O melancólico romance de John Fante – A irmandade da Uva

A literatura de John Fante poderia figurar ainda mais no cenário literário americano e mundial. Seus temas e maneira como tece as narrativas é sensível e visceral ao mesmo tempo.

Charles Bukowski, profundo admirador de John Fante.

Nas palavras de seu grande admirador, o velho safado Charles Bukowski, Fante escreveu livros poderosos e grandiosos, e são todos da mesma ordem, escritos como se tivessem saído das entranhas e do coração. O velho Buck nunca escondeu de ninguém essa admiração pelas obras de John Fante.

De fato podemos afirmar que as obras de Fante dão um sabor diferente ao sentimentalismo literário americano. Ao lado de Hemingway, Steinbeck e William Faulkner, a arte narrativa do melancólico John Fante merece o devido respeito, pois ombreia com as grandes narrativas escritas por seus compatriotas, entretanto, existem diferenças claras entre eles.

Sofrimento e frases que nos falam como se a alma sussurrasse melancólico romance de John Fante

 
As frases de livros como Pergunte ao Pó, O Caminho de Los Angeles e A Irmandade da Uva, são carregadas de sofrimento, erotismo e parecem ter sido escritas por alguém que precisava colocar tudo o que tinha de angústia em seu coração para fora, num ato libertador e poético.
Os autores cujas obras também transmitem sentimentalismo e profundas reflexões sobre a vida. À esquerda, William Faulkner, seguido de Ernest Hemingway e John Steinbeck.

Diferente dos outros autores, Fante parecia mesmo ter dentro de si um sofrimento e rancores insondáveis em sua alma.

Ao ler Fante, em especial A Irmandade da Uva, nós temos a impressão que os dedos do escritor sobre as teclas da máquina de escrever são programadas para escrever aquilo que nós, meros leitores e admiradores da literatura queremos ouvir.

Enchi meu copo e fui até a varanda da frente, sentei-me na cadeira de balanço que rangia e acendi um cigarro. A escuridão veio rápido. Mais adiante na rua, uma mãe avançou na varanda e chamou as crianças para o jantar.

A lâmpada do poste da esquina acendeu com uma explosão e um cachorro velho trotou debaixo dela, correndo para casa. Os olhos brancos dos aparelhos de televisão brilhavam pelas janelas ao longo das ruas, caubóis correndo através das telas, armas de fogo espocando no crepúsculo de San Elmo. Uma cidade solitária.

Todas as cidades do vale eram iguais a ela, desoladas, misticamente provisórias, enclaves de existência humana, pessoas aglomeradas atrás de pequenas cercas e franzinas paredes de estuque, barricadas contra a escuridão, esperando.

Balancei para frente e para trás e senti a tristeza infiltrar-se em meus ossos, tristeza pelo homem e pela dor da solidão na casa de minha mãe e de meu pai, que envelheciam, aguardavam, marcando o tempo.

Ele nos fala de conflitos entre pai e filhos, sobre morte e sexo de modo solto, flutuante, num céu cinza, carregado de tristeza e sentimentalismo. A Irmandade da Uva é um romance que não costuma ser tão celebrado quanto Pergunte ao Pó (1939), O caminho de Los Angeles (1937) ou Espere a primavera, Bandini (1938). É um livro que conta a história de uma família ítalo-americana com inúmeros conflitos.

O escritor e roteirista John Fante e sua companheira, a máquina de escrever, meados da década de 70.

Sob o ponto de vista de um dos filhos, Henry Molise, escritor e um homem já maduro, com filhos e uma esposa até certo ponto adorável, recebe um telefonema de um de seus irmãos, com a bombástica notícia de que seus pais, juntos há 50 anos, querem se divorciar. A notícia balança todos os quatro filhos e traz a tona um mar de recordações e mágoas que o tempo custa a apagar.

O patriarca da família, Nick Molise é um velho turrão, jogador compulsivo e bebedor desenfreado de vinho. Teve uma vida repleta de trabalho duro como pedreiro e rodeado de tristes e obscuros episódios envolvendo a esposa e os filhos.

Eu tinha chegado ao limite de jogar sinuca, pôquer e falar besteiras derrubando copos de cerveja, de me enfiar com outros sujeitos e garotas em pomares solitários, metendo as garras desajeitadas em saias e calcinhas, agarrando em vão.

As mulheres eram ótimas, mas exigentes, você se magoava fácil aos dezenove anos; achava que as mulheres eram doces e submissas, mas descobria que eram gatos de rua; encontrava consolo com as putas que são menos enganosas, e se tiver sorte você aprende a ler.

Vidas que se cruzam e sofrem ao relembrar o passado doloroso no melancólico romance de John Fante

Todas as angústias que os filhos nutrem relacionadas ao pai, e o modo como a mãe fica em meio ao fogo cruzado, vão brotando das páginas escritas por Fante.

John Fante destila seu estilo rápido, com diálogos intensos e trazendo as lembranças dos filhos de modo fragmentado, mas que ao final do livro, podemos entender todo o mal que um pai sem estruturas para ser pai, ou talvez um homem com um passado duro e sem direcionamento pode causar aos seus filhos.

O resultado é um romance duro e pesado de digerir, com passagens que podem deixar o leitor mais nostálgico triste e até mesmo arrancar algumas lágrimas, já que é difícil não nos recordarmos de nossos pais, ou de nossos irmãos e refletir sobre nossa postura e comportamento dentro de nossa família.

Será que tudo o que nossos pais nos dizem é verdade e o melhor para nós? A relação entre irmãos é mesmo uma das mais saudáveis ou pode virar algo doentio e desprezível? Ou ainda, até que ponto os vícios podem carregar o ser humano para um caminho tortuoso e que certamente marcará vidas negativamente para sempre?

Ninguém cruzava com ele sem uma batalha. Desgostava de quase tudo, particularmente da mulher, dos filhos, dos vizinhos, da sua igreja, do padre, da sua cidade, do seu estado, do seu país e do país do qual havia emigrado. Não dava a menor importância ao mundo também, ou ao sol e às estrelas, ou ao universo, ao céu ou ao inferno. Mas gostava de mulheres.

Por que é importante ler a Irmandade da uva?

Esses questionamentos são apenas alguns de A Irmandade da Uva. Um romance fabuloso e obrigatório para os amantes do vinho, da literatura e das relações humanas entre pais e filhos.

Um livro que sem sombra de dúvida está na lista de exemplares mais melancólicos da obra de John Fante, e por que não da literatura mundial?

E para os que acham que a obra de John Fante está fora do tempo ou esquecida, vale lembrar que trocadilhos ainda são bem-vindos, e aqui no caso, Fante é como o vinho, quanto mais antigo melhor. Nunca envelhece ou sai de moda.

Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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