Afinação meio torta

Queria fazer uma canção cool com o Lee Ranaldo recitando uma poesia por seis minutos. Queria o Johnny Marr no canal esquerdo de um álbum meu. Ei, mas já tenho o Gomes e ele é incrível. Queria nadar pelado e tomar cerveja gelada.

Bom, não sei nadar, mas estava pelado na piscina tomando cerveja semana passada. Acho que já vale. Quis tomar capuccino e suar no verão à meia-noite. Ouvi fogos estúpidos e consolei pessoas com medo.

Cantei a 3ª afinada no refrão enquanto pensava sobre tomar veneno e mastigar vidro. É tão mais lindo que a voz principal. The Edge abrindo o filme do Rattle and Hum é lindo assim. Sim, eu sei que ele faz a voz principal, na verdade, a única. O mundo seria outro se ele não existisse.

Sempre sorrio quando sei que ninguém poderia ter escrito uma certa frase minha. Sempre sorrio com meus discos e as partes que acho bonitas e não vejo como alguém poderia ter criado elas. Só eu. É meu direito pensar assim. Comprei ele, o direito, em uma promoção na Uruguaiana. Não vendo barato, não façam ofertas. Aquele nome legal, quem mais pensaria?

Conto segredos estranhos no momento e torço para que sigam sendo segredos. Estranhos eles sempre vão ser. Nada pode mudar isso. Nem as lindas palhetadas em uma telecaster e um sotaque indecifrável de algum pequenino vilarejo inglês no headphone.

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Leonardo Panço Escrito por:

Leonardo Panço é um artista multimídia (escritor, guitarrista e zineiro dos bons) que teve sua formação construída entre as trincheiras da cena independente e do underground carioca quando fazia parte da banda de hardcore Jason.

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