Dead Fish, Sorry for All, Blank War e Deskraus no Festival de Inverno 2016

dead fish

Neste último sábado 23/07, a tarde estava bem ensolarada e quem deu o primeiro chute, foi o Deskraus, banda de hardcore de Bragança Paulista, com letras politizadas e que mostrou com quantos riffs se faz hardcore pesado com vocal feminino.

Na sequência, Blank War, Thrash Metal também de Bragança Paulista, fez uma apresentação incrível. Com direito a Fucking Hostile do Pantera. Extremamente técnicos e dispensa comentários. Grande apresentação.
blank war

De Socorro, o grande representante do punk rock 77 regional, Sorry for All. Apresentação foi insana, com direito a cover do Churumi, Vida de peão.

sorry for all

Para fechar a noite, o Dead Fish que veio em sua turnê comemorativa de 25 anos de banda, incendiar a noite com inúmeros clássicos, Zero e um, Sonho Médio, contra todos entre outras canções. Agradecimentos a secretária de cultura de Bragança Paulista e a todos envolvidos.E o festival de inverno ainda não acabou, tem inúmeras atrações. Confiram!!!

dead fish

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A literatura polifônica e intrigante de Paul Auster

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Paul Auster ganhou notoriedade e destaque na cena literária americana por suas resenhas críticas, roteiros cinematográficos, ensaios, mas acima de tudo, por seus romances. Comentar aqui sobre a fecunda obra de Auster levaria tempo e deixarei para outra oportunidade. Nesse artigo quero destacar, a Trilogia de Nova York, publicada originalmente em 1985 e cuja fama elevou o autor a um nível excepcional.

Para muitos de seus leitores e críticos literários, os livros de Auster possuem muitos desdobramentos, são romances polifônicos, onde narradores, personagens e o próprio autor se fundem num emaranhado narrativo de forma tão precisa que chegam a causar estranhamento em quem lê pela primeira vez.

Na Trilogia de Nova York, dividida em três curtos romances, ou “novelas” para nós brasileiros, Paul traz para aos leitores dois gêneros bastante injustiçados no mundo literário. O gênero policial e de mistério.

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Na história que abre o livro, Cidade de Vidro, Auster nos apresenta Daniel Quinn, um escritor de romances de mistério, sem mulher nem filho e que vive solitário em seu apartamento em Nova York. Algo aparentemente banal e clichê. Ledo engano.

É comum nos três livros da trilogia, não sabermos tanto quanto gostaríamos dos personagens principais. Isso mostra algumas das principais características da obra auteriana. O indivíduo fechado dentro de si, numa espécie de bolha, amortecido por conflitos internos que nunca serão resolvidos. Cabe destacar aqui a maior marca dentro do universo ficcional de Paul Auster. A figura do escritor tentando a todo custo sobreviver em uma sociedade que não só o oprime, mas também o torno um ser quase que insignificante, para não dizer inexistente.

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Uma passagem que ajuda a entender isso é em Cidade de Vidro, quando o personagem encontra uma moça numa estação de trem, lendo um de seus livros. Daniel Quinn usa o pseudônimo de William Wilson, em todos os livros que publica, o que reforça uma questão interessante, a de que o escritor é um ser que não é enxergado ou tem o senso autocrítico tão elevado que tem vergonha das histórias que escreve.

É a partir desse mote, que Auster desenrola a trama. Numa noite, enquanto lê um livro em sua cama, Quinn escuta o telefone tocar insistentemente. Logo que atende, a voz do outro lado pergunta por ninguém menos do que Paul Auster, que na narrativa é tido como um detetive particular.

O fato de se colocar na história como personagem, usar um escritor que nem sequer usa o próprio nome para seus livros, torna verdadeiramente esse livro polifônico. São diversas “vozes-narradores” que ajudam a contar uma mesma história.

O que se segue a partir da ligação no meio da noite, é muito curioso. Quinn resolve sair da rotina e assume o papel do tal detetive que nem sabe quem é, cai de cabeça num caso bastante intricado, onde encontrará um estranho pesquisador, Peter Stillman, que, obcecado pelas teorias da linguagem e a passagem bíblica da Torre de Babel, simplesmente trancafia o filho num quarto durante anos. Preso por longo tempo, e prestes a ser solto, promete voltar para conferir o resultado de seu bizarro experimento. A missão de Quinn é seguir todos os passos desse maníaco para que não encontre seu filho, vítima de tão cruel experiência.

