Sulfürica Billi – Stoner do Cabrunco

Sulfürica Billi

1-Quando e como surgiu o Sulfürica Billi?

DENIS – A Sulfürica… acho que uns 4 ou 5 anos atrás. Eu vinha escutando já coisas que me deixavam tipo porra… isso com fuzz e umas distorções ficaria interessante. Eram coisas como Son House, Blind Willie Johnson, Charley Patton, essa galera do blues pré-guerra e tal.

Descobri eles num quadrinho do Crumb chamado Blues. Aí parti pra cima do Ares (lembra do Ares?!) e fui baixando tudo deles. Daí que foram juntando várias coisas ao mesmo tempo. Eu já tocava em banda com formação tipo “normal” (baixo, duas guitarras, essas coisas).

Mas aí depois de ver esses caras tocando e principalmente o Son House eu me pegava tentando fazer a mesma coisa no Tonante, saca?! Esse foi meu primeiro instrumento de corda meu mesmo. Eu ganhei ele. É o instrumento que eu mais me identifico porque, além de outras coisas, ele tem uma voz bonita.

É claro que muita gente lendo isso vai pensar ah, esse cara tá fazendo tipo, Tonantes não prestam, não é instrumento de gente séria, de músico que preste e bla bla bla, mas daí eu digo foda-se, cresça, tenha uma filha, tenha contas para pagar, adquira uma bactéria estomacal cancerígena e aí venha conversar comigo.

Grande parte das músicas do primeiro como do segundo disco foram feitas nele. Minha esposa, a Milena, já tinha me dado ele um tempo antes mas aí eu olhei pra ele na parede e pensei que porra é essa. E deixei ele lá. Eu não estava preparado saca?! Aí depois de ver esses caras tocando com instrumentos do mesmo naipe… porra, pra mim foi aquilo: esse Tonante é o mais próximo que eu vou conseguir chegar deles e… vai ser lindo.

E tá sendo. Meti um captador humbucker de guitarra nele, comprei um fuzz e chamei na época mais dois caras pra tocar. Nem era pra ser instrumental. Eu tinha umas músicas que ficavam na minha cabeça o tempo todo então eu tinha que coloca-las pra fora aí montei a banda.

Essas músicas não cabiam nas bandas que eu tocava, entende?! Então no começo eram duas guitarras e a bateria. Chegamos a ensaiar e tal mas não rolou. Daí eu disse foda-se, isso tem que sair (isso no caso tanto as músicas da minha cabeça quanto a banda) e aí resolvi deixar só dois mesmo.

De lá pra cá percebi que foi a melhor coisa porque não preciso ficar com idas e vindas com mais três ou quatro integrantes para resolver as questões.

LUIS – Surgiu através do grito de socorro da serpente mergulhada no esgoto da cidade

2-O que vocês costumam ouvir?

LUIS – tenho escutado muito Animal Collective, Battles, Primus etc

DENIS – tenho escutado muito Graveyard e umas músicas de ninar do leãozinho voador, além das paradas da galinha pintadinha. Isso é sério. Mas… há um tempo atrás ouvia direto Nelson Gonçalves e Nelson cavaquinho na época do primeiro disco. Muita coisa desse disco é chupada desses dois caras, só que, claro, disfarçada pro underground não perceber, senão já viu. Essa coisa das frases riffadas e tudo vem daí. Desculpa.

 

3-Quando vocês descobriram que deveriam tocar no formato de duo?

LUIS – decidiram antes de eu participar na banda

DENIS – foi aquilo q disse antes. A coisa ia fluir melhor só com dois porque muita gente pra dar opinião e cheia de vontade e tal acaba hoje em dia me dando nos nervos, saca?! Fora o fato de que o lance musical dos espaços que acabam ficando pelo bem ou pelo mal na falta de um ou mais instrumentos acaba sendo também uma forma interessante de trabalhar musicalmente.

Eu me sinto bem nessa falta. Na verdade depois de um certo tempo percebi que minha vida musical, se é que posso chama-la assim, se baseia acho que nisso. Na falta. Seja lá do que for. Então acho que inconscientemente também acabei assimilando isso na música e trabalhando isso de uma forma mais direta

4- Qual foi o processo de gravação do EP Lei e como tem sido os shows e a divulgação?

LUIS – os shows estão vindo aos poucos e vamos começar a vender cds em eventos de shows

DENIS – engraçado isso porque todo mundo chama de EP mas pra mim é um disco mesmo. Um disco com seis músicas ^^. Bem, lá nos idos de 2013/2014 me tornei Espírita-Umbandista. Antes disso eu já tinha um contato íntimo, digamos, com o Tambor de Mina. Entenda a Mina como uma religião maranhense de matriz africana, para encurtar a história, senão nós não saímos daqui e já são quase 22h e tenho q bater o ponto (sim, eu trabalho).

A partir da Umbanda minha vida tomou uma guinada um pouco diferente e aí essas músicas começaram a surgir, isso já em setembro de 2014. Então achei que deveria fazer um disco de rock que tentasse falar um pouco dessa minha relação com a Umbanda e com determinadas entidades.

