosamente é algo que desautomatiza a linguagem fotográfica comum de um Instagram, levando o internauta a um tempo de parada maior, convidando à reflexão: “Espere aí, o que é isso?”, diria ele.

4-Quais suas influências?
É uma pergunta difícil, já que há poucos autores dedicados à microficção, mas eu sou muito inspirado pela literatura de Verônica Stigger, Marcelino Freire e Caio Fernando Abreu.

5-Qual é o seu workflow diário de criação?
É algo bastante variável, mas eu tento tirar uma boa história das coisas ao redor o tempo todo. A microcoliteratura, na minha perspectiva, é um exercício constante de observação e exigem um timing bem ajustado para pegar aquele momento punctiforme preciso. Eu posso estar ouvindo uma live, lendo um livro, conversando com alguém e surgir alguma ideia.

Marcio Markendorf 2

6-Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para uma ilha deserta?
Com certeza não ficaria tão desacompanhado nesse cenário imaginário com tantas escolhas (rs). Quanto aos livros, esperaria ter: “A redoma de vidro”, de Sylvia Plath; “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres”, de Clarice Lispector; “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar; “A doença da morte”, de Marguerite Duras, “Morangos mofados”, do Caio Fernando Abreu. De filmes: “Hiroshima, mon amour”, do Alain Resnais; “Brilho eterna de uma mente sem lembranças”, do Michel Gondry; “Cidade dos sonhos”, do David Lynch; “Me chame pelo seu nome”, do Luca Guadagnino; “Thelma e Louise”, do Ridley Scott. Dos discos: “In flight”, de Linda Perry; “If you wait”, London Grammar; “Falso brilhante”, Elis Regina; “I put a spell on you”, Nina Simone; “Films for radio”, Over the Rhine.

 

7-Parafraseando o grande Bukowski em escrever para não enlouquecer, (o que vocês andam fazendo, ouvindo, lendo e assistindo) para não enlouquecer no atual momento em que passamos?Se possível, deve-se criar uma dinâmica que alterne momentos de conexão e desconexão: trabalhar, navegar pela internet, ler um livro, brincar com o cachorro, dedicar-se à escrita manual, experimentar filmes e séries sem preconceito. Acho fundamental não ser capturado pelo buraco negro da internet e do trabalho remoto, assim como fugir da letargia improdutiva.

8-Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para escritores iniciantes? De que forma podem produzir seus poemas, contos e crônicas?

Poderia incluir tantas coisas, mas vou destacar alguns pontos: 1) Saiba que a primeira versão é sempre um rascunho, pois o verdadeiro texto ainda precisa ser lapidado (escrever é revisar e editar também); 2) Forme um bom repertório como caixa de ferramentas para criação, consumindo dos clássicos ao mainstream, a criatividade exige balizas de referência.

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Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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