Parece complicado entender para onde essa narrativa levará o leitor, e como Paul consegue amarrar a trama e dar o desfecho característico do gênero policial, em que o detetive vence o vilão e resolve o mistério. Verdadeiramente é um desafio narrativo delicioso, mas de forma sintetizada, ler as sinopses dos romances de Paul Auster e imaginar como ele unirá todos os elementos e terminará uma história, nos parece impossível.

Analisando mais a fundo essa Trilogia, que ainda conta com Fantasmas e O quarto fechado, podemos encontrar paralelismos e combinações interessantíssimas e intrigantes.

Num trecho central da terceira história, O quarto fechado (The locked room), o narrador esbarra em Paris com um certo Peter Stillman, o mesmo nome de um dos personagens de Cidade de vidro, e no reencontro com um amigo perdido, este lhe revela que adotou o nome de Henry Dark, homônimo de um tipo inventado por Peter Stillman na primeira história.  Esse mesmo amigo, Fanshawe, tem um caderno vermelho que entrega para o narrador, e em Cidade de vidro também existe um caderno vermelho. Nas três narrativas os personagens principais usam cadernos para anotações.

Outros pontos curiosos nesse entrelaçamento de narrativas é que Quinn, protagonista de Cidade de vidro, escreve com o pseudônimo de William Wilson, um brilhante conto de Edgar Allan Poe. Isso comprova que a obra de Auster é um campo intertextual.

Daniel Quinn, como já destacado, conhece um personagem chamado Paul Auster, cuja vida é reproduzida de forma exata. É escritor, tem esposa e um filho, a vida que Quinn perdeu, pois acabamos descobrindo logo nas páginas iniciais que sua mulher e o filho morreram.

Para fechar, mais um aspecto importante da obra de Paul Auster. Embora tenha passado 4 anos vivendo em Paris, Auster é um americano nato, enraizado no Brooklyn, bairro que escolheu para morar e para ambientar boa parte de suas narrativas. Nova York é o grande pano de fundo dessa trilogia. O modo como descreve a grande metrópole nos transporta para a história é fantástico. Sentimos o cheiro das ruas, das latas de lixo, escutamos os ruídos do metrô e os passos das pessoas entrando nos bares. Conhecer Nova York através dos olhos de Paul Auster é uma experiência vibrante.

Leia A Trilogia de Nova York e descubra quantas vozes cabem dentro de um único livro e como as pessoas muitas vezes acabam se perdendo dentro de si mesmas.

Para aqueles que se arriscarem a ler Paul Auster, apenas um conselho. Cuidado para não esbarrarem em si mesmos dentro de uma das histórias e confundir realidade com ficção.

8º Moagem Rock – Fisgados pelo hardcore

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Neste último sábado 16/07, numa tarde gelada, depois de uma garoa rápida. Iniciava mais uma edição do Moagem Rock, só que desta vez em Piracaia. A oitava edição do Moagem Rock, foi repleta de diversão e aquele velho papo de amigos que rola nas gigs.

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A primeira banda foi o Public Death, tocando covers do Mamonas Assassinas, Raimundos, Planet Hemp etc. Irreverentes, começaram o festival com muito humor e descontração.

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Na sequência, a trupe de socorro, mas conhecida por Sorry for All. Segue tocando aquele punk rock 77 de qualidade. Somos suspeitos a dizer, que é o maior expoente do gênero na região. Destaque para cover de Vida de Peão, do duo perdoense, Churumi.

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Para chutar pau da barraca, o Albatroz com Powerviolence, que mais parece com um trem desgovernado, fez uma apresentação em 12 minutos. Muita energia e uma good vibe dos garotos perdoenses.

Após o Albatroz fazer o estrago, veio o Hardcore melódico bonito, do homem palito. HC das águas radioativas, não sabemos ao certo se as estas aguas radioativas foram contaminadas pelo Churumi, mas que esta banda de Aguas de Lindóia faz um bom HC melódico, não resta dúvida.

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Na sequência o bom e velho duo perdoense, Churumi mandou tantas pedradas, que foi impossível não se contagiar. Pesado como sempre, não teve misericórdia nem para guitarra. Destaque para os covers de Ace of Spades (Motörhead) e Vampira (Zumbis do Espaço).

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Logo em seguida o duo Los Diegos (brincadeira!!), o Crasso Sinestésico, que lançava o disco ponto de ruptura virtualmente, mais uma vez, veio para explicar que é possível tocar com muito pouco e que não requer de muitos músicos e parafernálias para se fazer boa música.

