Novo trabalho solo de VITA (SP) estreia com o sensível clipe de “Incapaz”

No final das contas, o que te olha de volta diante do espelho? O que habita seu tempo suspenso? Existe uma contemplação incontornável sobre a beleza da nossa potência de vida – o que podemos fazer, o rumo bom das coisas simples. Está tudo aqui: as mãos que tudo podem, as ideias que dão fôlego aos dias, o corpo que persiste em existir em voz alta. Nos mergulhos dentro e fundo das nossas particulares imensidões, encontramos nosso reflexo na forma mais crua.  

Na performance de um gesto íntimo, Joca Vita (SP) divulga ao mundo no dia 23 de junho o clipe de “Incapaz”. A faixa mora no seu primeiro trabalho solo, o EP 1967. Numa toada etérea e desgarrada do tempo, “Incapaz” se aproxima para provocar uma invencível imersão sensorial. 

Joca tem sua trajetória na música sendo trilhada há anos, tendo sido baixista e fundador da banda paulista Motormama e atualmente seguindo na guitarra e voz com o duo de garagem Justu. Agora o músico entra em produção paralela com seu sobrevoo solo, dando o pontapé com a narrativa visual estreada em “Incapaz”, que imprime em sua textura nuances do folk, blues e indie.

Dirigido e produzido pelo próprio artista, com captação de Guga Loures, o filme da faixa tem seu tempo demarcado pela sensibilidade. Joca Vita é o grito escancarado vestido de calmaria que ressoa, e demonstra em sua estreia solo uma voraz entrega diante das questões que não descansam. É encarando as limitações e margens que não ultrapassamos que “Incapaz” traça seu percurso para nos alcançar em cheio, nota a nota. 

O mergulho numa viagem em preto e branco do filme carrega uma atemporalidade dos gestos, desnudando os traços de dúvida e inquietação que temos em comum enquanto humanidade. O que nos torna solitários acaba por ser, de uma forma ou outra, o que mais nos une no cerne da busca por sentido – qualquer coisa que sustente os dias, os sonhos, que nos mantenha efervescentemente vivos. 

A divagação por rostos e ruas nas imagens esbarra como num encontro necessário e complementar com trechos como “um dia de chuva fina/ somente meu”. É andando através de pés alheios que nossa incapacidade diante de certas coisas e momentos se fortalece e, por fim, destoa, criando um acolhimento sonoro para sermos gente: carne, osso, tentativa e erro. Somos frutos das chances, dos saltos e do que somos capazes para além dos limites que nos cercam. 

“Alma envelhecida/ se isso é possível/ um portão que se abre para a rua”: som e lirismo se juntam para compor uma poesia visual. Aqui, o músico explora o sentimento-lugar pelo qual todos passamos – a impotência diante de tanta potência, a pequenice desventura da memória ao desbravar a estrutura de tantas grandezas. “A música tem um pouco do meu mergulho durante essa pandemia, mas também é uma proposta para quem ouve de se enxergar, de ver como o corpo vibra”, comenta o artista sobre o trabalho. “É sobre se sentir vivo e, ao mesmo tempo, limitado – e como muitas das vezes não conseguimos romper com isso”.

“Incapaz” é a porta de entrada para o EP 1967, título criado a partir do marco de origem do próprio artista – nascido nos anos 60, renascido tantas vezes depois. O lançamento do clipe, que simbolicamente sai para as ruas no dia do seu aniversário, pontua um instante ritualístico de passagem. Aqui pausa-se o tempo: deixa que mature as pontas soltas do que se é e sente nas cenas de “Incapaz”. 

Incapaz (Clipe Oficial): https://bit.ly/3iSXV92

 

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Tolstói, Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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