Indivíduo Coletivo- Exposição Individual de Daniel Lima

Em sua primeira exposição individual, Daniel Lima mostra suas obras nascidas das vivências do punk e dos ateliers coletivos, torcendo cores e questionando o status quo.
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Daniel Lima

Daniel Lima é artista plástico, educador, mediador e produtor cultural no interior do estado de São Paulo. Trabalhou no meio editorial por muito tempo até que, em 2012, desistiu e se voltou integralmente para o underground independente, pulando de coletivo em coletivo desde então.

Junto de alguns parceiros fundou a Casa Trinta – espaço cultural onde por 2 anos o coletivo promoveu inúmeros trabalhos nas áreas das artes visuais, música e produção cultural – tudo D.I.Y., horizontal e independente. Nesse meio tempo vendeu comida vegana, bolsas, camisetas, fanzines e desenhos como muambeiro. Fez parte também do Coletivo Tridente, que surgiu espontaneamente através da amizade de três artistas e seus encontros ao longo de anos, conceitualizando-se no final de 2013 e agraciado com uma exposição no próprio Epicentro Cultural em 2014.

Reutilizando lixo, atropelando telas e picando revistas, seu trabalho experimenta diversas formas de expressão visual entre processos gráficos, colagem, pintura e desenho, abordando temas relacionados à pluralidade da mente humana e suas relações. Daniel foi um membro original da banda punk bragantina Vírus no Sistema e hoje toca baixo nas Bacantes, banda paulista de rock torto.

Atualmente vive à beira do absurdo numa aventura no poder público como produtor e designer, observando de camarote por debaixo da fina e frágil cortina que é o governo brasileiro.

Daniel também não come carne e não guia.
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Curadoria: Cassiano Reis / Epicentro Cultural

Vernissage: 07 de Agosto às 19h

↗ DJ JazzySENSE.
↗ VJ set Astronauta Mecanico
↗Pocket Show Animal Cracker (Matias Picón)

Quando?

10 a 28 de agosto de 2015

Visitação: seg a sex das 12h às 19h (toque a campainha)

Onde?

Epicentro Cultural

Projeto apoiado pelo Governo do Estado de São Paulo / Secretaria de Estado da Cultura – Programa de Ação Cultural 2015

⤟ [ epicentrocultural.com ] ⤠

Entrada livre e gratuita

Stephen King – Sobre a escrita, a arte em memórias

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Sobre a escrita, começa de forma autobiográfica e confessional, sobre os primeiros anos de vida de Stephen King. Fala de suas vitórias e derrotas profissionais e pessoais, dos jornais estudantis que participou, das primeiras experiências com escrita plagiando histórias para ganhar alguns trocados. Traquinagens que todo pré-adolescente costuma fazer.

Por trás de uma vida difícil, Stephen King foi criado apenas por sua mãe, que mudava-se constantemente, em busca em seu pai. Enfrentou inúmeras dificuldades, antes de alcançar o sucesso. Contos rejeitados por revistas e editoras, faziam com que Stephen King, colecionasse cartas de rejeição de seus editores, colando-as na parede seu quarto, como medalhas.

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Mesmo depois de jogar o primeiro manuscrito de Carrie – A estranha, na lixeira. Sua esposa Taby, pegou o manuscrito do lixo dizendo “Isso é coisa boa”. Foi a partir deste manuscrito de Carrie, que King saiu do anonimato. Logo outros sucessos foram saindo do cantinho improvisado, na lavanderia do trailer alugado onde viviam.