Para fechar a noite fria, no entanto uma noite com good vibe, O time da casa, Peixes Fritos, com aquela apresentação fina e covers que dispensa comentários, de Nirvana a Dead Fish.
Graças ao Yago e sua família, podemos tocar neste festival, que agora tornou-se um coletivo maior, o faça você mesmo ainda é o melhor caminho para as nossas vidas. Agradecimentos a todos, pelo caldo verde, pela companhia, pela amizade e pela diversão. Até o próximo.

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Caldo Verde incrível, salvou a noite!!!

Chosen, uma série eletrizante e repleta de suspense

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Sabe aquelas noites em que você se empanturra de comer besteira, passa por todos os canais na TV, tenta ler (para quem gosta de ler) conversa com o cachorro, não aguenta mais o povo postando merda no facebook e finalmente se vê largado na cama às duas da manhã e tem certeza de que o sono não virá tão cedo?

Sei que pensou sobre tudo isso e que 90% é verdade. Quase tudo o que descrevi acima contribuiu para que eu desse de cara com uma série (saibam que não sou muito fã de séries, pois umas enrolam demais) bastante interessante.

Chosen é uma série produzida e dirigida pelo americano Ben Ketai, de 30 Days of Night: Dark Days, não me arrisco a dizer que Ketai é conhecido, pois não achei muita coisa sobre o cara, enfim. Ok. Vamos ao que interessa.

A 1ª das 4 temporadas é transmitida originalmente desde 2013, pelo site Crackle. Muito parecido com o Netflix, o Crackle é um serviço de streaming de filmes e séries, que tem um catálogo de vídeos com um excelente diferencial. É totalmente gratuito.

A temporada de abertura conta a história de Ian Mitchell (Milo Ventimiglia), sim, ele é o Peter Petrelli da série Heroes, e que aqui encarna o papel um advogado criminalista, na minha visão um tanto antipático, e que “disputa” a atenção de sua filha após o término do conturbado casamento com sua ex-mulher, Laura Mitchell (Nicky Whelan), essa loira da foto que dispensa comentários.

Certa manhã, pronto para ir ao trabalho, Mitchell vê sua vida sofrer uma drástica mudança. Na porta de sua casa ele encontra uma misteriosa caixa. Dentro dela, uma arma carregada, uma foto de um estranho chamado Daniel Easton e instruções para matá-lo em três dias. Isso mesmo. Matar um sujeito que ele nunca viu em 3 dias.

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O que chama atenção nessa série é a forma como as coisas vão acontecendo. É tudo muito rápido, não dá tempo de dormir, e Ian Mitchell vai se afundando cada vez numa bizarra teia conspiratória. Ele não pode confiar em ninguém, nem mesmo nos policiais que ele resolve contatar após abrir a caixa, que são altamente displicentes e não dão a mínima para sua história.

Sozinho e confuso, Ian resolve investigar por conta própria, e antes que perceba no que realmente está metido, já está dentro de um jogo e descobre que também é o alvo de alguém. Ele e mais outras pessoas agora fazem parte de um jogo macabro, onde a liberdade de todos é monitorada, embora alguns nem saibam disso. Telefonemas estranhos, objetos misteriosos, câmeras que aparecem em lugares improváveis e ameaças familiares são só alguns dos aperitivos dos primeiros episódios, que dificilmente não te deixará intrigado. A trama vai ganhando cada vez mais ação e suspense à medida que novos personagens aparecem, prenunciando as temporadas seguintes. Essa série ainda possui uma pitada de erotismo, o que não pode faltar em nenhuma história.

O resultado da série é muito satisfatório e apesar de não ser tão comentada e divulgada entre nós brasileiros, vale a pena ser vista, pois é relativamente curta, se comparada com outras do gênero, intrigante e repleta de emoção.

Ficará sempre a pergunta pairando em sua mente no final de cada um dos episódios. “Até aonde essas pessoas vão chegar para se manterem vivas? É clichê a frase, eu sei, mas essa é a que melhor se encaixa.

Agora, depois de ler esse texto, e se ficou curioso, tente assistir um episódio e ir dormir… Depois, deixe o comentário aqui contando pra gente se conseguiu…

Pontos positivos da série no Crackle.

  • Áudio. Inglês com legendas para quem não gosta de dublagens pífias.
  • Nota. 8,5 na escala de 0 a 10.
  • Fotografia. Até mesmo um leigo vai perceber que os produtores mandaram bem.
  • Atuações. Ótimas. Confira numa das cenas do 3º episódio, Milo Ventimiglia manda bem.
  • Trilha Sonora. Não deixa a desejar. 8 na escala de 0 a 10.
  • Duração. Aproximadamente 9 horas. O que faz de Chosen uma excelente opção para quem não tem paciência para séries com 550 episódios de 5 horas cada.

