A literatura polifônica e intrigante de Paul Auster

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Paul Auster ganhou notoriedade e destaque na cena literária americana por suas resenhas críticas, roteiros cinematográficos, ensaios, mas acima de tudo, por seus romances. Comentar aqui sobre a fecunda obra de Auster levaria tempo e deixarei para outra oportunidade. Nesse artigo quero destacar, a Trilogia de Nova York, publicada originalmente em 1985 e cuja fama elevou o autor a um nível excepcional.

Para muitos de seus leitores e críticos literários, os livros de Auster possuem muitos desdobramentos, são romances polifônicos, onde narradores, personagens e o próprio autor se fundem num emaranhado narrativo de forma tão precisa que chegam a causar estranhamento em quem lê pela primeira vez.

Na Trilogia de Nova York, dividida em três curtos romances, ou “novelas” para nós brasileiros, Paul traz para aos leitores dois gêneros bastante injustiçados no mundo literário. O gênero policial e de mistério.

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Na história que abre o livro, Cidade de Vidro, Auster nos apresenta Daniel Quinn, um escritor de romances de mistério, sem mulher nem filho e que vive solitário em seu apartamento em Nova York. Algo aparentemente banal e clichê. Ledo engano.

É comum nos três livros da trilogia, não sabermos tanto quanto gostaríamos dos personagens principais. Isso mostra algumas das principais características da obra auteriana. O indivíduo fechado dentro de si, numa espécie de bolha, amortecido por conflitos internos que nunca serão resolvidos. Cabe destacar aqui a maior marca dentro do universo ficcional de Paul Auster. A figura do escritor tentando a todo custo sobreviver em uma sociedade que não só o oprime, mas também o torno um ser quase que insignificante, para não dizer inexistente.

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Uma passagem que ajuda a entender isso é em Cidade de Vidro, quando o personagem encontra uma moça numa estação de trem, lendo um de seus livros. Daniel Quinn usa o pseudônimo de William Wilson, em todos os livros que publica, o que reforça uma questão interessante, a de que o escritor é um ser que não é enxergado ou tem o senso autocrítico tão elevado que tem vergonha das histórias que escreve.

É a partir desse mote, que Auster desenrola a trama. Numa noite, enquanto lê um livro em sua cama, Quinn escuta o telefone tocar insistentemente. Logo que atende, a voz do outro lado pergunta por ninguém menos do que Paul Auster, que na narrativa é tido como um detetive particular.

O fato de se colocar na história como personagem, usar um escritor que nem sequer usa o próprio nome para seus livros, torna verdadeiramente esse livro polifônico. São diversas “vozes-narradores” que ajudam a contar uma mesma história.

O que se segue a partir da ligação no meio da noite, é muito curioso. Quinn resolve sair da rotina e assume o papel do tal detetive que nem sabe quem é, cai de cabeça num caso bastante intricado, onde encontrará um estranho pesquisador, Peter Stillman, que, obcecado pelas teorias da linguagem e a passagem bíblica da Torre de Babel, simplesmente trancafia o filho num quarto durante anos. Preso por longo tempo, e prestes a ser solto, promete voltar para conferir o resultado de seu bizarro experimento. A missão de Quinn é seguir todos os passos desse maníaco para que não encontre seu filho, vítima de tão cruel experiência.

Parece complicado entender para onde essa narrativa levará o leitor, e como Paul consegue amarrar a trama e dar o desfecho característico do gênero policial, em que o detetive vence o vilão e resolve o mistério. Verdadeiramente é um desafio narrativo delicioso, mas de forma sintetizada, ler as sinopses dos romances de Paul Auster e imaginar como ele unirá todos os elementos e terminará uma história, nos parece impossível.

Analisando mais a fundo essa Trilogia, que ainda conta com Fantasmas e O quarto fechado, podemos encontrar paralelismos e combinações interessantíssimas e intrigantes.

Num trecho central da terceira história, O quarto fechado (The locked room), o narrador esbarra em Paris com um certo Peter Stillman, o mesmo nome de um dos personagens de Cidade de vidro, e no reencontro com um amigo perdido, este lhe revela que adotou o nome de Henry Dark, homônimo de um tipo inventado por Peter Stillman na primeira história.  Esse mesmo amigo, Fanshawe, tem um caderno vermelho que entrega para o narrador, e em Cidade de vidro também existe um caderno vermelho. Nas três narrativas os personagens principais usam cadernos para anotações.

Outros pontos curiosos nesse entrelaçamento de narrativas é que Quinn, protagonista de Cidade de vidro, escreve com o pseudônimo de William Wilson, um brilhante conto de Edgar Allan Poe. Isso comprova que a obra de Auster é um campo intertextual.

Daniel Quinn, como já destacado, conhece um personagem chamado Paul Auster, cuja vida é reproduzida de forma exata. É escritor, tem esposa e um filho, a vida que Quinn perdeu, pois acabamos descobrindo logo nas páginas iniciais que sua mulher e o filho morreram.

Para fechar, mais um aspecto importante da obra de Paul Auster. Embora tenha passado 4 anos vivendo em Paris, Auster é um americano nato, enraizado no Brooklyn, bairro que escolheu para morar e para ambientar boa parte de suas narrativas. Nova York é o grande pano de fundo dessa trilogia. O modo como descreve a grande metrópole nos transporta para a história é fantástico. Sentimos o cheiro das ruas, das latas de lixo, escutamos os ruídos do metrô e os passos das pessoas entrando nos bares. Conhecer Nova York através dos olhos de Paul Auster é uma experiência vibrante.

Leia A Trilogia de Nova York e descubra quantas vozes cabem dentro de um único livro e como as pessoas muitas vezes acabam se perdendo dentro de si mesmas.

Para aqueles que se arriscarem a ler Paul Auster, apenas um conselho. Cuidado para não esbarrarem em si mesmos dentro de uma das histórias e confundir realidade com ficção.

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