Mas o intuito do livro é ensinar alguns truques para escrever e se dar bem com editoras. Em 1999, quando este livro estava sendo escrito, King foi atropelado por um furgão, resultando em 2 meses sem conseguir ficar de pé, a tíbia da perna direita foi esmigalhada, algo como uma meia cheia de cacos. A rótula do joelho foi partida ao meio, quadril deslocado e costelas quebradas. Uma história que assemelha-se com seus romances de tão macabra. Felizmente, conseguiu vencer a fase de recuperação para que pudesse terminar Sobre a escrita. Mesmo depois de 40 anos de carreira, King continua nos presenteando com seus romances, contos de terror e ficção. Confira abaixo, algumas dicas do Mestre do terror:

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  1. “Escreva com a porta fechada, reescreva com a porta aberta. Em outras palavras, sua obra começa a ser escrita apenas para você, mas então ela vai embora. A partir do momento em que você sabe qual é a história e consegue realizá-la bem – quão bem você puder – ela passa a pertencer a qualquer um que queira lê-la. Ou criticá-la.”
  2.  “As ferramentas básicas vêm primeiro. E a mais básica de todas, o pão da escrita, é o vocabulário. Neste caso, você pode empacotar feliz o que tem sem o mínimo de culpa ou inferioridade. Como a prostituta disse ao marinheiro acanhado: ‘Não importa o tamanho, benzinho, mas como você usa'”.
  3.  “Você também precisa da gramática no topo da sua caixa de ferramentas(…)
    Ou se absorve os princípios gramaticais da língua nativa através de conversação e leitura, ou não se absorve. (…)”
  4.  “Voz Passiva – “O corpo foi carregado da cozinha e posto no sofá da sala”.
    Voz Ativa – “Freddy e Myra carregaram o corpo para fora da cozinha e puseram-no no sofá da sala”.
    “(A voz passiva) é fraca, é um rodeio e frequentemente é tortuosa também”.
  5.  “Se você quer ser um escritor, você deve fazer duas coisas acima de tudo: ler muito e escrever muito. Até onde eu saiba, não há como evitá-las, não há atalhos”.
  6.  “Acredito que a estrada do inferno esteja pavimentada com advérbios”

Lost Lions, Projeto Trator e Maurício Takara salvaram o fim de semana

Chega o fim de semana e o ditado é sempre o mesmo, “Vou descansar, dormir… ah não tem nada para fazer, cidade chata… blábláblá”. O engraçado que as pessoas que reclamam, dificilmente mudam o cenário. Chega de balela… neste último sábado 25/07, chuvoso, frio, com o pé encharcado e muita coragem. Chegamos na Casa das Mangueiras com uma garoa fina e um frio adorável. Exatamente as 20 horas inicia-se o Raro zine Duo Sessions.

O primeiro piloto Kamikaze foi Matias Pícon, com seu projeto denominado Facka. Mesmo desfalcado, seguiu no melhor estilo One man band , tocando bumbo, guitarra e vocal. Mandou canções com sonoridade que fugiram através do túnel do tempo, mais precisamente do inicio da década de 90, com muito delay e bom gosto.

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Continuando a dança bragantina, a esquadra zurra perdoense, Crasso Sinestésico, tocou com um pouco mais de punch e mudança na formação. Deixando de lado a drum machine e mudando-se com mala e cuia para bateria de verdade(coisas que só Gepeto faz por você).Fora o setlist de sempre, um cover do Stooges, Gimme Danger encharcado de Fuzz Industry e Delay.

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Por German Martinez

Esfumaçando a noite, com psicodelia setentista. O The Lost Lions destruiu em sua primeira apresentação, com uma sonoridade que agrada tanto os sabbaticos quanto os zepelins. Tocaram um som com qualidade excepcional e com uma projeção de primeira, tornando o show um grande espetáculo visual. Lost Lions foi o destaque da noite.

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Para chutar o pau da barraca e espantar o frio, Projeto Trator fez um pacto na encruzilhada, para tocar bem eternamente e alegrar os amigos com suas canções sabbaticas. Alunos aplicados, sempre tiraram 10, em riffs lentos e ganchudos, em beats arrastados e vocais inimitáveis. Dispensa qualquer comentário, o pacto tem dado certo desde 2006.

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Para fechar a noite de sábado, convidaram todos que sobreviveram as 4 bandas, há subir a escada para os céus ao som da craviola nas mãos de ninguém menos que Sergio Ugeda (Diagonal, Debate), tocando um som instrumental de fazer muitos ficarem com o queixo caído, entre suas alternâncias de ritmo e melodias uníssonas. O Raro zine Duo Sessions foi excelente, se você não pode comparecer neste, compareça no próximo, fica a dica.

