Crônicas de um professor alucinado. Enem, prova do Capiroto

Qual a causa de tanto desespero? Pergunto a uma aluna acuada, num canto do pátio, com uma apostila aberta junto ao rosto miúdo e angelical. É o Enem, professor, essa prova do demônio. O Enem deixou de ser uma forma de seleção para os aptos à universidade faz tempo. Hoje é uma espécie de barca do inferno. Gil Vicente que o diga. Uma prova que julga e elimina os que não cabem na barca para fazer a travessia até a ilha da universidade.

A estrutura da prova é bem interessante, não se pode negar. Digna de um inferno de Dante. Dois dias, um bilhão de questões e a redação tão deliciosa, que decepa cabeças como uma brilhante e afiada guilhotina. Ah, sem contar as fórmulas de física e exercícios quilométricos de matemática onde X + Y elevado a 8ª potência resulta em 0.

Os alunos que querem algo nessa vida surtam e se descabelam. Muitos chegam desesperados querendo que eu use minha bola de cristal pra saber qual o tema da redação. Não sou o Gandalf, muito menos o Dumbledore, não tenho esse poder. Portanto, apenas levanto suspeitas dos temas para acalentar os pobres corações que esperam tanto dessa prova.

O que fazer para realizar uma boa prova, professor? Escuto dias, semanas antes do tão aguardado final de semana do juízo final. Minha resposta não passa disso. Leia muito e estude pra valer em casa. Uns dizem que já fazem isso. Sorrio e acredito. Afinal, tenho que apoiar meus pequenos discípulos, mesmo sabendo que nas aulas que destino a leitura silenciosa, o sujeito só lê Diário de um banana ou gibi da Mônica.

Depois não sabem por que não vão bem numa prova como o Enem. Vida de professor é uma droga às vezes.