O que os contos de fadas escondem?

Numa reunião de contos de fadas a escritora Angela Carter não traz o que muitos leitores esperam de histórias infantis.

A palavra fadas engana e mostra uma outra realidade. Ao contrário, no lugar de seres viventes e mágicos, nos deparamos com animais que falam e mostram o quão perverso é o ser humano.

Por que contos de fadas se não tem fadas?

A expressão utilizada ao longo da história da civilização não passa de uma figura de linguagem. A literatura antiga, desde os gregos, com seus mitos e outras narrativas de guerra eram transmitidas de forma oral.

A autora, Angela Carter (1940-1992) Fonte de inspiração para muitas escritoras e feministas.

Não se existia a prática da grafia. Registros de inúmeras histórias não eram feitos. Assim, quem conhecia um conto anônimo passava a outra pessoa através da fala. A expressão bastante usada no português, quem conta um conto aumenta um ponto faz todo sentido aqui.

“Nada é uma questão de vida e morte, exceto a vida e a morte.”

Angela Carter aponta que os contos de fadas receberam esse nome devido à mágica fantasia que despertava em quem ouvia essas narrativas.

Pois os contos mexem com a nossa imaginação e nos conduz a mundos imaginários onde tudo é possível.

Os fundos morais e sociais dos contos de fadas vão além do que imaginamos

Um dado curioso e que faz toda a diferença na visão que temos dos contos de fadas é que eles originariamente não foram contados e destinados às crianças, mas sim para adultos.

É evidente que esses contos serviam para ninar e acalentar crianças e distrair pessoas em volta da fogueira numa noite escura, mas a essência e alguns elementos eram facilmente adaptáveis dependendo do público.

Chapeuzinho Vermelho e o Lobo. Ilustração de Gustave Doré, Séc.XIX

Com a evolução da escrita muito se ouvia e muito se registrava, e pelo fato de que até meados do século XIX imensa parte da população europeia ser composta por pobres e analfabetos ou semianalfabetos, os erros e as distorções nos contos de fadas podem ser infinitas.

O que nos contam de chapeuzinho vermelho pode não ser a mera aventura de uma garotinha que vai visitar a vovozinha. Trechos interpretados de maneiras diferentes apontam para outros fundos morais dentro da famosa história.

Era uma vez… a abertura mais famosa da literatura

Tudo não passa de uma fórmula. A frase de abertura dos contos Era uma vez já nos anuncia uma história carregada de inverdades. É o começo que menos tem pretensão de ser verdade. E realmente não são verdades.

As situações narradas até pretendem nos ensinar coisas sobre a vida, mas o simples fato de sabermos que animais não falam ou que pessoas não voam tornam o conto de fadas uma tremenda farsa previsível.

Uma coletânea de histórias não convencionais

O título do livro de contos reunidos e selecionados por Angela Carter é A menina do capuz vermelho e outras histórias de dar medo.

Nesse livro repleto de contos de fadas de diferentes origens, a autora pretende mostrar o quão assustador e enigmáticos podem ser os contos que crescemos ouvindo, e ainda recontamos aos nossos filhos e sobrinhos.

“Talvez seja melhor ser valorizada como um objeto de paixão do que nunca ser valorizada”

Evidentemente que o valor cultural e literário dos contos de fadas são inegáveis. Assim como as lições e ensinamentos que eles nos passam. A questão é que as fadas não aparecem tanto nos contos selecionados pela autora.

E se faltam fadas num conto de fadas, sobram animais distorcidos e tias malvadas, caçadores que não pretendem salvar ninguém e perigosas feiticeiras tão traiçoeiras quanto serpentes num pântano caudaloso.

Edição brasileira – Companhia das Letras

Vale a pena ler este livro. Uma coisa é certa. Após a leitura desses contos sua infância vai parecer um poço repleto de mentiras e enganações.

Afinal, os contos para adultos, assim como a vida, quase sempre não terminam com o tradicional felizes para sempre.

Leia alguns contos clicando aqui!

 

Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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