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Continuando a epopeia sonora numa Gig atibaiense, domingo 26/07, tarde ensolarada com abertura de Guilherme Valério , que misturou ritmos africanos e uma kalimba ligada ao pedal de fuzz, só poderia sair coisa boa, não há duvida quanto a isto.

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Na sequência, Mauricio Takara com Henrique Diaz, deixaram a tarde mais bonita ao som do cavaquinho, cuatro (instrumento latino com 4 cordas, muito utilizado na Venezuela, que faz lembrar um Ukelêlê com corpo maior) e um Skate com cordas de aço. Tocaram canções dos álbuns, puro osso e toti. Tarde linda e com musica de bom gosto, fechando o fim de semana. Recarregando a bateria das pessoas que precisam enfrentar a segunda-feira e que ao primeiro gole de café, sentirão saudade do divertido fim de semana.

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Leonid Andreiév, um russo que você precisa conhecer

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Os temas que Andreiév aborda são alimento para leitores famintos. Leonid Nikoláievitch Andreiév nasceu na cidade de Orel na Rússia, em  9 de agosto de 1871. Foi um dos maiores escritores russos do início do Século XX.

As contradições e angústias da alma humana são matéria prima para seus textos, que incluem peças de teatro e contos excepcionais. Raras vezes o autor não recorre aos seus temas favoritos, como a morte, o jogo e o sofrimento que consome o ser humano.

Em um de seus livros mais lidos, Judas Iscariotes e outras histórias, Andreiév oferece ao leitor contos potentes e questionadores, que nos levam a refletir, no conto que dá nome ao livro, sobre o verdadeiro papel de Judas Iscariotes na paixão de Cristo. Na verdade Andreiév sugere alguns questionamentos. Judas teria feito uma espécie de sacrifício, para tornar Jesus um ser Divino e adorado? A traição lançou Judas num abismo tenebroso, do qual, mesmo que desejasse, não poderia jamais escapar? Cabe ao leitor responder essas questões.

Além de Judas Iscariotes, outros contos de Andreiév levantam questões fascinantes, como é o caso do conto O Nada, em que um homem importante, agonizando em seu leito de morte, tem que decidir, após a visita do diabo, se quer a vida eterna infernal ou viver num completo vácuo, o nada, simplesmente deixar de existir para sempre. O diálogo entre o velho moribundo e o diabo resulta em um conto brilhante.

Seus textos são habitados por personagens infelizes e que inspiram compaixão. O autor nunca conseguiu se livrar dos traumas passados, e deixava tudo isso transbordar em seus textos. Andreiév pinta em seus textos imagens trágicas e repletas de amargura, através de seus vencidos personagens, com um estilo revoltado, impetuoso e torturantemente pessoal.

Esses e outros contos são literatura russa de primeiríssima linha. Nas palavras de Máximo Gorki, “Andreiév tem uma intuição surpreendente, fina, ao tratar das contradições da alma humana e das fermentações do instinto.”

Seus primeiros contos e novelas alcançaram relativo sucesso na época. Até mesmo Tolstoi, em pleno vigor literário, o considerava um escritor poderoso.

A vida de Andreiév, como a de tantos outros escritores, foi bastante difícil. Em épocas de penúria, chegava a ficar dias e dias sem ter o que comer, chegando a tentar o suicídio, que não se consumou, pois o socorreram a tempo. Ainda no hospital, segundo estudiosos de sua obra, Andreiév se arrependeu de seu ato e começou a refletir sobre a incapacidade humana de se sobrepor ao destino e a vontade de Deus. Andreiév morreu em 12 de Setembro de 1919, ano em que ainda publicava, de um ataque cardíaco em plena miséria.

Leia um trecho de Judas Iscariotes de Leonid Andreiév.

Ivan Denísovitch, um retrato triste e profundo da crueldade humana

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Um dia na vida de Ivan Denísovitch é um profundo e triste relato sobre a crueldade humana. Escrito em 1962, pelo russo Alexandre Soljenítsin, o romance ganhou proporções gigantescas no ano em que foi publicado.

