“São Bernardo” de Graciliano Ramos – Ciúmes doentio e a perda da humanidade

Publicado em 1934, “São Bernardo” é considerado como um dos maiores representantes da segunda fase do Modernismo brasileiro. Nesta década (1930/40) grande parte dos artistas miravam nas temáticas sociais. Especialmente no Brasil, o regionalismo veio à tona, trazendo problemas encontrados no nordeste; seca, miséria, ignorância e migração. 

Apesar da história de “São Bernardo” ser pautada nos problemas do sertão, Graciliano Ramos foi muito além disso, criando uma obra com uma carga psicológica extremamente pesada. Para alcançar sua ascensão social, Paulo Honório abre mão de sua humanidade. Endurecido pelas dificuldades do meio onde vive, ele se torna um homem rude, bruto e violento. 

Narrado em primeira pessoa, este romance mostra de forma clara, como o meio em que a pessoa cresce pode ser transformador. Nascido da miséria e crescido nela, Paulo Honório fez de tudo para conseguir “vencer na vida”. Seja batendo, intimidando, roubando e até matando para conseguir prestígio social a qualquer preço.

Após tornar-se um fazendeiro de sucesso de “São Bernardo”. Ele precisava de um herdeiro, encontra Madalena, uma moça muito bonita, mas que já encontrava-se em idade avançada para um casamento (segundo os padrões da época). Fazem um trato, Paulo queria um herdeiro e Madalena recebe um lar.

A visão de mundo entre ambos, é formada por óticas opostas. Madalena possuía  uma visão humanista e repleta de altruísmo sobre o mundo e Paulo Honório é um ser maniqueísta/capitalista, para ele, as pessoas possuíam apenas características utilitaristas. E assim desenrola um gigante embate entre o progresso a qualquer preço e a humanidade carcomida pela ferrugem desta ascensão social, que despedaça tudo pela frente. 

Um romance com qualidade ímpar, na minha opinião até mesmo superior ao Vidas Secas. Fica a dica de leitura!!!

 

 

 

 

 

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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