Moby Dick – um romance sobre autoritarismo e hostilidades que tem muito a ensinar

O grande clássico do norte-americano Herman Melville está longe de ser esquecido. Um romance poderoso e que trata de temas amplos é ainda hoje, em 2021, motivo de admiração e respeito.

Ao grafar as milhares de linhas escritas de Moby Dick, Melville talvez jamais tenha pensado que deixaria um legado de ideias, reflexões e um mar abundante de questionamentos, e tal qual a embarcação de sua narrativa, o Pequod, a leitura nos deixa muitas vezes num oceano escuro, revolto e à deriva.

TEMAS COTIDIANOS DENTRO DA NARRATIVA

Os temas como amizade, ambição e comportamento humano permitem que exploremos a obra de Melville por um viés bastante interessante. A amizade, que é um dos grandes símbolos dos homens do mar, não parece contagiar o capitão implacável criado pelo escritor.

Acab, em seu pedestal de mestre dos mares e matador de cetáceos, não se deixa levar em momento algum pelo sentimentalismo e parceria de seus imediatos e empregados. Acab, sob esse aspecto, é um personagem frio e vingativo, apenas isso, ou tudo isso. 

Hermann Melville
Herman Melville escreveu uma das obras mais importantes da literatura romântica em seu tempo. Sua narrativa em Moby Dick mostra o lado humano da melhor e da pior forma. Impossível sair ileso diante de tamanha grandiosidade literária.

Uma passagem interessante que reforça essa ideia é que, segundo o ferreiro a bordo do navio baleeiro, Acab é como um ferro que nem o calor do sol consegue moldar. Já nas palavras de um outro capitão, o navio Rachel, o mestre Acab é pura inclemência e maldade.

Não há espaço para amizade dentro do capitão. Sua alma é pesada, cinzenta e vingativa.

A amizade entre marujos e tripulação é importante em qualquer universo, seja no real ou ficcional, e Melville valorizava demais a amizade entre os homens, essa é uma das maiores virtudes e lições que Moby Dick ensina ao leitor. Preservar as boas amizades é prêmio.

Agora, se olharmos para o romance sob o ponto de vista do comportamento social humano, as visões tendem a se expandir e a coisa muda de figura.

O SER HUMANO CONTINUA O MESMO

O ser humano, ao longo dos séculos, na maior parte do tempo viveu em bandos. Isso acabou obrigando, de uma maneira ou de outra, a socialização do indivíduo, ou seja, trocar experiências com o outro é um velho costume.

E é a partir desse ponto que Moby Dick se transforma num grande laboratório. Estar numa embarcação, sob um regime autoritário e hostil, durante meses ou anos, não é para qualquer um.

Os personagens da trama, uns com mais instruções outros com menos, são obrigados a respeitar o capitão que não lhes retribui da mesma forma.

Quantas vezes, em situações cotidianas, no ambiente de trabalho nos deparamos com opiniões e palavras com as quais não concordamos? Milhares. Ainda existe autoritarismo e hostilidade em todos os ambientes e contextos.

O problema que o livro levanta, relacionado ao comportamento humano é justamente esse. Até que ponto precisamos nos submeter a certas vontades para agradar os outros?

Isso, a longo prazo, pode custar a vida, como o caso da tripulação do Pequod no livro, quando não, pode custar a sanidade mental.

A IMPORTÂNCIA DE UMA OBRA MONUMENTAL

Moby Dick é uma obra que fala sobre relações. Relações de autoritarismo, ambição e amizade. Um livro que nos ensina a perceber como os homens, quando se sentem ameaçados ou contrariados agem.

E por fim, se levantarmos a seguinte questão, qual a relação de Moby Dick com a vida, e qual a importância desse livro nos dias atuais?

Bem, todos sabemos que existem homens e mulheres iguais ao capitão Acab, que perseguem baleias em forma de gente o tempo todo e que também são perseguidos. Então, só nos resta saber de que lado estaremos quando a próxima tempestade chegar para naufragar o nosso barco.

PARA SABER MAIS SOBRE MOBY DICK

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Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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