Soljenítsin nasceu em 1918, em Rostov, e cresceu querendo ser escritor. Porém, por conta de problemas familiares, não pode receber educação literária. Sendo assim, acabou ingressando na universidade local onde estudou matemática e mais tarde sendo professor.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Soljenítsin lutou na linha de frente do Exército Vermelho. Em 1945 foi feito prisioneiro, pois censores da época descobriram, numa carta endereçada a um amigo, referências de caráter “difamatório” a Joseph Stalin. O que lhe rendeu essa carta? Oito anos de trabalhos forçados em um campo correcional na região da Sibéria. Mas esses anos seriam apenas alguns dos quais o autor sofreria nos Gulag, campos de trabalhos forçados. Ao contrário do que se pensa o autor só passou a ter pensamentos contrários à ideologia os anos em cativeiro.

Baseado em suas experiências como prisioneiro em diversos campos de trabalho, Alexandre Soljenítsin escreveu uma série de romances, onde expôs a verdade sobre o que se passava dentro do regime correcional soviético.

Entre seus trabalhos mais aclamados estão Pavilhão de Cancerosos, escrito entre 1966 e 1968, é um de seus textos mais sombrios. Nele, o autor descreve o sofrimento diário de um campo-hospital de cancerosos no Uzbequistão. O nome da obra é bastante sugestivo, pois o próprio Alexandre teve um câncer que, todavia conseguiu vencer.

Arquipélago Gulag, de 1973. É um denso livro documental, de quase 650 páginas, uma narrativa sobre fatos dolorosos vividos pelo autor, prisioneiro durante onze anos, em Kolima, num dos campos do arquipélago, e por outras duzentas e trinta e oito pessoas, que confiaram as suas cartas e relatos a Soljenítsin.

Além de outros trabalhos não menos importantes, encontramos sua obra prima. Um dia na vida de Ivan Denísovitch é um profundo e triste relato sobre a crueldade humana. Escrito em 1962, esse “pequeno Grande” romance ganhou proporções homéricas após sua publicação.

O que Alexandre Soljenítsin, na época com 43 anos nos conta é uma história repleta de absurdos e atrocidades. Para escrever o livro Soljenítsin não precisou coletar nem ler testemunhos de antigos prisioneiros dos campos. Ele simplesmente viveu cada um dos mais de 3.800 dias de cativeiro. Verdadeiramente, Um dia na vida de Ivan Denísovitch não é um mero relato de sobrevivente. As páginas são um histórico e heróico testemunho sobre a miséria, injustiça e a dor. Uma ode aos seres humanos que, como no título de um livro de Dostoiévski, são diariamente humilhados e ofendidos.

Alexandre Soljenítsin numa de suas passagens pelos campos de trabalho
Alexandre Soljenítsin numa de suas passagens pelos campos de trabalho

A obra toda soa como um grito, um apelo à sociedade mundial e soviética da época, que até a publicação da 1ª edição, não tinha noção do que os homens, entre eles jovens, pais de família e até mesmo idosos com problemas de saúde enfrentavam dentro desses grosseiros e desumanos campos correcionais.

A escrita de Soljenítsin, ao contrário de seus compatriotas, Tolstói e Dostoiévski, é uma escrita limpa, solta e direta. Através da narrativa de Soljenítsin somos transportados às congelantes estepes de um campo de trabalhos em Caranga, norte do Cazaquistão.

Nesse campo, conhecemos Ivan Denísovitch Chukhov, um homem calejado por ter sido preso em outros tempos e ter lutado na frente durante a Segunda Guerra, mas acaba caindo nas garras do Kremlin graças a uma acusação absurda de espionagem alemã. Chukhov fora capturado pelos nazistas durante uma batalha territorial.

Ivan Denísovitch era inocente, mas recebeu uma dura pena de dez anos. Porém, essa pena era flexível, não terminando antes, mas sim, com o risco absurdo de se prolongar por mais dez anos. Para isso, bastava que um dos diretores ou oficiais do campo cismasse que algum prisioneiro merecia o acréscimo de mais dez anos.