 Assista Chosen

No coração do Mar, a tragédia que inspirou Moby Dick

Imagine. Você está perambulando entre as prateleiras de um sebo qualquer, em busca de um livro que não encontra em canto algum, e acaba dando de cara com um que te chama atenção, seja pelo título sugestivo e intrigante, ou pelo nome ridículo que você não sabe de onde o autor o tirou. Conseguiu montar essa cena na sua cabeça?

Ótimo. Certamente você já deve ter passado por alguma situação semelhante.

Pois bem, No coração do Mar, de Nathaniel Philbrick, foi um desses achados. Ao procurar por um compilado de contos de Raymond Chandler (o maior escritor policial do mundo, na minha ridícula opinião) e alguma coisa do mestre Stephen King, acabei esbarrando nesse livro. Num primeiro momento, por conta do título e por não estar longe de “lindos” e grossos volumes de Danielle Stell, achei que seria mais um daqueles romances água com açúcar, de fazer qualquer cara menstruar e garotinhas terem um orgasmo.

Fui enganado até o fundo da alma. O subtítulo do livro foi certeiro, não erro em dizer que me atraiu mais do que uma loira solitária num bar à meia luz.

No coração do Mar – A história real que inspirou o Moby Dick de Melville.  Qualquer ser que conheça um pouco de literatura sabe que Moby Dick é um dos maiores romances da literatura (Em minha lista, cá entre nós, é o maior entre os americanos, me desculpe quem defende outra teoria). Rapidamente peguei o livro, folhei-o e li a sinopse. Parecia interessante, ainda mais para quem já tido lido a magnânima obra de Melville.

Comprei o livro por míseros R$ 15 reais. Ótimo investimento, se levarmos em consideração que novo me custaria R$ 68, grana que daria para abastecer o carro e ir ao cinema. Após um trilhão de tarefas cumpridas em casa, me joguei no sofá e li as primeiras dez páginas, numa espécie de reconhecimento militar. Sem trocadilhos baratos, o livro me fisgou. Li no mesmo dia umas 120 páginas. Ao final delas, estava extasiado pela força da história.

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O livro é um profundo e bem escrito documentário sobre a vida, crença, fé, esperança, amizade e acima de tudo, sobre os limites do ser humano.

Você deve estar torcendo o nariz e pensando. “Grande coisa, mais um livro baseado em fatos reais e com um fundo de auto-ajuda.” Não. No coração do mar ultrapassou todas as expectativas.

Para compor o livro, o autor trabalhou durante anos coletando relatos, cartas, lendo diários de bordo de diversos marinheiros e capitães, além de viver na região de Nantucket, uma comunidade que na época tinha quase 8 mil habitantes e que vivia basicamente da caça às baleias.

Em agosto de 1819, um navio baleeiro chamado Essex, partiu do porto de Nantucket, EUA. Tripulado com 21 homens, entre eles, negros, jovens americanos e o “inexperiente” capitão George Pollard Jr. O objetivo desses homens do mar era trazer, nos porões do velho navio, barris transbordando óleo de baleia. Entretanto, a viagem que a princípio seria uma aventurosa e lucrativa caça às baleias transforma-se num dos maiores pesadelos e desastres náuticos de que se tem conhecimento, perdendo apenas para o Titanic, em abril de 1912.

Após meses navegando, em uma das investidas em oceano aberto para matar baleias, o Essex, cansado de velejar, chega a sua última viagem. Segundo marujos da época, e o próprio autor do livro, nunca, até aquele dia ensolarado de 20 de Novembro de 1820, uma baleia havia atacado um navio. Mas esse dia chegou quando um cachalote macho, enfurecido e de proporções gigantescas, beirando 26 metros, investiu duas vezes contra o casco do navio, destruindo e levando-o ao fundo do Pacífico Norte em menos de quinze minutos.

O que se segue após o naufrágio, é uma desesperada luta para sobreviver em mar aberto, longe da terra firme e com mantimentos quase escassos. Entre os destroços do navio, os homens conseguem resgatar porções de bolachas, duas tartarugas suculentas e uma quantia razoável de água doce. A narrativa de Philbrick é magistral. Trata do assunto como um verdadeiro romance de aventuras. Mas é também uma aula sobre biologia marinha, náutica, companheirismo, e sobre até onde o ser humano é capaz de chegar para sobreviver. Até onde os 21 homens poderiam chegar em condições adversas? Estariam fadados à morte? O que homens em estado de quase loucura são capazes de fazer para conseguir alimento?

