Um amor – Solidão, vazio e a decadência do homem na obra de Dino Buzzati

Até onde um homem pode chegar por conta de uma paixão? Como o corpo e a mente se comportam diante de situações que levam o indivíduo ao ridículo? Sensações, mistérios e mentiras são ingredientes que poderiam estar em qualquer romance, seja nacional ou estrangeiro.

Mas o que temos essa semana vem da Itália. Muitos o admiram como um grandioso escritor. Dá até para encontrar traços de Kafka em seus parágrafos reflexivos, no volume narrativo e na amplitude de vozes que ele cria com apenas dois personagens centrais.

Um Amor é a última obra de Dino Buzzati. Não li sua obra prima, O deserto dos Tártaros, aclamado pela crítica, porém, Um Amor me trouxe inúmeras reflexões e me fez enxergar a relação homem/mulher de um modo diferente.

A batalhe entre o polo feminino e o masculino

Antonio Dorigo, o protagonista do romance, tem uma vida estável e um emprego decente. Ele poderia ser o seu chefe, o seu parente, poderia ser qualquer um que encontramos na esquina da padaria.

Dorigo passaria despercebido por todos nós se não fosse por um detalhe. Um detalhe de seios pequenos, duros, cabelos longos, negros e um olhar enigmático, por quem ele se derrete e embarca numa viagem sem passagem de volta.

Laide é uma jovem prostituta que leva Dorigo a rastejar, a comer o pão que o diabo amassou. Conhecer Laide em uma casa de prostituição foi a pior coisa que Dorigo poderia ter feito em sua vida. O que se segue após o encontro dos dois é um vertiginoso desmoronar.

Laide o trata como cliente, mas um cliente que ela mantém na coleira, feito um cão vadio e sarnento. E Dorigo, na mais humana das intenções, a persegue, a admira, a idolatra, a ama. O perigo está exatamente ai. Em diversos momentos do livro temos nossa sensibilidade e nossas emoções testadas.

Até onde podemos ir para acreditar numa inverdade

Não acreditamos nas atrocidades sutis que Laide pratica. Assim como não cremos que um homem na idade de Dorigo possa se submeter aos caprichos de uma garota de apenas dezoito anos.

Não estou falando de um livro qualquer. Tudo nele é diferente. A atmosfera de incertezas, de lacunas que tendem, capítulo após capítulo, a não se completar vai nos angustiando. Ler Um Amor, de Dino Buzatti, foi na certa uma excelente experiência de leitura. Li num tempo justo, duas semanas.

dino buzzati
Dino Buzzati, um dos maiores nomes da literatura italiana do século XX. Um jornalista que trouxe a crueza e o realismo à sua obra.

É um romance que prende, e nos momentos em que fica um pouco mais arrastado, ainda sim, continua absorvente. E aqui uma coisa brilhante e que fui notando durante a leitura. Buzatti nos transforma em um outro Dorigo. Sim, nos torna um personagem duplicado. Sofremos junto e somos enganados juntos, odiamos junto, amamos junto, nos excitamos junto.

Não tem como escapar dos encantos hipnóticos de Laide, essa Carmen de Prosper Mérimée, doce e ardilosa. Ela faz o que quer da gente. Menina má e amável. Uma protagonista feminina das melhores que já tive o desprazer e o prazer de conhecer como leitor.

E por mais que saibamos que tudo o que está acontecendo na história seja, talvez, mentira de Laide, se bem que nem tudo é mentira, mesmo assim, continuamos lendo, uma página atrás da outra e cada vez mais somos atirados num bosque sombrio. E não tem lanterna. É escuridão total.

É um livro melancólico e fascinante

Não consegui largar o livro. Não deu para abandonar. Não deu, sério. Não com esse livro. Saber o final é uma questão de honra, ainda que seja uma honra inútil.

Outro ponto curioso do livro é que, sabendo que a obsessão de um homem por uma jovem garota de programa tende a acabar de um jeito trágico e confuso, cheio de altos e baixos, estamos lá, firmes e fortes, esperando que um dia, numa praça de Milão, ao pôr do sol, numa esquina qualquer, a redenção chegue para ambos, Laide e Dorigo.

Acredito que vale muito a pena encarar esse livro, entrar na história e descobrir as cosias que aguardam os dois personagens. Só é preciso ter cuidado para não se perder nessa história que tem muito mais a nos dizer sobre nós mesmos do que realmente parece.

Carmen de Prosper Mérimée, personagem enigmática da literatura francesa

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Felipe Terra Escrito por:

Professor e amante da arte literária, atua na área da educação desde 2011. Viciado na música de Bach, Mozart e Chet Baker, e na literatura de Raymond Chandler, Ross Macdonald e Paul Auster. Ama escrever e acredita que poderia ler mais, porém, precisa dormir, infelizmente. Consegue passar horas jogando pôquer ou xadrez com os amigos. Degustar pizzas de queijo e bacon é um dos passatempos prediletos em horas de fome extrema.

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