O romance escancara de forma inédita na literatura, os estarrecedores aspectos do sistema de repressão Stalinista. O personagem acorda pela manhã com um sentimento diferente dentro si. Não consegue identificá-lo. Não sabe se é a dor de sua alma, que desperta para mais um dia de sofrimento e luta pela sobrevivência, ou se é o corpo, reclamando a falta de alimentos ou da embriaguês de uma noite mal dormida.

O frio lá fora, cortante e desanimador. Ao toque da alvorada todos os homens deviam se enfileirar fora das barracas e esperar pela contagem. O termômetro do campo, com seus ponteiros marcando – 30°C apresentava a condição perfeita para o trabalho a céu aberto. Guardas armados com metralhadoras e cães farejadores, que arreganhando os dentes afiados, pareciam zombar dos prisioneiros enregelados.

As únicas luzes fora dos dormitórios, que abrigavam mais de 40 homens, mas algo durante a leitura nos leva a crer que essas acomodações só poderiam comportar humanamente uns 15 homens, eram luzes dos holofotes das torres de vigia. Após a contagem feita era hora de tomarem o café da manhã.

A trama é desenvolvida de forma brilhante. Cada momento do livro é crucial para seu completo entendimento. Nada é demais ou de menos. Durante a alimentação os prisioneiros refletem sobre suas últimas refeições fora do campo. Sonham com a liberdade, em abraçar suas esposas, filhos e até mesmo em poder dormir sem saber que hora acordar. As tigelas se amontoam, e muitas delas nem sequer são lavadas de forma higiênica. Para forrar o estômago, um caldo ralo e sem valor nutritivo, uma papa de aveia com água e 200 gramas de pão duro e enegrecido. O clima de tensão dentro do refeitório, onde os roubos de “ração” são comuns, chega a sufocar durante a leitura, graças a maestria narrativa de Soljenítsin.

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Dormitório dos prisioneiros. Os colchões de serragem eram abrigo para percevejos e outras pragas.

Em certa passagem do livro, Ivan Denísovitch guarda um pedaço de pão negro e duro dentro de um bolso secreto, que ele próprio costurara durante algumas noites. As roupas que usam diariamente em suas funções não são suficientes para conter o a violência do frio. As botas de couro curtido muitas vezes não cabem nos pés, o que torna ainda mais penoso o trabalho diário.

Alguns personagens secundários do livro também merecem atenção. Imagine-se rodeado de toda a sorte de homens. Ucranianos, estoianos, russos, poloneses e caucasianos, cada um com um passado doloroso preso à garganta e as esperanças e a tolerância fugindo de seus corações como pássaros de uma gaiola.

Tiúrin, um líder nato, comanda os homens diariamente, servindo como escudo para todos os companheiros de turma. É ele que com sua liderança garante muitas vezes “melhores” condições de trabalho no campo. A amizade entre os homens, apesar das diferenças de idade e pátria, é um aspecto admirável.

Aliocha, um batista que diariamente lê uma cópia manuscrita do Novo Testamento, vive preso às escrituras. Um religioso que acredita piamente que Deus o colocou dentro do campo para sua alma. Desse personagem provem uma bela passagem, em que, após ter ouvido Ivan Denísovitch orar baixinho em seu beliche, inicia um belo debate sobre fé e poder Divino.

“Mas, Ivan Denísovitch, você não ora com fervor. E é por isso que as suas suplicas ficam sem resposta. Não deve deixar de dizer outras orações. Se tem fé autêntica, diga a uma montanha que se mova. E ela se moverá…”

Chukhov sorriu e enrolou outro cigarro. Depois pediu fogo ao estoiano.

“Deixe de conversas, Aliocha. Nunca vi uma montanha mover-se. Bem, para ser franco, afirmo-lhe que nunca na minha vida vi uma montanha. Mas você, que rezou no Cáucaso com toda essa seita de batistas a que pertence, viu alguma vez, uma única que fosse, uma montanha mover-se?”

