A semana – Crônicas escolhidas e a importância da obra de Machado de Assis

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Antes de qualquer coisa, haverá pessoas com o típico trauma de Ensino Fundamental/Médio dizendo primeiramente “Odeio livros de vestibular”. Logo em seguida haverá mais algumas pessoas dizendo que “Detesto o idiota do Machado de Assis, que escreveu aquele maldito livro chamado Dom Casmurro, que é chato para cacete”. Então quebraremos aqui alguns paradigmas, reforçando porque você deve ler a obra do Machado de Assis. Aliás comecem pelas crônicas e contos, é caminho fácil e diversão garantida.

A semana é um livro de crônicas que reúne algumas destas que foram publicadas no Jornal a Gazeta de Notícias, abordando temas como Quermesses que deixaram de ser proibidas, o carnaval que sucedeu o velho entrudo e nas palavras do próprio Machado:

“Entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dois anos que o entrudo era alguma coisa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d’água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d’água despejadas à traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses. Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários.”

Origem do Machado de Assis

Encilhamento, que foi uma crise econômica na década de 1890, a república e guerras civis foram as principais temáticas das crônicas de Joaquim Maria Machado de Assis em A Semana. Nascido no Rio de Janeiro-RJ, em 21 de junho de 1839 no Morro do Livramento e falecido também no Rio de Janeiro, em 29 de setembro de 1908. Era mestiço, filho de um mulato carioca, pintor de paredes e de uma lavadeira imigrante açoriana.

Era de origem humilde, frequentou apenas a escola primária, pois precisou trabalhar desde a infância, perdeu a mãe muito cedo, pouco se sabe sobre sua infância e início da juventude. Trabalhou com tipografia, aos 15 anos e foi galgando de cargos, tornou-se posteriormente revisor e acabou sendo mais tarde redator e em 1890 Machado começou a trabalhar em cargo público.

Tornou-se o contista mais excepcional da língua portuguesa e um dos poucos romancistas brasileiros de interesse universal. As suas mais representativas obras foram traduzidas para diversas línguas, nesse grupo incluem-se Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires.

Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, foi eleito presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte. É fundador da cadeira nº 23, seu grande amigo, José de Alencar, foi escolhido para ser seu patrono.

A Semana – Machado de Assis (1892-1893)

Nesta obra, Machado aborda estas questões de forma sarcástica e com muito estilo, que fizeram dele um grande romancista e contista. Inclusive retrata a escassez na época do encilhamento com inúmeros detalhes:

“Quando os jornais anunciaram para o dia 1º deste mês uma parede de açougueiros, a sensação que tive foi muito diversa da de todos os meus concidadãos. Vós ficastes aterrados; eu agradeci o acontecimento ao Céu. Boa ocasião para converter esta cidade ao vegetarismo.

Não sei se sabem que eu era carnívoro por educação e vegetariano por princípio. Criaram-me a carne, mais carne, ainda carne, sempre carne. Quando cheguei ao uso da razão e organizei o meu código de princípios, incluí nele o vegetarismo; mas era tarde para a execução. Fiquei carnívoro. Era a sorte humana; foi a minha. Certo, a arte disfarça a hediondez da matéria. O cozinheiro corrige o talho. Pelo que respeita ao boi, a ausência do vulto inteiro faz esquecer que a gente come um pedaço de animal. Não importa, o homem é carnívoro.

Deus, ao contrário, é vegetariano. Para mim, a questão do paraíso terrestre explica-se clara e singelamente pelo vegetarismo. Deus criou o homem para os vegetais, e os vegetais para o homem; fez o paraíso cheio de amores e frutos, e pôs o homem nele. Comei de tudo, disse-lhe, menos do fruto desta árvore. Ora, essa chamada árvore era simplesmente carne, um pedaço de boi, talvez um boi inteiro. Se eu soubesse hebraico, explicaria isto muito melhor.”

Na aversão da população e dos mesários as eleições:

“Toda esta semana foi empregada em comentar a eleição de domingo. É sabido que o eleitorado ficou em casa. Uma pequena minoria é que se deu ao trabalho de enfiar as calças, pegar do título e da cédula e caminhar para as urnas. Muitas seções não viram mesários, nem eleitores, outras, esperando cem, duzentos, trezentos eleitores, contentaram-se com sete, dez, até quinze. Uma delas, uma escola pública, fez melhor, tirou a urna que a autoridade lhe mandara, e pôs este letreiro na porta: A urna da 8ª seção está na padaria dos Srs. Alves Lopes & Teixeira, à rua de S. Salvador n…”.

Alguns eleitores ainda foram à padaria; acharam a urna, mas não viram mesários. Melhor que isso sucedeu na eleição anterior, em que a urna da mesma escola nem chegou a ser transferida à padaria, foi simplesmente posta na rua, com o papel, tinta e penas. Como pequeno sintoma de anarquia, é valioso.

Variam os comentários. Uns querem ver nisto indiferença pública, outros descrença, outros abstenção. No que todos estão de acordo, é que é um mal, e grande mal. Não digo que não; mas há um abismo entre mim e os comentadores; é que eles dizem o mal, sem acrescentar o remédio, e eu trago um remédio, que há de curar o doente. Tudo está em acertar com a causa da moléstia.

Comecemos por excluir a abstenção. Lá que houvesse algumas abstenções, creio; dezenas e até centenas, é possível; mas não concedo mais. Não creio em vinte e oito mil abstenções solitárias, por inspiração própria; e se os eleitores se concertassem para alguma coisa, seria naturalmente para votar em alguém, — no leitor ou em mim.”

A semana é um incrível relato sobre a vida na década de 1890, escrita por um dos melhores ou o melhor escritor brasileiro, sem dúvidas. Machado de Assis, não só deixou um legado, com seus romances (Dom Casmurro, Memórias Póstumas e Alienista), contos (Papéis Avulsos) e A semana (não-ficção, crônicas) que você pode adquirir na Top Livros.

Referências
http://www.machadodeassis.ufsc.br/apresentacao.html
http://machado.mec.gov.br/
http://www.machadodeassis.ufsc.br/obras/cronicas/CRONICA,%20A%20semana,%201892.htm#C1893
https://pt.wikipedia.org/wiki/Machado_de_Assis

Diego Fernandes Escrito por:

Bebedor desenfreado de café e averso a picanha, Diego é desenvolvedor front-end e professor. É o fundador do Duofox. Na literatura não vive sem os russos Dostoiévski e Anton Tchekhov e consegue "perder" tempo com autores da terra do Tio Sam, Raymond Chandler e Melville. Acredita que a arte de maneira geral é a única forma de manter o ser humano pelo menos acordado, longe do limbo que pode levar a humanidade à Encruzilhada das Almas.

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