Diretamente de Belo Horizonte – O Indie Rock da banda Godofredo

1-Antes de qualquer coisa, fale um pouco sobre o surgimento da Godofredo?

Em 2019, eu, que sou também do duo The Innernettes, resolvi apresentar um conjunto de canções de rock brasileiro autoral para o produtor e compositor dedeco (ex-Ereção de Elefante). Nascia ali uma parceria que rendeu mais algumas músicas novas, um proto-álbum e um projeto: a godofredo. Acompanhados por Matheus diRocha (também “figurinha carimbada” da cena de BH, baixista de vários projetos, como “Pequeno Céu”), saía ali um conjunto autoral de canções que foram sendo gravadas ao longo dos meses, em paralelo a um trabalho artístico produzido por mim, que tentava organizar essa experiência no contexto dos “Arquivos” – obras transversais que culminam na banda “godofredo” e em seu primeiro LP “Arquivos Vol. 3”. Mixado e Masterizado pelo parceiro de longa data Bruno Leo (diretamente da Finlândia), o disco tá aí na área. É um trabalho de canções de rock nervosas, autorais, contemporâneas. Autobiográfico e, ao mesmo tempo, universal. De brincadeira, começamos a dizer que a godofredo era a “melhor banda indie do brasil”…até que alguns fãs começaram a repetir isso.

2-Quais as influências da banda?

Essa é uma pergunta complexa! rsrssrs. A gente tem até uma página inteira no livro-encarte (disponível como bônus na versão do bandcamp) dedicada às principais influências. Uma das maiores desde o início foi Pavement…tinha algumas coisas que gente via ali que queria adaptar mesmo. Mas eu tenho algumas influências muito fortes: CAN, Stereolab, Soda Stereo, Pavement, Guided by Voices, Pixies … e toda onda do rock brasileiro, sobretudo Erasmo Carlos e seus discos “Sonhos e Memórias” e “Pelas Esquinas de Ipanema”, Lô Borges e Beto Guedes, por quem eu sou alucinado. Acho que dedeco e Matheus trouxeram coisas diferentes … My Bloody Valentine, Smashing Pumpkings…outras coisas brasileiras tbm…

3-A sonoridade da Godofredo transcende o Indie e o Lô Borges, embora sejam influências mais perceptíveis, falem um pouco sobre a sonoridade da banda?

Eu acho que a gente queria trazer isso tudo pra nossa realidade, e pra um som mais “moderno”, mesmo assumindo que esse rock brasileiro dos 70 era muito moderno…tem algo de texturas, que vem surgindo aí de outras referências (Animal Collective, My Bloody, Soda Stereo, Beach House) que acabou compondo essas “paredes”…acho que isso veio muito dos arranjos do dedeco…eu queria uma abordagem mais crua, com menos reverb nos vocais, mais indie rock “cru”…acabou ficando uma mistura dessas duas ondas que eu tô bem satisfeito, assim…

Fotos: Gabi Fausto
Fotos: Gabi Fausto

4-O disco Arquivos Vol.3 foi gravado de que forma? Nos fale um pouco sobre o processo de gravação deste registro?

Foi gravado em casa, majoritariamente…as guitarras, baixos, alguns backings. a gente foi pro estúdio nébula pra gravar os vocais (qué um estúdio muito bacana daqui, que já gravou djonga, fbc, etc…um enorme salve pro Fred Paco). O processo foi todo muito caseiro, aproveitando alguns dias inteiros, experimentando muito com as guitarras e os samplers de videogame que o dedeco trouxe…tem algumas coisas de erros e marcas da gravação que acabaram entrando no disco (eu latindo em mafalda, umas tossidas, mal contato de cabo, etc)

5-Como tem sido a receptividade do disco Arquivos Vol.3 ?

Até aqui tá indo bem. é complicado lançar disco no brasil né? às vezes a gente fica com a impressão de que tem mais banda do que público, mas isso é porque os streamings trouxeram a ilusão de que tudo tem espaço, quando na verdade só projetos com algum tipo de investimento conseguem furar essa enorme bolha virtual. a gente tá indo pelas beiradas, como bons mineiros, tentando criar uma fanbase real e orgânica na “unha” mesmo.

6-Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para uma ilha deserta?

Livros:
Karl Marx – O capital
Mikhail Bakunin- Estatismo e anarquia
Mark Fisher – Realismo Capitalista
Monique Wittig – As guerrilheiras
Silvia Federici – O Calibã e a Bruxa

Filmes:
Jean Luc Godard – Weekend
Vera Chytilová – As Pequenas Margaridas
Glauber Rocha – Terra em Transe
Lucrecia Martel – A Menina Santa
Harmony Korine – Gummo

Discos:
Stereolab – Dots and Loops
CAN – Tago Mago
Pavement – Crooked Rain Crooked Rain
Soda Stereo – Dynamo
The Kinks – The Kinks Are The Village Green Preservation Society

7-Parafraseando o grande Bukowski em escrever para não enlouquecer, (o que vocês andam fazendo, ouvindo, lendo e assistindo) para não enlouquecer no atual momento em que passamos?

Na verdade estou enlouquecendo. não importa o que eu veja, ouça ou leia. Precisamos de uma revolução. A única coisa que apazigua é fazer o bom e velho rock e calibrar as armas que temos à disposição (as da mente, da arte, da estética).

8-Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para bandas iniciantes? De que forma podem produzir seus discos e divulgá-los?

Produzir não precisa ser um bicho de sete cabeças. Acho que o fundamental é acreditar no som que você tá fazendo. acreditar na mensagem. Se rolar isso, a parada vai virar.

Onde encontrar Godofredo

Ouça aqui:

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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