Esse é apenas um trecho dos melhores momentos do romance, que apesar de narrar somente um dia na vida de Ivan Denísovitch, não deixa de fora quase nenhum assunto de caráter humano.

alimentacão de prisioneiros
Prisioneiros se alimentando num dos refeitórios pouco antes de irem para o trabalho diário.

Soljenítsin nos ajuda a refletir sobre a condição humana de Ivan, que segundo a história do autor, é a sua própria condição. Condição essa que nos obriga sentir um pouco da dor que ele próprio sentiu durante os anos em que viveu aprisionado. Nos leva também a questionamentos sobre o que é de fato importante em nossas vidas. Pois para um encarcerado, um pedaço de pão era um valioso tesouro. Um cigarro pela metade, jogado sobre a neve, servia para um regozijo noturno.

Numa outra passagem, talvez uma das mais singelas e tristes do livro, um jovem enfermeiro recusa-se a dar um atestado de dispensa por dores a Ivan. O personagem sai da sala, cabisbaixo e com um profundo vazio na alma. Tudo que queria na verdade, era permanecer mais alguns minutos dentro da sala branca, cheirosa e quente da enfermaria. Em sua mente, apenas uma indignada pergunta. “Como se pode esperar que um homem que sente calor compreenda um que sente frio?

Ao término da história, o leitor se sentirá profundamente triste e indignado em saber que, de diversos modos, fatos como os que Ivan e seus companheiros viveram ao longo das 190 páginas, ainda se repetem, de forma mais branda ou não, camuflada ou não, em diversos lugares do mundo. O que Alexandre Soljenítsin quis deixar ao mundo foram documentos literários verdadeiros, que segundo ele, não tinham pretensão alguma de torná-lo famoso. Entretanto, mais tarde, em 1971, o conjunto de sua obra lhe rendeu o prêmio Nobel.

Um dia na vida de Ivan Denísovitch é um livro brilhante, um relato potente e humano sobre amizade, esperança e luta pela sobrevivência. Texto belamente escrito, sobre seres humanos comuns injustamente forçados a tornarem-se “animais”. Mas acima de tudo, é uma inquietante mensagem, sobre o que o homem não deve fazer no presente para “corrigir erros” que talvez ele mesmo possa cometer no futuro.

Bob Staake ensina como detonar no photoshop 3

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Fazer arte com software velho, pode não parecer novidade para muitos.No entanto, Bob Staake, ilustrador da velha guarda, da época em que se fazia ilustrações com guache e papel vegetal.Não entendia nada de informática, mas enveredou-se pelo mundo até então desconhecido da tecnologia, no inicio dos anos 90.

Arranjou um velho  Mac Power PC 7100 (com apenas 500 mb hard disc!) e começou a brincar no Photoshop 3, não confundir com CS3, a versão 3 do Photoshop é de 1994.Utilizando apenas o mouse, sem mesas digitalizadoras ou tablets. A primeira impressão é de que o processo de trabalho seja simples, as ilustrações são feitas com círculos, quadrados, retângulos, triângulos.No entanto, com olhar mais apurado, é possível visualizar a complexidade no workflow de Bob Staake, ao utilizar apenas formas geométricas no photoshop e trabalhar com os brushes, de forma peculiar.Mas é difícil  acreditar como Bob Staake, consegue um resultado tão impressionante.

Sobre o caminho das pedras trilhados por Bob Staake para aprender utilizar um computador:

Aprender isso, é claro, me deixou totalmente em pânico. Como eu seria capaz de “competir” no mundo de ilustração comercial, se eu não estava criando minha arte digital como todos os outros? Como eu poderia ficar esperando a FedEx, enquanto meus colegas poderiam enviar e- mails a um cliente? Com 38 anos,  vi o meu futuro como ilustrador sendo sugado profundamente, nos poços de piche para se juntar ao resto dos dinossauros.Não tinha ideia do que era um “Mouse” e muito menos “dpi”

Assim como Hal lasko, o vovô do MS Paint, Bob Staake, pode nos ensinar, que a maior tecnologia ainda é o nosso cérebro.Não importa qual ferramenta será utilizada.Seja um lápis e papel, podemos criar uma infinidade de mundos e dimensões, pense nisto!