Um disco que não fosse chato e igual ao que já existe quando se trata dessa relação. Veja, você tem Rita Benedito, Clara Nunes e tantos outros que trabalham ou já trabalharam nessa seara. Não queria fazer um disco chato do caralho com batuques e chocalhos e dizer ah isso é um disco de rock, vocês não entendem?!isso é um disco de rock. Saca esse tipo de discurso mentiroso e pseudo sei lá?! Não.

Eu queria trabalhar isso de uma forma mais brutal e elementar, direta e o mais simples possível, ou seja, guitarra e bateria. É como as coisas me vêm. É como eu sinto isso tudo. Isso dá pra ver no disco porque o nome das músicas entrega muita coisa. Cosme e Damião, Légua, Tranca Rua da Cancela, Eu gosto da Tua Pomba-gira Porque Ela Não Usa Marcassita… e por aí vai.

Aí depois de ter já uma certa quantia de músicas prontas parti pro Studio que é o mesmo do primeiro disco. Km 4 produções. Tudo feito pelo Ruan que gravou e mixou e serviu café e de quebra resolvia questões existenciais. Gravei guitarra e bateria porque também pensei que, como era uma viagem minha, a coisa toda tinha que partir de mim mesmo.

Além do fato de sair bem mais rápido quando você tá fazendo as coisas sozinho nesse sentido. Tem uma web série também que foi feita para acompanhar o processo de gravação do disco. Tá no youtube. Aí foi isso. Os shows estão vindo e estamos divulgando nas redes mas… ainda acho que deveríamos ser contratados por alguma super-gravadora pra podermos reclamar na beira da piscina com pantufas cor de rosa e óculos ray ban de sermos extorquidos por essa super gravadora e participarmos daquelas queimas e esmagamentos de cds com aqueles tratores poderosos e potentes em praça pública contra a pirataria. Estamos abertos a diálogos. Sempre.

5- Quanto a questão de equipamento, com o seria o som de vocês sem um pedal de Fuzz?

LUIS – seria meio Robert Johnson

DENIS – só perderia um pouco das acentuações em determinadas frases das músicas. Eu toco com drive ligado o tempo todo então o som sempre vem com aquela sujeira gostosa que todo mundo gosta mas nega que gosta. O fuzz acrescenta mais gordura e raiva na coisa toda. Sem ele ficaria tudo mais plano. Talvez… Phil Veras

6- De que forma vocês conseguem substituir a ausência do Baixo? Tanto na forma de se tocar bateria quanto na guitarra?

LUIS – acho q se souber usar os graves dos 2 instrumentos se for necessário o baixo fica meio desnecessário

DENIS – eu nunca nem pensei em substituir nada quando estou fazendo as músicas. É até uma boa ideia saber se as pessoas sentem falta do baixo mesmo. O que faço é tentar sentir no peito sempre aquele som cavernoso quando subo pras cordas graves. Tanto é que acho que em todas as músicas sempre tem algo que vem mais pra 5ª ou 6ª corda. É meio que um efeito psicológico de dizer ei, tem um chão bem aqui. Mas nunca é pensando em um baixo ou na substituição dele. Pode soar como se fosse mas não é.

7- Diz aí, 5 livros/HQ’s, 5 filmes e 5 discos favoritos que você levaria para?

LUIS – Guia do mochileiro das galáxias, o processo, secreções excreções e desatinos, Lolita, o estrangeiro. Mistérios e paixões, vida aquática com Steve Missou, killer Joe, sinedoque Nova York, videodromo. Animal collective, tera melos, fela kuti, battles, gallo azhuu, um de cada

DENIS – livros:

Ereções, ejaculações e exibicionismos parte 1 e 2 (Bukowski)
Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo (D.F Wallace)
Extinção (Thomas Bernhard)
Os demônios (Dostoiévski)
Blues (HQ do Robert Crumb)

Filmes:

Carne (Gaspar Noé)
Sozinho contra todos (Gaspar Noé)
Enter the void (Gaspar Noé)
Os deuses loucos (doc do Jean Rouche)
O cavalo de turin (Bela Tarr)

Discos:

From the Muddy Banks of the Wishkah (ao vivo do Nirvana)
Ok computer (Radiohead)
Sings the blues (Nina Simone)
Marta lagarta já comeu os 3 reis magos (Pataugaza)
The complete blind Willie Johnson (Blind Willie Johnson)

Sabe aquele dia que tu vai pedir alguém em namoro?! Pronto, essa lista é boa pra esse dia. E não esquece de deixar o do Bukowski bem visível que é pros pais dela olharem e saber exatamente o que você pretende com filha alheia ^^

8- Qual mensagem/conselho você deixaria aqui para bandas iniciantes

LUIS – Não espere muito de ninguém além de você mesmo

DENIS – Faça o que tem que ser feito. Tenha bolas e faça (isso serve pras meninas também). Talvez você fique com fome, mas faça. E quando estiver fazendo e sentindo algo estranho, isso se chama vida e é assim que ela é. Apenas faça o que tem que ser feito.

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Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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