Fotografia de Francis J. Mortimer, 1911.

Conforme os dias passam, os tripulantes, divididos em três pequenos botes, vão definhando, levando à extinção os mantimentos que vinham racionando durante os mais de 50 dias em mar aberto.

Esse período é apresentado ao leitor através do perfil e visão de cada marujo, informações que Philbrick extraiu de anotações de um dos sobreviventes da tragédia do Essex, um jovem de 14 anos, Thomas Nickerson, o camareiro da tripulação. Outros personagens merecem destaque, como o capitão George Pollard, humilde demais para desempenhar sua função, e Owen Chase, seu imediato, homem forte e rude, mas dono de uma alma cheia de companheirismo e lealdade, duas figuras marcantes dentro da história e fundamentais para o fim do martírio da tripulação.

O desfecho do livro é surpreendente até mesmo para os leitores acostumados com histórias desse tipo. Uma narrativa épica e de coragem, ondas de tristeza e angústia percorrem todo o livro, mas em momento algum desistimos de acreditar que tudo acabará bem para os pobres homens de Nantucket.

No coração do Mar. Um livro perfeito. Leve, interessante e uma aventura magnífica. São raras as histórias reais narradas de forma tão brilhante. E esse livro é uma dessas raridades.

Primeiros contos, a genialidade precoce de Truman Capote.

Sutileza. Essa talvez seja a melhor palavra para definir Os primeiros contos de Truman Capote. Reunidos em um livro inédito, não só no Brasil, mas também em solo americano, os textos de Capote, um dos principais autores do século XX, trazem os leitores uma boa dose de sentimentalismo, decepção, amor e por que não, um pouco de suspense?

O livro, lançado no primeiro semestre desse ano no Brasil, pela Editora José Olympio, traz 14 escritos do então jovem Truman Capote, que sempre declarou abertamente “Comecei a escrever quando tinha oito anos. Assim do nada, sem qualquer exemplo a seguir. Não conhecia ninguém que escrevesse; na verdade, conhecia poucas pessoas que soubessem ler.”

Embora Capote seja hoje mundialmente conhecido por sua mais brilhante obra, A Sangue Frio, não podemos deixar de reconhecer que esses “contos rascunhados”, e que até 2013 estavam “esquecidos” nos arquivos da biblioteca pública de Nova York, trazem a marca precoce do genial escritor e jornalista que Capote foi.

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Os temas dos contos são diversos. O clima pacato de cidadezinhas do interior americano, onde as pessoas parecem conhecer a vida de todos, florestas onde garotos se divertem caçando bandidos fugitivos, senhoras solitárias e que desejam apenas morrer em paz, até a fuga desesperada de uma doente mental, que busca abrigo na casa de uma amiga para escapar de um linchamento coletivo.

As frases curtas e cheias de significado são uma marca da prosa de Capote. Pode-se dizer que seus textos são rasos e vazios, mas é exatamente daí que brota todo o significado de sua escrita. Nada do que o jovem Truman, com menos de 22 anos escreveu nos contos desse livro quer dizer realmente o que está escrito.

Ao terminar a leitura do conto Despedida, que abre o volume, nos deparamos com dois amigos, Jake e Tim, que provavelmente tiveram vários problemas no passado, mas que estão unidos por um propósito maior.

Um quer voltar para casa, o outro, aparenta insistir em uma vida errante, à esmo, de condado em condado, gozando a liberdade. O desfecho é tão banal e intrigante que nos desperta para ler novamente e tentar encontrar as respostas para os fatos que levaram os dois amigos, com almas e extintos tão opostos, a se unirem.

Outro texto merece destaque, como “O estranho íntimo”, onde temos um tema bastante comum na literatura, uma velha senhora, deitada, repensando sua vida, em meio a delírios, recebe a estranha visita de um jovem belo e bem vestido, para uma conversa um tanto incomum.

Muitos críticos costumam dizer que existe uma lista de escritores que já nascem com talento para escrever. Truman Capote entra facilmente na lista. Sua forma de observar e recriar ambientes, construir personagens e nos fazer pensar sobre as atitudes humanas é única. Isso se não o compararmos, como contista, com o talentoso Hemingway, que deixou em sua teoria do iceberg, um ponto e partida para entendermos a escrita Capotiana. Segundo essa teoria, é justamente no não dito que encontramos os significados e a base sobre a qual as histórias são construídas. Portanto, não se espante se ao terminar a leitura dos contos, sentir a necessidade de ler novamente, pois esta, parece ser exatamente a intenção desse gênio da literatura americana.