Carmen de Prosper Mérimée, personagem enigmática da literatura francesa

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Para os apreciadores do ritmo mordaz e rapidez inconfundível da narrativa americana, a literatura francesa é um restaurante com cardápio abundante. A intenção aqui não é comparar literatura americana e francesa mesmo por que, com todo o respeito, os amantes do Tio Sam precisarão comer muito Big Mac para alcançar os gigantes de Napoleão. Para quem está acostumado com o peso da obra Balzaquiana, ou até mesmo com a suavidade romântica da narrativa de Victor Hugo, vai achar sensacional a forma como Prosper Mérimée escreve.

Apesar de não ser tão aclamado, pelo menos não muito fora da Europa, Mérimée foi desde cedo um amante de História e arqueologia, o que lhe rendeu muito material para seus escritos. Aluno aplicado, aprendeu grego, latim, espanhol, italiano, inglês e russo. Desse último idioma, acentua-se sua importância para a literatura mundial, pois foi ele o precursor das traduções literárias do russo para o francês.

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Prosper Mérimée, um francês místico e obcecado por história

Prosper Mérimée nasceu em Paris, em Setembro de 1803, morrendo em Cannes, no ano de 1870. Embora tenha vivido num período tido como romântico francês, sua obra não deve ser considerada puramente romântica, pois seus textos eram bastante ásperos para época, e não possuía a característica eloquente de seus conterrâneos do romantismo.

Mérimée admirava profundamente o misticismo e coisas incomuns. Sua obra sofreu influência direta da ficção histórica de Walter Scott e do drama psicológico e repleto de crueldade de Pushkin. Seus textos eram objetivos, concisos e dramáticos. Grande parte de suas obras fictícias retratam lugares exóticos da Espanha e Rússia.

Durante sua trajetória como literato, escreveu, em 1825, O Teatro de Clara Gazul, atribuindo satiricamente a autoria do texto a célebre “comediante espanhola”. Escreveu a peça Cromwell, nunca publicada e sem registros de uma cópia, deixou também contos de grande valor literário, como La Vénus d’Ille, de 1837, uma trama de horror fantástico onde uma estátua de bronze ganha vida, e Colomba, de 1840, sua primeira novela de sucesso, onde conta a história de uma jovem corsa que obriga seu irmão a cometer, por vingança, um assassinato.

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Carmen, uma mulher sensual e diabólica

De todas as obras de Mérimée, a mais famosa é a novela Carmen, publicada em 1845. A novela narra a história da cigana misteriosa e diabólica, Carmen. A construção do texto de Prosper flui de maneira limpa, leve e ágil. A narrativa em primeira pessoa cresce em emoção, suspense e deixa sempre as perguntas, Onde essa história vai terminar? Quem de fato é Carmen?

Carmen é mais que uma cigana. É uma mulher fatal. Ávida de riqueza e dona de uma beleza que enfeitiça e leva os homens à loucura e desgraça. O modo como Prosper constrói a personagem é fascinante. Podemos sem receio, considerar Carmen uma das melhores e mais enigmáticas personagens da literatura. Tamanha força da personagem levou o compositor francês Georges Bizet a usá-la de matéria prima para compor a ópera homônima, uma das maiores de todos os tempos. A obra ainda inspirou filmes de Francesco Rossi e Jean-Luc Godard.

A história é contada por um narrador anônimo, que ao longo da narrativa conhece Dom José, um soldado que tem sua vida alterada por conta de um simples e casual encontro com uma mulher misteriosa, Carmen. O poder da cigana em seduzir e manipular os homens e em criar armadilhas, beira ao demoníaco, o que lhe rende o “apelido” de demônio em diversas passagens do livro. O mistério que ronda a figura de Carmen é o ponto narrativo central, que Mérimée usa de forma magistral para prender o leitor da primeira a última linha.

Ouça a ópera Carmen de Georges Bizet: