Eu, Daniel Blake, filme para você pensar em anarquismo

A primeira coisa a dizer que cinema é luxo em tempos de apocalipse social e econômico. Não me conformo pagar R$ 26,00 na entrada. E isso meus amigos duofoxers não tem nada a ver com (des)valorizar a sétima arte, afinal o cinema é maravilhoso, mas caro pra “chuchu”.

Bem, não estamos aqui pra falar de preço de entrada, vamos falar do que interessa, Eu, Daniel Blake, “FILMÃO”, recomendo até o último segundo. A convite de um amigo fui assistir “no escuro” – sem saber sinopse, linguagem fílmica – apenas ciente que:

  1. era pra sair do cinema com lencinho enxugando as lágrimas.
  2. revoltada com a burocracia que nos é imposta goela abaixo todos os dias.
  3. As duas alternativas acima.

Claro que se você chegou ao terceiro parágrafo quer saber “o porquê” da recomendação. Eu, Daniel Blake é um drama britânico-franco-belga e já deu pra sentir o peso, além de ser ganhador de Palma de Ouro e outros 14 prêmios, como os festivais de Locarno e San Sebastián.

Daniel é um carpinteiro que após um ataque cardíaco e sem condições para retornar ao trabalho se vê refém do sistema burocrático para conseguir um benefício concedido pelo governo, similiar ao nosso auxílio invalidez daqui e tudo fica ainda mais complicado quando percebemos que ele é um analfabeto digital e todos os formulários a serem preenchidos devem ser unicamente feitos através da internet. Entre idas e vindas no departamento ele conhece uma mãe solteira com dois filhos, Katie, que mudou recentemente para NewCastle e não tem condições de se manter, buscando pelo mesmos recursos que Daniel.

Aqui fica clara a crítica do diretor em relação ao governo que impõem uma sistemática e cansativa burocracia sobre a minoria. O objetivo não é ajudar e sim dificultar e fazê-lo desistir pelo cansaço, com o bônus de perder o pouco que o trabalhador ainda tem e sofrer um processo.

Ao assistir I, Daniel Blake é possível entender o quão frágil é o sistema e ao mesmo tempo o quão complexo e gerador de paradoxos sociais são estabelecidos ao longo da trama. Mesmo tratando de questões sociais inglesas, obviamente bem longe do Brasil é fácil se colocar na mesma situação dos personagens ou mesmo conhecer alguém vivencie um caso, digamos, igual.

Um dos pontos positivos de todo esse cinismo do sistema fracassado é perceber que diante das dificuldades ainda existe humanidade entre as pessoas, o senso de colaboração e centros assistenciais se esforçam para ajudar, e sim, é possível ajudar ao próximo se querer algo em troca.

Blake e Katie compartilham de momentos difíceis, mas mesmo achando que os dois irão se amar e cair na pieguice de romance, no fundo ao assistir esse longa é o que você menos vai pensar, o foco aqui são as relações, relações essas entre pessoas e governo, entre governo e burocracia, entre burocracia e necessidades, entre pessoas e pessoas.

Se você ainda está com a pulga atrás da orelha, eu vou te dar um exemplo mais comum de sistema feito para te fazer desistir: Você precisa alterar um plano do seu celular, depois de vários números, você ainda precisa passar por diversos setores, responder as perguntas-praxe 20 vezes e depois de algumas horas ou você desiste e tenta outro dia, ou simplesmente deixa como está e continua pagando uma fortuna. Eu já passei por isso. Para alterar o plano eu teria que ligar num dia do mês específico, detalhe, cada mês o dia mudava. Viu? Eu sei que você conhece várias outras histórias.

Eu, Daniel Blake continua em cartaz em alguns cinemas em SP, então se você estiver de bobeira dá um pulinho no cinema, garanto que não vai se arrepender.

Francine Oliveira Escrito por:

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